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Monterey Car Week 2022: relato completo da 71.ª edição

Carro esportivo azul estacionado em ambiente interno com vista para o mar e quadro de carro na parede.

O Monterey Car Week nasceu em 1950 e acontece na baía de Monterey, na costa do Pacífico - a 190 km ao sul de São Francisco, nos EUA. A proposta original era simples: colocar o automóvel no centro das atenções, primeiro com corridas em vias públicas e também com a exibição de carros novos e de alguns clássicos.

Quem confirma essa origem é Sandra Button, presidente do Pebble Beach Concours d’Elegance: “era apenas um evento de apoio às corridas que chamavam mais público”.

Com o tempo, a iniciativa se expandiu e passou a reunir um conjunto cada vez maior de atividades sob o guarda-chuva Monterey Car Week, até virar o que muita gente descreve como a maior celebração do carro no mundo. A programação ocorre, tradicionalmente, entre a segunda e a terceira semana de agosto de cada ano.

Museu vivo

Mais uma vez, fomos à Califórnia para acompanhar esse encontro tão singular. Como de costume, o calendário oficial da 71.ª edição da Monterey Car Week começou em 17 de agosto com a longa Pebble Beach Motoring, uma viagem que leva uma caravana de raridades a percorrer cerca de 1600 km pela costa do Pacífico, entre Seattle e Monterey. Algumas dessas preciosidades ainda seguem para o ponto alto do programa: o Concurso de Elegância de domingo.

Para quem tinha menos tempo - ou pouca disposição para tantas horas em carros quase sempre mais duros e desconfortáveis (continuo achando que clássicos são melhores para contemplar do que para “viver”… ) -, a alternativa foi a Tour d´Elegance, que liga Pebble Beach ao trecho costeiro conhecido como Big Sur. O roteiro passa obrigatoriamente pela charmosa Carmel-by-the-sea e retorna a Pebble Beach pela sinuosa via circular 17 Mile Drive.

O pano de fundo, ali, é dominado pela costa recortada, emoldurada por árvores altíssimas e, claro, pelo Cipreste Solitário, árvore-símbolo da Península de Monterey que aparece em uniformes da polícia local, bandeiras municipais e afins.

“Quem dá mais?”

No meio da semana, entram em cena diversos leilões - organizados por casas com prestígio e know-how como a Gooding & Company (leiloeira oficial do evento), além de Bonhams e RM Sotheby’s. Essa tradição vem do início dos anos 90 (esta foi a 18.ª edição) e hoje está entre as mais famosas e disputadas do planeta.

Sem bater o recorde unitário de 2018, os leilões de Monterey registraram, neste ano, um novo máximo histórico em valor total: 469 milhões de dólares (aprox. 473 milhões dólares), acima do recorde anterior de 395 milhões (398,3 milhões de euros), estabelecido em 2015.

Segundo o relatório divulgado pela seguradora Hagerty, foram arrematados 790 veículos clássicos de um total de 956 - uma taxa de sucesso superior a 80% -, e mais de uma centena passou da marca de um milhão de dólares.

Mais uma vez, o destaque ficou com a RM Sotheby´s, responsável pelo carro mais caro da semana: uma Ferrari 410 Sport Spider de 1955, vendida por 22,005 milhões de dólares, ainda assim abaixo da estimativa, entre 25 e 30 milhões.

Bem atrás apareceu a Gooding & Company, que vendeu um Bugatti Type 57 Atalante de 1937 por 10,345 milhões de dólares.

Na sequência vieram Mercedes-Benz 540 K de 1937 (9,905 milhões de dólares), Hispano-Suiza H6C Torpedo de 1924 (9,245 milhões de dólares) e Ferrari 500 TRC Spider de 1957 (7,815 milhões de dólares), todos negociados pela RM Sotheby´s.

Em paralelo, outras mostras foram acontecendo, com tamanhos e relevâncias bem diferentes.

O “Concorso Italiano” destacou com força os 75 anos da Ferrari comemorados em 2022 - com direito até a desfile. Já as “Lendas das autoestradas alemãs” celebraram os modelos germânicos mais velozes nos que são, também, os trechos de asfalto público mais rápidos do mundo.

O “Concurso Lemons” (limões), por sua vez, vai na contramão de tudo: alguns carros têm “genes” de aberração, outros estão em avançado estado de decomposição e arrancam dos visitantes caretas parecidas com as que fazemos ao encarar a acidez da fruta no estado mais puro.

