A fuga pelo bocal do tanque do carro: entre sonhos e duelos transibéricos. Numa viagem Porto-Madrid, quando a gente chega lá, dá vontade de encher de gasolina até as veias!
Porto-Madrid e o ritual de abastecer
Tenho a impressão de que existe algo de sonho nisso tudo - ou talvez seja só o efeito dos vapores de benzeno somados à luz dura do meio-dia, batendo no asfalto da A25 - quando eu, um consumidor português de Gasolina Super 95, encaro o momento de parar num posto e abastecer. É quase um treino de masoquismo cívico.
Saio do Porto rumo a Madrid com o tanque em 1/4; no meu carrinho de 50 litros, isso significa carregar um pequeno tesouro cujo valor, no mercado, oscila em algum lugar entre um grama de açafrão iraniano e uma ação de tecnologia em queda livre. Vou cruzando as Beiras, os pinheiros-bravos e os sobreiros quietos, mas um gaio estoura no ar - um grito de metal - como se risse da conta e da extorsão que eu aceito.
Vilar Formoso, Fuentes de Oñoro e a diferença fiscal na Super 95
Passar a fronteira em Vilar Formoso não é apenas mudar de mapa; é atravessar para um lugar onde a física tributária segue outra gravidade. Em Portugal, sob a gestão quase clerical da AD de Luís Montenegro, o preço da Super 95 vira uma arquitetura barroca de taxas, sobretaxas e imposto sobre imposto, desafiando a lógica e o próprio Aristóteles.
No Porto, o letreiro gelado e castigador da Repsol fica ali, brilhando: 2,059 euros/l. E a nossa Autoridade da Concorrência - uma entidade com o carisma de um vegetal diante do lobby oleoso das gasolineiras - assiste a tudo com a passividade bovina de quem não quer atrapalhar o banquete dos cartéis.
Aí acontece o “milagre” de Fuentes de Oñoro. No instante em que minhas rodas encostam na Autovía de Castilla, o cenário e o peso no bolso mudam: o granito dá lugar à vastidão da “dehesa” espanhola, as carvalhas-cerquinho vigiam a estrada e, junto delas, uma sensação de bem-estar. Pedro Sánchez, um socialista-humanista valente, faz aqui sua mágica distributiva: protege o consumidor com um corte forte na carga tributária de energia - reduz o IVA para 10% e ainda aplica descontos diretos que chegam a 0,30 euros/l.
Enquanto Montenegro segura a correia das “metas europeias”, que soam como areia entre os dentes, Sánchez entende que o cidadão precisa de oxigênio - ou, pelo menos, de hidrocarbonetos que não exijam a hipoteca dos dois rins.
Salamanca e Madrid: 1,53 euros/l e o sonho transibérico
Na dourada Salamanca, a gasolina despenca para uns gloriosos 1,53 euros/l. Ali, o tal mercado liberalizado não aparece como mito corporativo: é um fato que respira concorrência de verdade. O contraste com a minha Repsol do Porto é violento: 0,53 euros/l. No meu tanque, isso dá uma economia de 26,50 euros! A viagem vai virando peregrinação política, e eu sigo pelo planalto castelhano e pelas azinheiras em exaltação.
O sol de Castela acende uma ideia de futuro; já o trauma fiscal existencial de Portugal vira fumaça sonolenta, e eu me pego sonhando com o sonho transibérico de Saramago. Chego a Madrid em brasa, e a única coisa que eu quero é meter gasolina nas veias. E os 26,50 euros que economizei? Tostei tudo em fruta negra: Alberdi?, Marqués de Riscal? Borsao Tres Picos? Que venha o melhor tempranillo, um Pago de los Capellanes Crianza - nem que dê só para uma taça sob o sol radiante da Plaza Mayor!
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