O executivo que comanda a empresa aeroespacial está aproveitando a excelente saúde financeira do grupo para se preparar para um movimento que, durante anos, dizia querer evitar: colocar a SpaceX na Bolsa. O que poderia virar a maior introdução em Bolsa da história tem duas explicações principais.
Desta vez, Elon Musk não contraria o noticiário. Desde 5 de dezembro, a SpaceX deixou de disfarçar que está de olho em uma introdução em Bolsa para 2026. O dono da companhia não desmentiu a informação publicada por vários veículos norte-americanos (Wall Street Journal, The Information, Bloomberg) e ainda endossou as tentativas de contextualização feitas pelo repórter especializado em aeroespacial do Ars Technica, Eric Berger. Na rede social X, ele reforçou a leitura e escreveu: “como sempre, Eric está certo”.
Se esse financiamento histórico sair do papel, a introdução em Bolsa da SpaceX passaria a ser a maior do mundo, à frente da Saudi Aramco em 2019. Uma parcela relevante do dinheiro levantado iria para dois projetos. Com a operação, a SpaceX poderia ver sua capitalização chegar a US$ 1 500 bilhões, abrindo espaço para levantar US$ 30 bilhões. Como a demanda por ações tende a ser enorme, investidores teriam a chance de entrar no capital de um setor que, por definição, não tem fronteiras: o espacial - e, ao mesmo tempo, de uma empresa já lucrativa.
A expectativa é que a SpaceX gere entre US$ 22 e US$ 24 bilhões de receita no próximo ano, em grande medida graças ao Starlink. Esse caixa mostra que a companhia consegue “voar com as próprias asas” e bancar suas operações. Porém, para os próximos passos, isso não basta - e o plano de Musk já não caberia em rodadas tradicionais de captação. Por isso, o que ele sempre evitou começa a entrar no radar. Os riscos de abrir capital - como ocorre com a Tesla (especulação, correções e volatilidade elevada, em geral) - seriam vistos como um problema do passado.
Motivo 1: convergência da IA e necessidade de centros de dados no espaço
Segundo o jornalista, o primeiro gatilho tem a ver com o grande gasto que se aproxima: centros de dados em órbita. Uma futura geração de satélites Starlink abriria caminho para um projeto robusto de implantação de infraestrutura em rede, para atender à demanda de inteligência artificial, que só cresce e pode até superar as necessidades de processamento em terra.
Em uma ambição ainda mais radical, Elon Musk contaria com a fabricação desses centros de dados na Lua, usando um sistema de lançamento por canhão eletromagnético para atingir a velocidade de escape e fazê-los deixar a gravidade lunar (sem recorrer a foguetes).
Mesmo com a perspectiva de novas receitas gigantes para a SpaceX, esses planos ainda exigem financiamento. E, além da convergência entre IA e espaço, a avaliação é que a SpaceX está em uma posição mais atraente para captar recursos nos mercados do que outras empresas do portfólio de Elon Musk (xAI, Tesla).
Motivo 2: a SpaceX não pode contar com a NASA
A segunda explicação para a intenção de listar a SpaceX é a falta de alternativas equivalentes para levantar capital. Como já dito, Musk dificilmente enxerga as rodadas com investidores privados como suficientes diante da possibilidade de vender ações ao público.
Mas não é só isso. O bilionário também não vê o uso de dinheiro público como um caminho - isto é, contar com os recursos da NASA, cujo orçamento está encolhendo. Depois de se afastar de Donald Trump, Musk já não estaria em posição confortável para tentar orientar a NASA em direção à SpaceX e, assim, viabilizar projetos como Marte.
Além disso, Marte significa coisas diferentes para as duas organizações. Do lado da agência pública, a ambição se limita a exploração; para a SpaceX, o norte continua sendo o sonho máximo da colonização. Desde a criação da empresa, em 2002, essa intenção do fundador está no centro do projeto. Só que, por mais que o objetivo esteja no horizonte, ele também parece difuso, dadas as escalas extremas de financiamento envolvidas. Como observou Eric Berger, apenas os lançamentos representariam US$ 1 000 bilhões em custos, considerando 1 000 naves e 10 000 lançamentos da Starship (assumindo que cada lançamento custaria US$ 100 milhões).
A SpaceX está pronta?
Abrir o capital da SpaceX na Bolsa colocará a empresa diante do risco de colapso dos mercados financeiros e também da possibilidade de estouro de uma bolha de IA. Ainda assim, Musk aposta que a vantagem acumulada no setor espacial e na internet via satélite oferece um escudo relevante frente à concorrência.
Os assinantes do Starlink, com o avanço do acesso direto ao celular para usar a rede a partir do próprio telefone, reforçariam o caixa da empresa - que, ao abrir capital, teria de expor suas contas ao público. Hoje, a SpaceX responde por 90% da massa terrestre em órbita, 90% dos lançamentos orbitais e consolida sua posição central nas atividades civis e militares do governo.
Após muito tempo como companhia fechada, a SpaceX teria de começar a “mobilizar os recursos necessários” para que o projeto marciano possa acontecer “em vida de Elon Musk” - que “tem 54 anos”, como lembrava o jornalista do Ars Technica.
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