Os veículos elétricos com pilha de combustível a hidrogênio (FCEV, ou Fuel Cell Electric Vehicle) vêm sendo uma das principais apostas da Toyota como alternativa aos elétricos a bateria e como parte do caminho para atingir a neutralidade carbônica.
Toyota Mirai e os números que freiam a ambição
Ainda assim, os dados não deixam margem para muita interpretação: o Mirai, sedã elétrico a pilha de combustível a hidrogênio da Toyota, emplacou apenas 3924 unidades no mundo em 2022. Mesmo com desempenho melhor em 2023, o volume segue longe de ajudar a marca a cumprir a meta de vender, todos os anos, 200 mil veículos fuel cell até 2030.
O diretor técnico da Toyota, Hiroki Nakajima, confirmou à britânica Autocar, durante o Salão de Tóquio deste ano, que as vendas ficaram muito abaixo do que se esperava:
“Tentamos, mas o Mirai não tem sido bem sucedido”
Hiroki Nakajima, diretor técnico da Toyota
Na visão de Nakajima, o fraco desempenho do sedã grande tem uma explicação direta: a infraestrutura insuficiente de abastecimento de hidrogênio. Segundo ele, “há poucas estações de hidrogênio e são difíceis de concretizar, por isso, o Mirai é pequeno (em volume)”.
Reorientar esforços
Apesar do resultado comercial decepcionante, a Toyota não dá sinais de abandonar a pilha de combustível a hidrogênio. Por isso, o grupo japonês decidiu redirecionar o desenvolvimento da tecnologia para os veículos comerciais.
A leitura não é exclusiva da Toyota. Dentro do setor, há quem veja em comerciais e caminhões de carga o uso mais coerente para esse tipo de solução - Hyundai e Stellantis, por exemplo, também seguem nessa direção.
A lógica é relativamente simples: em vez de preencher o veículo com baterias caras, pesadas e volumosas, a operação com hidrogênio pode evitar parte dessa dependência. Além disso, como as rotas de veículos comerciais tendem a ser mais previsíveis, fica mais viável planejar uma rede de abastecimento eficiente.
Nakajima reforça o argumento ao explicar que “Para os caminhões de tamanho médio é mais fácil conseguir uma rede de abastecimento, já que são sobretudo viagens do ponto A ao B. Um grande número de caminhões vão de A a B e por isso as estações de abastecimento podem operar com maior estabilidade”.
Por isso, ele volta a enfatizar que “os veículos comerciais são a área mais importante para experimentar e prosseguir com o hidrogênio”. Além disso, ele enxerga espaço para a pilha de combustível a hidrogênio em picapes, como sugere o protótipo já apresentado da Hilux.
Infraestrutura de hidrogênio e metas na Europa e na China
Esse reposicionamento também acontece num momento em que China e Europa aceleram aportes em hidrogênio voltados à descarbonização do transporte de cargas. Na União Europeia, a meta é instalar uma estação de abastecimento de hidrogênio gasoso a cada 200 km na TEN-T (rede de transporte transeuropeia) até 2031.
Tecnologia sempre a evoluir
A segunda geração do Mirai já marcou um avanço relevante para a tecnologia fuel cell dentro da Toyota - e a evolução, segundo a empresa, continua.
A montadora diz estar trabalhando numa nova geração de pilha de combustível a hidrogênio voltada especialmente para veículos comerciais. A promessa é reduzir o custo à metade em relação ao sistema atual e elevar a durabilidade para 2,5 vezes mais do que a de um motor a diesel. Além disso, a Toyota afirma que o conjunto será 20% mais eficiente, o que deve resultar em menor custo de abastecimento - um ponto decisivo na operação de veículos comerciais.
A partir dessa nova pilha de combustível, a Toyota também desenvolve outra com metade do tamanho. Com isso, a possibilidade de uso futuro em automóveis leves de passageiros segue aberta, assim como a aplicação em outras máquinas, incluindo equipamentos dos setores de construção e medicina.
Além do sistema em si, a Toyota trabalha em novos tanques de hidrogênio, abandonando o formato cilíndrico atual (feito em fibra de carbono e capaz de suportar 700 bar de pressão). A intenção é melhorar o aproveitamento interno, reduzindo o espaço tomado no veículo.
Até aqui, a empresa chegou a duas alternativas: tanques planos e tanques em formato de “sela”. Esta última solução permite que um eixo de transmissão passe por cima e está sendo desenhada para ocupar, diretamente, o espaço que seria de uma bateria num carro elétrico.
Afinal, desta vez a aposta da Toyota na pilha de combustível a hidrogênio vai se confirmar? A meta de 200 mil veículos por ano fuel cell até 2030 já está logo ali.
Enquanto isso, os elétricos a bateria também parecem enfrentar dificuldades, com desaceleração da procura - algo que Akio Toyoda, ex-diretor executivo da Toyota e atual presidente não executivo, fez questão de destacar.
Fonte: Autocar
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