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Revisão de 103 estudos liderada por Lisa Zimmermann liga embalagens de alimentos a microplásticos e nanoplásticos

Jovem observando amostras coloridas em lâmina petri com microscópio em cozinha moderna.

Usar a embalagem do jeito “normal” - exatamente como ela foi pensada para ser usada - já pode bastar para que os seus alimentos e bebidas recebam uma pequena dose de microplásticos.

Uma revisão minuciosa de 103 estudos científicos sobre contaminação de alimentos por microplásticos concluiu que gestos corriqueiros, como abrir uma garrafa plástica de bebida ou cortar alimentos numa tábua de plástico, podem desprender partículas minúsculas de polímeros comuns.

Até itens que, à primeira vista, parecem “livres de plástico” entram na conta: garrafas de vidro com vedação plástica, caixas de pizza com revestimento plástico, copos descartáveis de café com forro plástico, sachês plásticos de chá, filmes e embalagens plásticas e recipientes plásticos próprios para micro-ondas liberam microplásticos com a mesma facilidade com que um gato persa solta pelos na primavera.

Para uma equipa liderada pela bióloga Lisa Zimmermann, do Fórum de Embalagens de Alimentos (organização sem fins lucrativos sediada na Suíça), o problema aparece em todo o lado.

"Esta é a primeira evidência sistemática de como o uso normal e pretendido de alimentos embalados em plásticos pode ser contaminado com micro- e nanoplásticos", disse Zimmermann à CNN.

"Descobrimos que as embalagens de alimentos são, na verdade, uma fonte direta dos micro- e nanoplásticos medidos nos alimentos."

Microplásticos e nanoplásticos (MNPs): por que estão por toda parte

Quanto mais a ciência investiga microplásticos e nanoplásticos - ou MNPs -, mais claro fica o alcance do problema. Essas partículas são fragmentos tão pequenos que não são visíveis a olho nu e podem ser libertados por vários tipos de polímeros durante o uso ou quando o material se degrada no ambiente.

O plástico tornou-se onipresente na vida moderna por ser barato e fácil de fabricar, servindo para tudo: de recipientes e armazenamento a roupas e móveis. Nas últimas décadas, porém, ficou evidente que a resistência do plástico à decomposição não significa que ele não se quebre; ao contrário, ele pode esfarelar-se em pedaços cada vez menores, capazes de atravessar ecossistemas com facilidade.

Pesquisas já encontraram microplásticos em várias partes do corpo humano, inclusive em placentas. Em ratos, partículas semelhantes foram identificadas em todos os principais órgãos, incluindo nos fetos.

O que aumenta a preocupação é o quanto ainda se sabe pouco sobre os efeitos na saúde - e os sinais não parecem animadores: um estudo do ano passado observou que pacientes cardíacos e com AVC com alta concentração de microplásticos na placa das artérias carótidas apresentaram um risco significativamente maior de morte.

O que a revisão de 103 estudos encontrou sobre embalagens de alimentos

Zimmermann e colegas analisaram 103 estudos que avaliaram a presença de partículas plásticas em alimentos e em simulantes de alimentos. A partir desse conjunto, o grupo retirou 600 registos sobre artigos em contacto com alimentos; em 96% deles, foi reportada a presença de MNPs.

Esses registos também foram reunidos num painel pesquisável e filtrável, de acesso público, que permite ao utilizador focar em diferentes tipos de artigos em contacto com alimentos - de embalagens a mamadeiras - e também em diferentes tipos de plástico.

Itens reutilizáveis, lavagem e aumento da libertação de partículas

Um ponto que chamou a atenção dos autores é que vários estudos indicaram que, em certos itens plásticos reutilizáveis - como tigelas de melamina -, a quantidade de microplásticos libertada aumenta a cada lavagem. Isso sugere que aquecimento repetido e abrasão aceleram o ritmo de degradação desses materiais.

Ultraprocessados e etapas de produção

Os pesquisadores também destacam que alimentos ultraprocessados contêm mais microplásticos do que alimentos minimamente processados. A explicação, segundo eles, é direta: quanto mais etapas de processamento, maior a exposição a equipamentos de processamento de alimentos feitos de plástico - e, como consequência, mais MNPs acabam no produto final.

O que ainda falta esclarecer e o que os autores recomendam

De acordo com a equipa, os resultados apontam com força para duas necessidades: ampliar a investigação e, ao mesmo tempo, intensificar medidas para reduzir o uso de plásticos na embalagem e na preparação de alimentos.

"O nosso estudo mostra que, sob condições de uso pretendidas ou previsíveis, artigos plásticos em contacto com alimentos podem libertar MNPs nos alimentos", escrevem no artigo.

"A contribuição dos artigos plásticos em contacto com alimentos para a exposição humana a MNPs ainda não é clara e merece investigação adicional. Mais pesquisas também são necessárias para estabelecer impactos na saúde humana associados às exposições a MNPs, mas uma abordagem de precaução destinada a limitar a exposição humana a MNPs, inclusive a partir de artigos em contacto com alimentos, é prudente."

É possível aceder ao painel interativo aqui, e o artigo foi publicado na npj Ciência dos Alimentos.


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