Nos vários eventos, não faltam tendas lotadas de automobilia, quadros (alguns pintados ao vivo, diante dos carros), esculturas e outros itens que enlouquecem colecionadores.

Um salão automóvel gourmet

Na sexta-feira, aconteceu a 19.ª edição do “The Quail - A Motorsports Gathering”, que vem ganhando status de substituto dos salões do automóvel tradicionais - esses que parecem cada vez mais próximos da extinção.

Cada um dos 3500 visitantes (com lotação limitada) desembolsa 1500 dólares (1506 euros) - ainda assim, menos do que os ingressos mais caros do concurso de elegância de domingo, que chegam a 3000 dólares - para circular (e não só) por um gramado artificial impecavelmente cuidado, entre clássicos e, cada vez mais, lançamentos.

Quase sempre são carros que exigem muitas dezenas ou até centenas de milhares de dólares/euros para ir para casa, além de carros-conceito que, em muitos casos, ficaram sem “palco” adequado para se exibir. Em outras palavras: um salão do automóvel para ricos… e com muita novidade (sigam a ligação).

Ilustre companhia

Além dos carros - e de um público mais ou menos excêntrico -, também foi possível cruzar com nomes importantes do setor, como Mary Barra, CEO da General Motors, e Franz von Holzhausen, chefe de design da Tesla.

Adrian Hallmark, CEO da Bentley, também apareceu e acabou sendo “vítima” de um encontrão leve e discretamente involuntário, enquanto admirava uma das relíquias da Bentley que brilhou em Le Mans. “o seu próximo carro de serviço?” soltei, sem muita inspiração, para ouvir uma resposta bem-humorada do presidente da aristocrática marca britânica: “nem nos meus sonhos mais ousados”.

Encontros com CEOs, designers de primeira linha e até pilotos são relativamente comuns ao longo de todo o Monterey Car Week (muitos atuam como jurados honorários do Pebble Beach Concours d’Elegance). E chama a atenção como eles se mantêm sempre descontraídos - a ponto de reconhecerem e gastarem alguns minutos trocando ideias com um jornalista com quem já conversaram poucas vezes na vida.

Às vezes é acaso; em outras, nem tanto, como ocorreu no dia seguinte, em Laguna Seca, palco da Motorsport Reunion, quando reencontrei o “sr. Le Mans”: “sim, é verdade, há uns 20 anos fizemos juntos uma viagem de Sevilha a Montecarlo numa pequena caravana de Bentley Continental GT”, contou Tom Kristensen, recordista absoluto de vitórias nas 24 Horas de Le Mans (nada menos que nove).

É uma honra, claro (e foram, de fato, 20 anos), daquelas que enchem o ego antes mesmo de partir para duas voltas no traçado de Laguna Seca, ao volante de um Audi e-tron GT, tentando não perder contato com Kristensen - algo possível apenas porque o multicampeão dinamarquês não passou de 60% da sua potencial rapidez.

Ao fim da experiência, saio do e-tron GT e quase sou atingido por Henri Pescarolo, caminhando em um ritmo quase tão forte quanto aquele que manteve nas últimas das 33 edições de Le Mans em que competiu (o que o coloca como recordista de participações).

O motivo é que uma das ações da Motorsport Reunion foi recriar uma largada “à Le Mans”: pilotos correndo - ou em passo-doble, poupando as “juntas” - para entrar nas máquinas e disparar, em mais um instante de glorificação do passado.

Celebrar um século de Le Mans

Quase sem perceber, já estamos mergulhados em Laguna Seca, onde as grandes estrelas da Monterey Car Week de 2022 são os vencedores de Le Mans ao longo de 100 anos de história.

O Automobile Club de L´Ouest procurou os organizadores da Monterey Car Week para que o evento servisse como ponto de partida das comemorações do centenário (1923-2023) da corrida mais emblemática do mundo - e a parceria surgiu de forma natural.

“Esta é a mais completa e numerosa coleção de carros que correram em Le Mans alguma vez reunida nos EUA” explica, com orgulho evidente, Barry Topke, diretor de eventos clássicos e de relações públicas do circuito. E são mesmo muitos: meia centena deles já venceu (na geral ou em suas categorias) ao longo do último século.

