O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) atinge até 3% da população mundial e continua a ser uma das condições de saúde mental mais difíceis de tratar com eficácia.
Por isso, qualquer avanço que ajude a esclarecer as causas do TOC ganha peso - como um novo estudo que chama a atenção para um possível fator inesperado: as bactérias que vivem no nosso intestino.
Microbiota intestinal e TOC: o que o novo estudo investigou
Em uma pesquisa realizada na China, cientistas analisaram de que forma a microbiota intestinal - a comunidade complexa de bactérias presente no sistema digestivo - pode influenciar a probabilidade de uma pessoa desenvolver TOC. A análise apontou seis tipos de bactérias que parecem estar associados ao transtorno.
Já existe um fluxo constante de trabalhos mostrando relações estreitas entre cérebro e intestino. Ainda assim, este estudo é o primeiro a apresentar evidências consideradas convincentes de que as bactérias intestinais podem, de fato, ajudar a causar o TOC. Para sustentar a hipótese de causalidade, os autores recorreram a dados genéticos.
"Estudos anteriores indicaram uma possível ligação entre a microbiota intestinal e o TOC", escrevem os pesquisadores da Universidade Médica de Chongqing no artigo publicado. "No entanto, a relação causal exata permanece incerta."
"Nossa análise sugeriu que microrganismos intestinais específicos podem ter uma relação causal com o TOC, revelando possíveis estratégias de intervenção para a prevenção e o tratamento desse transtorno."
Randomização mendeliana e os dados analisados
Para investigar a conexão, a equipe utilizou uma abordagem genética chamada randomização mendeliana, que permite inferir causalidade ao examinar variantes genéticas que influenciam tanto o TOC quanto as bactérias intestinais.
Os cientistas avaliaram associações entre dados genéticos e bactérias do intestino em uma amostra de 18,340 pessoas, e as associações entre dados genéticos e TOC em um segundo conjunto de 199,169 pessoas.
Apesar de se tratarem de dois bancos de dados separados, a randomização mendeliana foi usada para, na prática, fazer a ponte entre eles e relacionar padrões da microbiota intestinal ao TOC.
Como os genes são definidos no nascimento e não são moldados por ambiente ou estilo de vida, esse método reforça a possibilidade de que as bactérias intestinais contribuam diretamente para o TOC - em vez de serem apenas uma consequência da condição.
Ainda assim, serão necessários mais dados e experimentos mais controlados para confirmar uma relação causal.
Bactérias associadas ao risco e possíveis implicações
Três tipos de bactérias pareceram exercer um efeito protetor contra o TOC: Proteobacteria, Ruminococcaceae e Bilophila. Outras três aparentaram elevar o risco de TOC: Bacillales, Eubacterium e Lachnospiraceae UCG001.
Um ponto curioso é que várias dessas bactérias já foram associadas ao cérebro em pesquisas anteriores. Por exemplo, estudos prévios identificaram uma ligação entre níveis baixos de espécies de Ruminococcaceae e depressão. Esses resultados ampliam o que já se sabe sobre o eixo intestino-cérebro e sobre como uma ponta pode influenciar a outra.
"Pesquisas futuras devem empregar desenhos longitudinais e populações diversas para validar e expandir esses achados, além de uma classificação mais aprofundada dos microrganismos e de seus produtos metabólicos, para compreender melhor o papel da microbiota intestinal no TOC", escrevem os pesquisadores.
Mais adiante - e isso ainda está distante - pode surgir uma nova via para tratar ou prevenir o TOC, por meio do controle das combinações de bactérias no intestino. Para quem convive com o transtorno - e para familiares, amigos e profissionais de saúde que dão suporte - isso pode, no futuro, representar uma nova esperança.
"Apesar do uso da terapia cognitivo-comportamental e de inibidores seletivos da recaptação de serotonina no tratamento do TOC, uma parcela considerável de 25–40% dos pacientes apresenta resposta insatisfatória ou nenhuma resposta a essas intervenções", escrevem os pesquisadores.
"Além disso, o impacto pessoal e social do TOC é substancial."
A pesquisa foi publicada na Revista de Transtornos Afetivos.
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