Os antigos romanos talvez tenham deixado um legado valioso sobre como fabricar um concreto sustentável capaz de atravessar milhares de anos.
Um estudo recente fez uma análise rigorosa das matérias-primas e das necessidades energéticas da receita antiga, apontando caminhos práticos para aprimorar o cimento usado atualmente.
De forma surpreendente, os investigadores concluíram que produzir argamassa e concreto romanos exige mais água e gera mais emissões de gases com efeito estufa do que o cimento Portland - o tipo de cimento mais comum no concreto moderno.
Ainda assim, apesar de o “custo” energético inicial poder ser maior, as formulações do concreto romano podem acabar sendo mais sustentáveis ao longo do tempo, justamente por potencialmente precisarem de menos substituições e reparos.
Vida útil do concreto romano e emissões ao longo do tempo
Segundo uma equipa internacional de engenheiros ambientais, para que edifícios atinjam as mesmas emissões acumuladas ao longo do ciclo de vida, as misturas de concreto romano precisariam durar pelo menos 41% mais do que as formulações modernas.
Em estruturas de vida mais curta - como ruas e rodovias - o concreto romano teria de resistir no mínimo 29% a mais.
"Quando levamos em conta a vida útil do concreto, é aí que começamos a ver benefícios", diz a autora principal e engenheira Daniela Martinez, da Universidade do Norte, na Colômbia.
"Há muitas lições que podemos aprender com os romanos. Se conseguirmos incorporar as estratégias deles às nossas ideias inovadoras modernas, podemos criar um ambiente construído mais sustentável."
Por que a comparação com concreto moderno não é simples
Comparar a longevidade do concreto romano com a do concreto atual não é direto, porque hoje muitos edifícios e estruturas de concreto são armados com aço.
Quando o aço enferruja, ele se expande, forçando o concreto ao redor a fissurar e a se degradar em pouco tempo - em alguns casos, em apenas uma década. Já o concreto romano antigo é capaz de uma espécie de “autocicatrização”: quando surgem fissuras no cimento, elas podem ser naturalmente seladas quando a água se infiltra.
Esse é um dos motivos pelos quais muros costeiros romanos antigos resistiram por milénios, apesar do impacto constante das ondas e da água salgada corrosiva.
Se o concreto moderno consegue ou não repetir esse comportamento ainda não está claro.
"A corrosão do aço de armadura é a principal causa de deterioração do concreto, por isso comparações devem ser feitas com muito cuidado", explica o autor e engenheiro Paulo Monteiro, da Universidade da Califórnia, Berkeley.
Martinez e a sua equipa reconhecem que estruturas de cimento mais duráveis "só podem compensar parcialmente o aumento da demanda por novo material", mas as formas romanas de fabricação também podem oferecer outros benefícios ambientais.
Matérias-primas: cal virgem e rochas vulcânicas
Tanto o cimento Portland quanto o cimento romano são produzidos a partir do mesmo ingrediente principal. Quando o calcário é aquecido, ele gera um pó cáustico altamente reativo chamado cal virgem. Misturada com água, essa substância forma uma argamassa muito resistente.
As formulações de concreto no antigo Império Romano variavam bastante, mas, em geral, essa argamassa era combinada com rochas vulcânicas disponíveis localmente, em vez do gesso usado no concreto moderno.
Poluentes atmosféricos e combustíveis usados nos fornos
O concreto romano também tende a gerar muito menos poluentes atmosféricos perigosos, possivelmente porque o calcário era queimado com lenha de carvalho e abeto, e não com combustíveis fósseis.
De acordo com modelos recentes, usar técnicas de cimento romano poderia reduzir as emissões de óxidos de nitrogênio e óxidos de enxofre em até 98% em comparação com métodos modernos.
"Usar biomassa e outros combustíveis alternativos para aquecer fornos pode se mostrar mais eficaz para descarbonizar a produção moderna de cimento do que implementar formulações de concreto romano", afirma Martinez.
O peso climático do cimento hoje
Atualmente, o concreto é o segundo material mais utilizado no mundo, atrás apenas da água. A sua produção responde por cerca de 8% das emissões globais de carbono de origem humana - aproximadamente um quarto de todas as emissões de carbono da indústria.
Segundo o cientista de materiais Narayanan Neithalath, da Arizona State University, se a fabricação de cimento fosse classificada como um país, seria o terceiro maior emissor de dióxido de carbono do mundo, atrás da China e dos Estados Unidos.
"Se quisermos ter uma chance razoável de ficar abaixo da meta de aquecimento de dois graus Celsius definida pelo Acordo de Paris, as emissões ligadas ao cimento terão de cair em mais de 20% na próxima década", explicou Neithalath em 2023.
Estudar o concreto romano antigo pode ajudar a alcançar essas metas climáticas urgentes.
O estudo foi publicado na iScience.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário