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Como a dor conecta rosto e coração, segundo a Rutgers University

Homem com expressão de dor na boca consulta médico que observa exame cardíaco no tablet.

Durante gerações, a dor foi avaliada quase sempre do mesmo jeito: dar uma nota de um a dez, apontar um rosto num quadro ou tentar explicar a uma enfermeira o quanto está doendo.

Essas respostas ajudam, mas dependem de a pessoa conseguir falar, lembrar com precisão e até decidir relatar tudo com honestidade.

O que ninguém imaginava era a existência de um segundo “canal” - um sinal contínuo no rosto, minúsculo demais para ser visto a olho nu e sincronizado com as batidas do coração.

Ele só se tornou perceptível com uma câmera captando a pele ao redor dos olhos 30 vezes por segundo.

Quando a dor deixa pistas

Pesquisadores da Rutgers University queriam ancorar a dor em sinais do próprio corpo, e não apenas na resposta a uma pergunta pontual.

A proposta foi acompanhar micro-movimentos quase imperceptíveis que atravessam o rosto - tremulações rápidas demais para serem notadas - e relacioná-los ao ritmo cardíaco.

A psicóloga Dr. Elizabeth Torres, professora na Rutgers School of Arts and Sciences, liderou o estudo em parceria com a doutoranda Mona Elsayed.

O grupo investiga movimentos corporais sutis no autismo, na doença de Parkinson e em outras condições neurológicas no Sensory-Motor Integration Laboratory.

A equipa gravou 45 adultos saudáveis durante tarefas breves. Em um subgrupo menor, com 21 voluntários, também foi monitorada a atividade do coração ao mesmo tempo, segundo a segundo.

Observando o rosto reagir à dor

Para provocar dor, os pesquisadores colocaram um manguito de medição de pressão arterial no braço não dominante de cada voluntário e o insuflaram até um nível suficiente para causar uma dor profunda e crescente, que se mantinha ao longo de cada tarefa.

Os participantes realizaram quatro tarefas diferentes: ficar sentado sem se mexer, desenhar um trajeto sinuoso entre números e letras, apontar para um alvo e encaixar pinos com ranhuras em um tabuleiro.

Cada atividade oferecia uma perspectiva distinta de como o rosto reagia.

Uma câmera simples registou o rosto 30 vezes por segundo. Um software desenvolvido pela equipa mapeou 68 pontos distribuídos pela testa, bochechas e mandíbula, capturando mudanças de velocidade pequenas demais para aparecerem como uma expressão visível.

Um pequeno sensor no peito acompanhou o instante de cada batimento e registou os ritmos do coração.

Em seguida, os pesquisadores mediram o quanto os intervalos entre batimentos variavam de um momento para o outro.

Essas oscilações foram usadas como uma medida de quão regulado - ou estressado - estava o sistema cardiovascular.

Um sinal ao redor dos olhos

A pista mais evidente veio da região dos olhos. À medida que o manguito fazia efeito, o “ruído” de movimento ao redor das sobrancelhas e pálpebras aumentava de forma acentuada - mais do que nas bochechas ou na mandíbula.

Até este estudo, ninguém havia registado uma ligação tão estreita, segundo a segundo, entre mudanças no rosto e a dor em adultos saudáveis.

O sinal aparecia principalmente perto dos olhos, mesmo quando nada mais se movia de um jeito que um observador chamaria de expressivo.

“Em questão de segundos, conseguimos ver a resposta do corpo à dor refletida em movimentos faciais minúsculos. Quanto mais desregulado ficava o coração, mais claramente isso aparecia no rosto”, disse Torres.

A dor conecta rosto e coração

Os dois sinais não apenas aumentavam ao mesmo tempo - eles acompanhavam um ao outro. Quando os intervalos entre batimentos se tornavam mais irregulares, a região dos olhos ficava mais “ruidosa” na mesma medida.

Essa ligação surgiu com mais nitidez durante tarefas com menor exigência cognitiva, como apontar para um alvo ou encaixar pinos no tabuleiro.

Nessas atividades, a correlação entre rosto e coração foi especialmente forte.

Há muito tempo, estudos descrevem batimentos irregulares como um indicativo de estresse fisiológico. A novidade aqui é o equivalente visível no rosto, captado com uma câmera comum.

A distração muda os sinais

Quando a mente estava ocupada, a conexão enfraquecia.

A tarefa de desenho - uma avaliação cognitiva padronizada que exige seguir letras e números em ordem - reduziu essa ligação de modo perceptível. A dor ainda aparecia nos dados, mas com menos clareza.

“Uma carga cognitiva mais alta essencialmente sufoca a dor”, afirmou Torres.

Tarefas mentais mais exigentes pareceram enfraquecer o sinal. Os pesquisadores ainda não sabem se isso ocorre porque a atenção se desloca da dor ou porque o sistema nervoso de facto a suprime.

Isso pode explicar por que um caça-palavras difícil ou um filme envolvente conseguem atenuar uma dor de cabeça. Também oferece aos clínicos uma alavanca intencional para a tolerância à dor: usar a distração como analgésico.

Lendo a dor pelo rosto

Depois, a equipa investigou qual sinal “puxava” o outro. Eles compararam os dados do coração e do rosto nos dois sentidos, analisando quanto saber um fluxo de informações reduzia a incerteza do outro.

Entender o que o coração vinha fazendo instantes antes - combinado com a atividade recente do próprio rosto - facilitou prever o que a região dos olhos faria em seguida.

Durante a dor, esse padrão se manteve nas quatro tarefas.

Em termos simples, o rosto espelha um coração cada vez mais errático. Se você observar os olhos com resolução suficiente, pode estar a ver, em tempo real, um sistema cardiovascular sob estresse.

Limitações do estudo

A amostra foi pequena. O estudo incluiu apenas 45 adultos saudáveis, com registos emparelhados de coração e rosto em 21 participantes.

Isso basta para demonstrar a existência de um sinal, mas não para transformar o método em uma ferramenta clínica.

Os voluntários eram jovens, e a dor do manguito foi breve e controlada - muito diferente da dor de longo prazo vivida por pacientes com condições crónicas.

Dor por pressão é apenas um tipo de dor. Ainda não se sabe se o rosto exibiria a mesma “impressão digital” durante dor por queimadura, dor neuropática ou na progressão lenta da artrite.

Também permanecem dúvidas sobre como a abordagem se comporta em populações mais idosas ou clinicamente mais complexas.

Acompanhando a dor dia após dia

Uma leitura facial rápida não vai substituir uma conversa. Ainda assim, pode oferecer aos clínicos um segundo canal para pessoas que não conseguem falar por si - crianças pequenas, sobreviventes de AVC e indivíduos com demência.

Nesses grupos, a dor é subestimada de forma consistente, como deixa claro uma revisão recente. Uma avaliação objetiva baseada em câmera poderia ajudar a reduzir parte desse fosso.

Agora, Torres e sua equipa estão a adaptar a abordagem para uma ferramenta baseada em smartphone por meio de uma empresa derivada licenciada pela Rutgers.

O sistema foi pensado para acompanhar a dor ao longo do tempo e, potencialmente, identificar se um tratamento ou medicamento está começando a fazer efeito.

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