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IEA critica transportes em Portugal: 54% das emissões vêm do setor

Carro elétrico verde metálico estacionado em garagem moderna com vista para ponte e mar ao fundo.

Portugal conta com uma das redes elétricas mais limpas entre os países integrantes da Agência Internacional de Energia (IEA), puxada pela expansão da energia solar, eólica (30,3%) e hídrica (18%). Ainda assim, há um capítulo em que o avanço fica aquém do necessário: o de transportes - e é justamente onde a agência concentra as críticas.

Hoje, os transportes são a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa associadas à energia no país e, na avaliação da IEA, também o setor que menos evoluiu na transição energética. Um estudo recente da agência aponta que, em 2024, os transportes responderam por 54% do total de emissões do setor energético, com o petróleo garantindo cerca de 92% do consumo final de energia nesse segmento.

Para a IEA, o nó está no fato de o parque automotivo português ser “bastante envelhecido e ineficiente”. Dados divulgados pela ACAP no início do ano indicam que circulam atualmente em Portugal cerca de 1,6 milhões de automóveis com mais de 20 anos.

O problema dos usados

Mesmo com o aumento das vendas de elétricos - 38% em 2025 -, a participação desses veículos no total da frota ainda é baixa: perto de 6%. O motivo, segundo a agência, é estrutural: “O poder de compra limitado impulsiona a forte preferência por usados, resultando numa taxa de substituição de veículos lenta e num parque automóvel envelhecido e ineficiente”. O relatório acrescenta que os usados representam cerca de 80% das vendas de automóveis em Portugal.

Diante desse cenário, a IEA sugere que Portugal “introduza um subsídio para a compra de veículos elétricos usados destinado a agregados familiares de baixos rendimentos, o que ajudaria a reduzir a idade média do parque automóvel e as emissões”, conforme registra o documento.

“Daqui para a frente, a política de elétricos nacional precisa de refletir melhor o poder de compra limitado e a estrutura do mercado automóvel português”.

IEA

Na visão da agência, esse apoio deveria beneficiar principalmente motoristas profissionais e pequenas e médias empresas, “para garantir que os escassos recursos públicos cheguem a quem mais precisa de apoio financeiro e cujo potencial de redução de emissões é maior”.

Vale lembrar que Portugal já mantém um mecanismo de incentivo à compra de elétricos, mas restrito a carros novos (até 38 500 euros) e condicionado à entrega para abate de um veículo a combustão com mais de 10 anos.

“Os subsídios para a compra de elétricos novos - cerca de 4000 euros atualmente - também contribuíram para o crescimento das vendas, embora o orçamento anual de cerca de 10-12 milhões de euros apenas suporte cerca de 1% das vendas anuais de veículos e esteja normalmente esgotado em poucas semanas”, concluiu a agência. O regulamento final para este ano ainda não foi divulgado.

Carregamento e transportes públicos

A recomendação sobre elétricos usados é apenas uma parte das observações. A IEA também defende que o país acelere a expansão da infraestrutura de carregamento e amplie o suporte aos transportes públicos e ao transporte ferroviário.

Além disso, a agência sustenta que a migração para outros modais deve continuar no centro da política de mobilidade. Somado a isso, afirma que o planejamento urbano e regional precisa assegurar que todos tenham acesso a alternativas como caminhar ou pedalar, além de transporte público e trens de alta velocidade.

Por fim, a IEA diz que “o governo nacional devia adotar um requisito vinculativo para que todos os novos veículos governamentais sejam elétricos, sempre que tecnicamente viável, e estabelecer um cronograma claro para a conversão de toda a frota em veículos elétricos”.

Um país com boas fundações, mas trabalho por fazer

O relatório, porém, não se limita a apontar falhas: ele também destaca acertos. A rápida alta da energia solar (painéis solares), combinada com a geração hídrica e eólica, colocou a eletricidade produzida em Portugal entre as de menor intensidade de carbono dentro do grupo de países da IEA - reforçando a segurança energética e diminuindo a dependência de importações.

A diretora-executiva adjunta da IEA, Mary Burce Warlick, que esteve em Lisboa para apresentar o relatório ao lado do secretário de Estado da Energia, Jean Barroca, resumiu o desafio que permanece: “À medida que as reduções de emissões dependem cada vez mais da eletrificação em toda a economia, a eletricidade torna-se central tanto para a segurança energética como para o desenvolvimento económico. Garantir que as redes, os mercados e os quadros de investimento evoluem ao mesmo tempo que a eletrificação será fundamental para manter a acessibilidade.”


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