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Stephan Winkelmann e a Lamborghini: 2022 recorde e a revolução híbrida até 2028

Carro esportivo verde metálico com faróis acesos em ambiente moderno com janelas grandes e prédios ao fundo.

Stephan Winkelmann, diretor executivo da Lamborghini, é o alemão mais italiano que eu conheço - tanto no jeito de se vestir quanto na forma de falar, marcada por influências da língua de Petrarca, algo que aparece em interjeições muito mais naturais no italiano do que no seu alemão natal.

Nascido em Berlim, há 57 anos, ele cresceu em Roma. Lá, estudou ciência política e, mais tarde, concluiu a formação em Munique.

A carreira começou na Mercedes-Benz, em 1993. Depois, entrou para a Fiat Auto, onde ficou uma década (1994-2004) e saiu ocupando o cargo de diretor executivo da Fiat Áustria, Suíça e Alemanha.

Sua primeira passagem pela Lamborghini como diretor executivo ocorreu entre 2005 e 2016. Ao deixar a marca, assumiu a liderança da Audi quattro (hoje Audi Sport) em 2016 e, em 2018, foi para a Bugatti.

Executivo de confiança do Grupo Volkswagen, Winkelmann voltou ao comando da Lamborghini no fim de 2020, sucedendo Stefano Domenicali (também ex-Ferrari e hoje principal nome da Federação Internacional do Automóvel). Ele acumula essa função com a de diretor executivo da Bugatti.

2022 vai ser um ano recorde

Desta vez, a conversa a dois aconteceu nos bastidores dos testes de condução do Huracán Tecnica, em Valência. O que se destacou foi o otimismo com que Winkelmann vê esta etapa de transformações profundas dentro da Lamborghini.

Superar a pandemia foi duro para toda a indústria automotiva. Ainda assim, pelos números de 2021 e pelo desempenho do primeiro semestre de 2022, a Lamborghini parece ter voltado a crescer mais rapidamente do que seria esperado - com a primeira metade de 2022 já representando o melhor resultado comercial da sua história, o que pegou muita gente de surpresa, começando pelo próprio CEO.

Winkelmann concorda e reforça: “não poderia estar mais de acordo, até porque 2021 acabou por ser o ano de recorde de vendas da Lamborghini, com o regresso do mercado em força e mais cedo do que esperávamos. Tanto em volume de vendas como em termos de rentabilidade. E em 2022 a tendência mantém-se, com novo recorde absoluto, com 5090 carros entregues”.

Segundo o relatório oficial da marca italiana, isso equivale a um avanço de 4,9% nas entregas em relação a 2021, além de um salto nos lucros de quase 70% (425 milhões de euros) e de 31,9% nos lucros sobre vendas.

Revolução a caminho

Em julho, terminaram os testes de imprensa com o Huracán Tecnica. E, recentemente, em Pebble Beach - evento com muitos potenciais compradores -, veio a apresentação do Urus Performante. Antes do fim deste ano, a Lamborghini vai revelar, na Art Basel de Miami, o último modelo com motor V12 exclusivamente a combustão da sua história.

Depois disso, segundo Winkelmann, vem uma virada completa: “entre 2023 e 2024 vamos revolucionar por completo a nossa gama de modelos, que passarão a estar totalmente servidos por motorizações híbridas. Iremos manter o motor V12 no sucessor do Aventador (o último dos quais saiu da linha de montagem a 27 de julho e o substituto terá um novo nome), mas com propulsão elétrica a ajudar já no ano que vem; o Urus PHEV será lançado no início de 2024 e o totalmente novo Huracán no final desse ano”.

Mesmo com esse cronograma acelerado, a Lamborghini ainda fica atrás da grande rival Ferrari, que já vende três modelos híbridos e prometeu lançar seu primeiro elétrico puro antes de 2025 - enquanto o primeiro Lamborghini “a pilhas” só deve aparecer três anos depois.

Essa diferença ajuda a explicar por que a Lamborghini decidiu abraçar tão rapidamente a propulsão elétrica, mas não é o único motivo. Como explica o executivo: “Mais do que uma opção, é uma necessidade ditada pela legislação. Mas para além de nos permitir reduzir para metade as emissões de CO2 geradas pelos nossos carros, também vamos melhorar as performances dos Lamborghini nesse futuro muito próximo. E, claro, em 2028 vamos apresentar o nosso quarto modelo, que será o primeiro 100% elétrico para nós”, conclui Winkelmann.

Sobre o primeiro modelo totalmente elétrico, há pouca disposição para adiantar informações - até porque ainda faltam mais de cinco anos para a estreia e, neste setor, o segredo faz parte do jogo.

Winkelmann até sorri quando tento obter mais detalhes, antes de encerrar o assunto com um: “… não lhe posso dizer muito mais… será um carro totalmente novo, 2+2 lugares e com uma altura ao solo relativamente elevada. Crossover ou SUV? Não quero limitar tudo a uma palavra, seria demasiado redutor… mas será um carro cool, disso pode ter a certeza”.

Mais de 10 mil Lamborghini por ano?

