A presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, anunciou no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, um novo pacote para impulsionar a economia do bloco, estruturado em quatro frentes: energia, moradia, mobilidade automotiva e segurança alimentar. A meta declarada é reduzir o custo de vida dos europeus.
Small Affordable Cars Initiative: o “carro do povo” europeu
No eixo de mobilidade automotiva, a Comissão Europeia já batizou a iniciativa: Small Affordable Cars Initiative. Em tradução livre para o português do Brasil, trata-se de um Programa para Automóveis Pequenos e Acessíveis - uma espécie de “carro do povo” europeu. Os detalhes, segundo a própria Comissão, devem ser apresentados nas próximas semanas.
Ao se dirigir aos deputados europeus, Von der Leyen ressaltou que a mobilidade automotiva é estratégica demais para ficar sujeita à concorrência de fora do continente. “Acredito que a Europa deve ter o seu próprio E-car”, afirmou, ao introduzir e anunciar o novo programa Small Affordable Cars Initiative.
A proposta, explicou, mira o desenvolvimento de um carro elétrico que reúna três características ao mesmo tempo: ambiental (limpo, eficiente e leve), econômica (acessível a todos) e europeia (fabricado no continente, com cadeias de suprimentos locais). O recado foi direto: “Não podemos deixar que a China e outros conquistem este mercado“.
A intenção da Comissão, assim, é dar suporte à produção de pequenos carros elétricos acessíveis, tanto para acompanhar a demanda em alta quanto para atender milhões de consumidores europeus que buscam alternativas mais baratas.
O contexto industrial: Renault, Stellantis e o debate regulatório
O anúncio também soa como resposta a pedidos feitos havia meses por Renault e Stellantis pela criação de uma categoria específica para veículos elétricos compactos, chamada de “e-car” ou classe M0, inspirada nos populares kei cars do Japão.
No fórum “Future of the Car”, do Financial Times, John Elkann (CEO da Stellantis) e Luca de Meo (ex-CEO da Renault) criticaram o nível de regulamentação sobre a indústria automotiva - com mais de 100 novas regras previstas até 2030 - e defenderam uma estratégia industrial mais clara, eficiente e menos fragmentada.
Segundo Von der Leyen, a iniciativa é apresentada como o próximo passo após a flexibilização das metas de emissões para 2025, aprovada no início do ano. Na sequência, acrescentou, virá uma reavaliação dos objetivos estabelecidos para 2035.
Reações divididas em Estrasburgo
Apesar do anúncio, a proposta não foi bem recebida por todos os eurodeputados. De acordo com o Politico, a declaração foi recebida com vaias no plenário, especialmente por integrantes do Partido Popular Europeu (PPE). O grupo tem figurado entre os principais aliados políticos da indústria ao defender metas de emissões mais suaves e a manutenção do motor a combustão além de 2035.
As críticas aparecem num cenário em que algumas montadoras vêm alertando para uma demanda por elétricos abaixo do esperado e, por isso, pedem mais tempo e mais flexibilidade à Comissão. Von der Leyen, por sua vez, indicou que não pretende recuar: “O futuro é elétrico. E a Europa fará parte dele. O futuro dos automóveis - e os automóveis do futuro - têm de ser feitos na Europa.”
Um sinal político forte
Mais do que uma medida de natureza técnica, a iniciativa é apresentada como um recado político: a Europa quer retomar espaço num segmento em que a indústria chinesa tem grande presença, já oferecendo ao mercado global modelos compactos e de preço mais acessível.
A disputa tende a ser simultaneamente econômica e industrial, com reflexos diretos sobre fábricas europeias, cadeias de suprimentos e a competitividade global do setor automotivo do continente. Vale lembrar que, entre junho de 2024 e junho de 2025, somente na Alemanha, mais de 50 mil postos de trabalho foram eliminados na indústria automotiva.
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