O Porsche 911 está entre os carros mais reverenciados de todos os tempos. E, quando o assunto são os clássicos, essa reverência costuma virar devoção. Eu nunca tinha entendido (por completo) o motivo… até dirigir um.
Como muitos de vocês, passei anos e anos lendo páginas e mais páginas sobre as qualidades incomparáveis dos Porsche 911 clássicos. Confesso que isso nem sempre me convenceu - para começo de conversa, o motor fica no lugar “errado”… mas já chego lá. Então, aos fãs da marca de Estugarda, peço que deixem as pedras no bolso até o fim.
Dizem que os espanhóis “veem com as mãos”. Com carro, em alguns casos, eu sou assim: preciso “ver”, ou seja, preciso dirigir. A convite do Jorge Nunes, dono de um santuário automotivo chamado Sportclasse, apareceu a chance de finalmente “ver” um 911 clássico com as mãos - e logo em versão “unicórnio”: um Porsche 911 Carrera 2.7 de 1974.
Um “unicórnio” chamado Porsche 911 Carrera 2.7 (1974)
O apelido faz sentido porque só 1647 unidades do Porsche 911 Carrera 2.7 (Euro-spec) foram produzidas. Ele nasceu depois do fim da linha do lendário Porsche 911 Carrera 2.7 RS Touring (M427) - a versão mais “civil” do primeiro RS, aquele que vale uma fortuna. O “nosso” Carrera 2.7 divide com ele o motor Type 911/83 com injeção mecânica da Bosch (MFI) e uma porção de outros componentes (quase todos). Razões mais do que suficientes para que um exemplar desses hoje passe com folga dos 200 000 euros - valor que segue subindo como se não houvesse amanhã.
Entrar, ajustar o banco e dar a partida
Talvez com medo de eu não acompanhar o ritmo do Carrera 2.7 nas curvas, o Jorge repetiu o preço do carro, sem exagero, umas 10 vezes. Eu só fui assentindo, o mesmo número de vezes, e fiquei com aquele valor tatuado no subconsciente durante o teste inteiro (ou quase…).
“O motor no sítio errado (sim, no sítio errado) obriga-nos a uma abordagem diferente à entrada das curvas.”
A primeira tarefa era simples: sair de Lisboa. Tirando a direção “assistida no braço” e o câmbio relativamente duro, o Porsche 911 Carrera 2.7 se deixa levar com facilidade. A posição de dirigir não é nada extraordinária (ganha na visibilidade), e pedais e direção não ficam exatamente alinhados com o motorista.
Até aqui, minhas impressões eram diretas: além da raridade, da beleza e da história (o que já é bastante), eu ainda não tinha encontrado nada neste 911 Carrera 2.7 que justificasse o preço. Observação: por favor, sigam com as pedras no bolso por mais algumas linhas…
Primeiros sustos
Deixei Lisboa para trás e apontei para uma estrada menos congestionada, para explorar o que o Carrera 2.7 realmente tinha a oferecer. Fui aumentando o ritmo aos poucos e, de repente, a conversa ficou séria.
Com o carro ligeiramente em deriva e com a direção quase direita tornou-se muito mais fácil sair das curvas sem alargar a trajetória.
Antes de entrar nos sustos que levei com a direção e com a traseira, preciso falar do motor. Quando eu já começava a perder a fé no Carrera 2.7, o cenário mudou. Que motor soberbo! E nem é pela potência (apenas 210 cv), mas pela resposta e pelo som que ele devolve ao motorista nesse processo de queimar gasolina sem piedade. Eu finalmente estava ao volante de um air-cooled - e estava gostando. Queria mais.
A cada toque no acelerador, o Carrera 2.7 respondia na hora. Sem lag, sem atraso, sem… bits e bytes no meio do envolvimento homem/máquina. Boa parte desse temperamento vem da injeção mecânica da Bosch (MFI) - a última vez que a Porsche usou essa solução em um modelo de produção.
Depois de esticar terceira e quarta acima do que a lei permite, chegou um gancho à direita - mais rápido do que eu esperava. O Carrera 2.7 faz 0-100 km/h em apenas 6,1 segundos. Freios sem ABS, motor no lugar errado, velocidade demais. Fiz as contas na cabeça e concluí que eu tinha três opções: fazer a curva; arrumar 200 000 euros; ou fugir para o Brasil. Como dá para imaginar, eu fiz a curva.
Entreguei o carro ao Jorge Nunes a marcar mais 600 km. Quanto entrei na oficina ele sorriu para mim (não sei por ver a minha cara de felicidade, se por ter visto o carro inteiro).
Depois dessa experiência - eu não chamaria de “quase morte”, mas de “quase falência” - deu vontade de pegar o telefone, ligar para dois ou três especialistas em Porsche e xingá-los. Por acaso você não tem uma pedra para me emprestar, não?
Quando tudo começou a fazer sentido
Passado o susto, respirei e me acalmei. Sabe aqueles instantes de clareza em que tudo, de repente, encaixa? Comigo e com o Carrera 2.7 foi mais ou menos isso. Eu consegui cometer praticamente todos os erros possíveis até finalmente entender o carro.