Monterey Car Week também inclui corridas (realizadas aqui desde 1974), reunindo mais de 500 clássicos - principalmente europeus e americanos - distribuídos em 14 grupos, com quatro categorias dedicadas apenas a carros de Le Mans (1923-55, 1956-71, 1972-1982, 1981-2005).

Laguna Seca é famosa pela saca-rolhas: um “s” em descida muito acentuada, de 18 m, com ponto de entrada “cego”. E Jim Farley, presidente da Ford Motor Company, teve a sorte de passar por lá várias vezes nesses dias.

Isso porque ele ficou alternando entre dois carros de competição, um Shelby Cobra 289 de 1966 e um Lola T298 da classe Le Mans 1972-82, encerrando em segundo lugar nas respectivas classes - no caso do Lola, terminou atrás de um tal Dario Franchitti, multicampeão da Indycar, das 500 milhas de Indianápolis e das 24 Horas de Daytona,

Importância dos jurados e jurados importantes

Para entrar no Pebble Beach Concours d’Elegance, os candidatos precisam se inscrever junto à organização até o começo de janeiro. Os carros devem estar impecavelmente restaurados/conservados e, de preferência, não ter participado de nenhum outro concurso - ou mesmo de Pebble Beach - nos 10 anos anteriores.

A lista final sai em abril, já com as diferentes categorias que entram na disputa: há classes “residentes” e outras especiais, específicas de cada ano, somando 27 categorias em 2022.

Antes de enfrentar o criterioso julgamento dos jurados honorários - grupo formado por diretores de design, CEOs e outros especialistas de automóveis das marcas mais relevantes do mundo -, os candidatos passam por uma avaliação igualmente competente de outros peritos.

Um deles é Ken Gross, jurado há mais de três décadas e uma verdadeira enciclopédia ambulante quando o assunto são modelos classificados como Hot Rods.

Os 90 anos do histórico Ford Roadster de 1932 motivaram a escolha dessa classe (Ford Historic Hot Rods), e a definição dada por Gross é cirúrgica: “carros anteriores a 1960, modificados, com pouca carenagem, motor musculado e travões a condizer”. É isso que se chama domínio do tema.

As classes de 2022

Mas a Ford Historic Hot Rods é só uma das oito categorias especiais de 2022. Veja as demais:

  • Lincoln Centennial - celebração dos 100 anos desde que Henry Ford comprou a falida marca americana;
  • Unorthodox Propulsion - sistemas de propulsão bem alternativos, como um carro movido a madeira, outro a carvão e ainda dois veículos sem embreagem e com pedais para a partida;
  • Talbot-Lago Grand Sports - existem apenas 28 dos 32 exemplares fabricados no fim dos anos 40;
  • Carrosserie Hermann Graber - carroçador suíço conhecido pelo bom gosto na execução de conversíveis e cupês de 1925 a 1970;
  • Alfa Romeo 8C 2300 - considerado por muitos colecionadores o touring car mais avançado de todos os tempos;
  • McFarlan - o “Rolls-Royce” americano, produzido de 1910 a 1928 e do qual restam apenas 20 unidades;
  • Otto Vu - um Fiat que achava que era Ferrari, com motor V8, usado entre 1952 e 1954 por alguns carroçadores de renome mundial;
  • Le Mans Centennial - oito dos carros no tapete verde de Pebble Beach ainda soltavam fumaça, recém-chegados do circuito.

Ken Gross ressalta que “cada ano a escolha das categorias é feita com uma preocupação de criatividade, evitando que se repitam ou, no mínimo, que sejam variações inéditas”.

Best of show!

No desfile da tarde de domingo, o direito de passar pela passerelle é reservado aos três primeiros colocados de cada classe, mas apenas o vencedor de cada uma das quase três dezenas de categorias avança ao desfile final, o mais glamouroso.

Na 71.ª edição, o Concurso de Elegância consagrou como “Best of Show” o Duesenberg J Figoni Sports Torpedo, de 1932, propriedade de Lee R. Anderson Sr. Trata-se de um exemplar único do fabricante americano, que também é o mais premiado na história septuagenária de Pebble Beach (agora soma sete títulos).

A presidente do evento, Sandra Button, ressaltou “o casamento da potência do motor americano com a criatividade do carroçador europeu”, em uma vitória muito comemorada pelos proprietários desse clássico - que chegou a ter o chassi separado da carroceria antes do início do complexo processo de restauração.

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