Seu carro gasta 30%, 40% ou até 50% mais combustível do que o prometido? Mesmo levando em conta diferenças de trajeto e de estilo ao volante, é fato que existe distância entre os números oficiais e o que acontece no dia a dia.
No começo dos anos 2000, essa diferença era de cerca de 8%. Em 2015, porém, chegou a um recorde de 42%. Um dos principais responsáveis foi o ciclo de homologação Novo Ciclo Europeu de Condução (NEDC), que não era atualizado desde 1997. Ao permanecer praticamente igual por anos, ele não acompanhou a evolução dos automóveis e acabou abrindo brechas que foram bem exploradas pelas montadoras.
Quem ganhou e quem perdeu com o ciclo NEDC?
Com o NEDC, as fabricantes passaram a ter mais espaço para ampliar margens (ou até reduzir preços…), e nós, consumidores, também acabamos pagando menos impostos. Quem talvez tenha saído mais prejudicado foram os governos. Mas, considerando que o Estado somos todos nós, o efeito final se espalha.
No Parlamento Europeu, já existe um projeto de lei em debate, que ainda precisa vencer alguns obstáculos antes de ser aprovado. Apesar disso, o teste em si não recebeu mudanças. A explicação é simples: um novo procedimento já estava pronto para entrar em cena naquele mesmo ano: o WLTP.
O que é o WLTP?
O WLTP (Procedimento de Teste Global Harmonizado para Veículos Leves) estabelece um padrão mundial para medir, em veículos leves (de passeio e comerciais leves), os níveis de CO2, emissões de poluentes, consumo de combustível ou de energia e também a autonomia no modo elétrico.
Ele foi criado para funcionar como referência global, seguindo recomendações e diretrizes da UNECE (Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa), e detalhado de forma mais concreta por especialistas da União Europeia, do Japão e da Índia.
O que muda?
Em relação ao NEDC, o WLTP revisou os procedimentos com base em informações de condições reais de condução. A intenção é que o ensaio represente com mais fidelidade a maneira como as pessoas dirigem, fazendo com que os dados oficiais reflitam melhor o uso cotidiano e ajudem a frear a tendência de aumento das discrepâncias observadas até então.
Na prática, o resultado é um ciclo de testes mais exigente e mais confiável.
No que consiste?
A duração do teste de emissões passa de 20 para 30 minutos. Além disso, os veículos passam a ser agrupados em três classes diferentes, de acordo com a relação peso/potência e com a distância percorrida durante o ensaio. A distância total do teste também aumenta: sai de 11 km e vai para pouco mais de 23 km.
Em vez de duas etapas, o WLTP trabalha com quatro fases - Baixa, Média, Alta e Extra Alta velocidade - para incluir cenários de condução mais variados. A velocidade máxima do ciclo sobe de 120 km/h para 131 km/h, e a velocidade média do teste cresce de 34 km/h para 46,5 km/h.
Quando será implementado o WLTP?
A mudança não levará muito tempo. A partir de 1º de setembro de 2017, todos os modelos novos lançados no mercado passaram a ser obrigados a informar consumos e emissões oficiais conforme o ciclo WLTP.
Já os modelos que estavam à venda antes disso poderiam manter os valores obtidos no NEDC. Em alguns casos, é possível que a ficha técnica apresente os números oficiais dos dois ciclos.
Esse período de transição se estende até 1º de setembro de 2018. A partir dessa data, todos os modelos passam a trazer valores de consumo e emissões exclusivamente segundo o WLTP.
O impacto do WLTP no bolso
A adoção desse ciclo de homologação tende a provocar um aumento generalizado nos valores oficiais de consumo e de emissões de todos os automóveis. E, como ocorre em muitos países europeus, em Portugal o CO2 é um dos componentes mais importantes na definição dos impostos ligados ao automóvel.
Por isso, é essencial entender qual pode ser o impacto financeiro da migração para o novo ciclo no país. A Comissão Europeia recomenda aos Estados-membros que os consumidores não sejam obrigados a pagar mais impostos apenas por causa da troca do NEDC pelo WLTP.
Dessa forma, foram sugeridos ajustes nos sistemas fiscais em vigor para que o consumidor não seja prejudicado. Resta aguardar para ver como o governo português aplicará as recomendações da Comissão Europeia sobre esse assunto.
Mais informações
A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) criou um site, o Fatos sobre o WLTP, dedicado exclusivamente a explicar o novo ciclo WLTP: como funciona, quais são os benefícios, as consequências e as principais dúvidas. Infelizmente, o conteúdo está disponível apenas em inglês, mas é organizado por temas e resumido em várias infografias.
Imagens: TÜV NORD
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