Querem a lista? Sim: arrastar a frente na saída de curva. Confirmado: subesterço no meio da curva. Sem dúvida: sobresterço intempestivo. Só faltou uma visita à vala mais próxima.
No meio de palavrões em voz alta e lembrando de tudo o que eu tinha lido sobre 911 clássicos - que naquele instante eu jurava ser exagero - veio a lembrança principal: 911 clássico não se dirige como um carro “normal”. O motor no lugar errado (sim, no lugar errado) exige uma abordagem diferente na entrada das curvas. Parei um pouco e tentei dar um reset no cérebro. No fundo, era reaprender a dirigir. Algo bem mais fácil de falar do que de fazer.
Respirei fundo, girei a chave do lado certo (sim, nisso a Porsche está certa) e voltei a andar. Criei coragem e comecei a levar um pouco de frenagem para dentro das curvas de média velocidade e, e voilà… a traseira finalmente começou a colaborar com a dianteira. De uma hora para outra, tudo passou a fazer sentido.
Com o carro ligeiramente de lado e a direção quase reta, ficou muito mais fácil sair das curvas sem abrir a trajetória. O equilíbrio é delicado, mas, quando você descobre, dirigir o Carrera 2.7 vira recompensa. A gente finalmente se entende.
Feitas as pazes, eu esqueci quanto custava aquele Carrera 2.7 e comecei a me sentir realmente à vontade. Dizem que amizade não tem preço, certo?
Um Porsche 911 clássico que exige experiência
Este carro não é para iniciantes…
Para constar: eu tenho 30 anos. E tenho a sensação de que este carro não é para gente nova. Minha geração foi das primeiras a começar a dirigir com ajudas eletrônicas - uma mão na roda quando, no meio da curva, acaba aquela coisa chamada… talento! Isso mesmo, talento. Aqui não existe ESP, nem ABS, nem qualquer “XYZ” que te salve. Você está por sua conta e risco.
Ainda bem que cresci no interior do Alentejo, e isso me deu contato, desde cedo, com máquinas bem diferentes (tratores, caminhões, motos, quads e automóveis). Eu gosto de acreditar (não significa que seja verdade…) que essas vivências me prepararam para dirigir carros mais antigos. Conviver com câmbios teimosos, freios sem ABS e direção sem assistência fez parte do meu aprendizado.
Em outras palavras, o Carrera 2.7 é carro para gente “casca-grossa” (no sentido figurado) - para quem, antes de encarar um 911 clássico, passou pela escola da velha guarda. Ele pede mão, decisão e talento para tudo funcionar. Não é por acaso que, a partir do 911 Carrera, nasceram alguns dos melhores carros de corrida da história da marca.
Dito isso, será que eu tenho “casca” suficiente para domar 210 cv selvagens com o estábulo no lugar errado? Sinceramente, não.
Não é para todo mundo… e não é só pelo preço
Admito: eu não sou o homem certo para a função. E digo mais - as habilidades necessárias para dirigir um 911 clássico devem levar anos para serem construídas. Se você nunca dirigiu um, saiba que ele é diferente de tudo o que você já conduziu. O melhor é dar um reset na cabeça e tentar dirigir “do jeito Porsche”. Foi o que eu fiz.
Da próxima vez que alguém disser que o Carrera 2.7 não tem nada demais - e eu já ouvi isso algumas vezes - responda como eu respondo: “o problema é teu, não o conduziste suficientemente depressa”. É naquela velocidade em que tudo começa a se encaixar. Você precisa usar os desequilíbrios naturais do carro a seu favor.
E não: não é um carro para qualquer um. O câmbio pede uma combinação de força e precisão difícil de acertar (a famosa G50 melhorou esse ponto); os freios não têm o tato dos carros atuais (você vai “queimar” algumas frenagens até ganhar feeling no pé direito (ou esquerdo); e o único controle de tração disponível é o seu bom senso.
Mesmo assim, quando guiado devagar, o 911 Carrera 2.7 surpreende por ser um carro incrivelmente “normal” no dia a dia. Não dá medo de acabar com a embreagem no para-e-anda, nem é preciso fazer truques mirabolantes para o motor pegar, como acontece em outros esportivos da época. Essa versatilidade segue sendo, até hoje, uma das características mais apreciadas no Porsche 911.
De volta à Sportclasse
Final da aventura
Entreguei o carro ao Jorge Nunes marcando mais 600 km. Quando entrei na oficina, ele sorriu para mim (não sei se por ver a minha cara de felicidade, ou por ter visto o carro inteiro); tinham sido os primeiros 600 km “de verdade” depois da restauração completa feita na oficina da Sportclasse.
Agora que fui contaminado pelo vírus dos air-cooled, vou ter de conviver com a angústia de dificilmente ter um - e como eu queria ter um 993. Infelizmente, estão cada vez mais caros, cada vez mais raros e cada vez mais… Porsche. Pior: com o escritório da Razão Automóvel localizado em cima da Sportclasse, vou passar a vida vendo eles passarem. Se o Jorge não ler isto, talvez ele me empreste a chave de outro de novo…
Conheçam todos os detalhes deste Porsche 911 Carrera 2.7.
Imagens: Gonçalo Maccario / Sportclasse
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