Se o hidrogênio passar a estar amplamente disponível para abastecer redes de transporte e sistemas elétricos no mundo todo, ele pode, de fato, ajudar a diminuir o dióxido de carbono que hoje é lançado na atmosfera.
O grande entrave é encontrar hidrogênio suficiente.
Hidrogênio natural na mina Kidd Creek (Ontário, Canadá)
É por isso que pesquisadores têm demonstrado entusiasmo com uma fonte situada sob a mina Kidd Creek, em Ontário, no Canadá, onde gás hidrogênio natural vem escapando de furos de sondagem há anos.
Um novo estudo abrangente avaliou, pela primeira vez e com detalhes, o quão grande é esse stock de hidrogênio.
Como o estudo mediu a emissão de hidrogênio
A geóloga Barbara Sherwood Lollar, da University of Toronto, e Oliver Warr, da University of Ottawa, recolheram amostras em 35 furos de sondagem ao redor da mina, a uma profundidade de 2.9 quilômetros (1.8 milhas).
Os cientistas mediram tanto a concentração do gás hidrogênio quanto a taxa de emissão - e, em algumas áreas, acompanharam esses dados por até 11 anos.
Após analisar os resultados, a equipe estima que seria possível disponibilizar 4.7 million quilowatt-hora de energia por ano - o bastante para suprir, em média, as necessidades energéticas de 400 residências durante 12 meses.
Isso representa uma quantidade considerável de energia que não precisaria ser obtida de outras fontes.
"Os dados deste estudo sugerem que existem oportunidades críticas ainda não aproveitadas para acessar uma fonte doméstica de energia de baixo custo produzida pelas rochas sob os nossos pés", diz Sherwood Lollar.
"Além disso, trata-se de um recurso 'feito no Canadá' que pode ser capaz de apoiar polos industriais locais e regionais e reduzir a dependência da importação de combustíveis baseados em hidrocarbonetos."
Por que o "hidrogênio branco" pode mudar o jogo
Como combustível, o hidrogênio gera zero emissões - a água é o único subproduto. Porém, obtê-lo em forma pura é caro, exige muita energia e consome grandes quantidades de combustíveis fósseis (o que reduz parte do apelo das suas credenciais de energia limpa).
O cenário ideal é encontrar fontes naturais - ou "hidrogênio branco" - que possam cortar uma parcela dos custos de produção, desde que a extração seja economicamente viável. O problema é que, na prática, ainda não sabemos quanto hidrogênio natural pode existir.
O elemento pode ser gerado por reações químicas que acontecem em rochas subterrâneas e na água subterrânea que elas contêm, e há muito tempo se sabe que há hidrogênio sob a mina Kidd Creek.
Agora, o que ficou mais claro é quanto hidrogênio está, de fato, a ser produzido - e que a produção se mantém estável ao longo do tempo. Para redes de energia, quaisquer depósitos de hidrogênio explorados precisam ter viabilidade no longo prazo.
Como benefício adicional, as rochas e as condições geológicas que geram hidrogênio também são as mesmas onde se encontram minerais muito procurados. Se for possível aproveitar reservas de hidrogênio em locais que já estão a ser minerados, trata-se de mais uma vantagem.
"O hidrogênio natural é produzido nas mesmas rochas onde se encontram os depósitos de níquel, cobre e diamante do Canadá, e que atualmente estão sob exploração de minerais críticos como lítio, hélio, cromo e cobalto", afirma Warr.
"A co-localização de recursos de mineração e a produção e uso de hidrogênio reduz a necessidade de longas rotas de transporte até o mercado, de armazenamento de hidrogênio e do desenvolvimento de uma grande infraestrutura de hidrogênio."
Até aqui, o hidrogênio branco foi em grande medida negligenciado, visto sobretudo como um tema de interesse para microbiologistas que estudam ecossistemas subterrâneos e os micróbios que vivem neles - micróbios que dependem do hidrogênio para sobreviver.
Este novo estudo indica não apenas que existem fontes naturais abundantes de hidrogênio, como também que elas podem tornar-se uma fonte útil de energia local ou regional em regiões onde a geologia e a infraestrutura sejam compatíveis.
"Há uma corrida global para aumentar a disponibilidade de hidrogênio a fim de descarbonizar e reduzir os custos da economia de hidrogênio existente", diz Sherwood Lollar.
"Agora temos uma compreensão melhor da viabilidade econômica desse recurso, que pode ser mapeado para depósitos de hidrogênio ao redor do mundo - tanto os já conhecidos quanto os que ainda serão descobertos."
A pesquisa foi publicada na PNAS.
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