Uma parte importante do entusiasmo em torno dessa nova fase vem do fato de o atual bom momento em vendas e lucros funcionar como uma espécie de “almofada financeira” para bancar a transição dos motores a gasolina “puros e duros” para a eletrificação. O próprio CEO reconhece o tamanho do investimento: “só para o programa híbrido tivemos que alocar 1,5 mil milhões de euros”.

Embora o Huracán continue sendo o Lamborghini mais vendido de todos os tempos, o Urus deve assumir esse posto em breve, considerando que hoje responde por 61% das vendas anuais da marca italiana. Ainda assim, o Huracán sustenta uma história relevante dentro da empresa: “vendemos mais de 20 000 Huracán deste que substituiu o Gallardo em 2014 e é quase uma marca dentro da nossa marca, também pelo sucesso na competição - já vendemos mais de 500 unidades para as corridas, que são os nossos embaixadores no desporto automóvel”.

Winkelmann avalia que os recordes anuais - que podem deixar a Lamborghini muito perto de 10 000 carros entregues em um ano - não comprometem a exclusividade de ter um modelo da marca: “crescemos de dois para três modelos quando lançámos o Urus e entrámos neste novo segmento, muito mais volumoso. Sabíamos que este recorde de vendas iria acontecer, mesmo que continuemos a produzir abaixo da procura”.

Na sequência, ele explica o que muda com a chegada do quarto modelo: “Quando tivermos o quarto modelo, o primeiro elétrico”, continua, “iremos conquistar um novo tipo de clientes, além de que há cada vez mais pessoas no mundo que têm capacidade financeira para comprar carros acima de 200 000 euros. Não definimos um teto, mas o volume total irá sempre ser uma pequena franja do mercado mundial total, que anda entre os 70 milhões e os 80 milhões de unidades anualmente”.

A marca vai ultrapassar ou não a barreira de 10 000? Para Winkelmann, não será tão cedo: “Em 2021 vendemos 8405 carros e isso não acontecerá nem em 2022 nem em 2023. Há sempre limitação de produção em termos de cadeia de fornecedores, por exemplo. Hoje já estamos a trabalhar em três turnos de produção no fabrico da fibra de carbono e muitos fornecedores estão no limite. E cada cliente espera pelo seu carro, em média, 16 meses”.

Sem som e vibrações - será um Lamborghini?

Uma das preocupações naturais das marcas de esportivos, ao entrar na era da eletrificação, é o impacto sobre sentidos como audição, olfato e até tato - especialmente pela vibração que o corpo percebe dentro de um carro com V10 ou V12.

Winkelmann tem insistido que a transição, ao menos por enquanto, mantém parte dessa experiência: “nestes próximos cinco anos o som e as vibrações vão continuar connosco, nos híbridos plug-in. A partir de 2028 veremos… claro que será diferente, mas está nas nossas mãos criar veículos que sejam emocionais mesmo com propulsão 100% elétrica. Não vamos conseguir ser iguais ao que sempre fomos, mas vamos continuar fiéis ao nosso ADN”.

O elétrico também deve trazer desafios inéditos para a Lamborghini - e, para Winkelmann, a lição do Urus é clara: “70% a 80% dos clientes do Urus são novos na nossa marca e claramente procuram um veículo mais compatível com a utilização quotidiana, mesmo que nenhum deles precise de usar o Urus no dia a dia”.

Ele observa ainda um efeito curioso dessa entrada de novos consumidores: “Curiosamente, estamos a notar que muitos desses novos clientes se sentem bem a partir do momento em que entram nesta nossa comunidade de proprietários, nos nossos eventos exclusivos, etc, e isso faz com que muitos deles comprem também os superdesportivos que nunca tinham considerado”.

Fórmula E não está nos planos

Com a eletrificação avançando, as montadoras passaram a buscar competições que promovam a propulsão do futuro, o que tem exigido mudanças relevantes nas estratégias de marketing e de presença no automobilismo.

Ainda assim, a Lamborghini não pretende seguir o caminho da Fórmula E: “não iremos por aí e a aposta é no LMDh (NDR: marca confirmou regresso a Le Mans em 2024) que combina perfeitamente com a nossa nova estratégia, em complemento ao que fizemos com o Super Trofeo, o GT3. Para uma pequena empresa como a nossa - cujo fundador nem era um entusiasta das corridas - é um esforço importante e vemos que há muitos fabricantes a entrar oficialmente no LMDh, o que irá tornar a disciplina especialmente interessante”.

Mais conectividade e digitalização

Outro aspecto ligado à eletrificação é a pressão crescente para entregar melhores serviços de conectividade e uma digitalização mais avançada a bordo.

A Lamborghini reconhece essa demanda - até porque ela é decisiva em mercados como a China, hoje o segundo maior da marca: “o gosto do cliente chinês está hoje mais próximo do ocidental do que já foi e a principal diferença que notamos é que o cliente chinês é mais exigente na oferta de conectividade e digitalização do seu carro… mesmo sabendo-se que os nossos superdesportivos não são, regra geral usados para ir do ponto A ao ponto B, mas para ir do ponto A ao ponto A… porque servem para desfrutar da condução. E há muito menos foco nesses aspetos da tecnologia, mas será cada vez mais importante”.

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