Carro elétrico para todos: a meta europeia e a ironia
Todo português deveria ter um carro elétrico. Os tomadores de decisão na Europa parecem pensar exatamente do mesmo jeito - a ponto de já terem decretado o fim de qualquer alternativa. Não deixem de considerar a ironia deste texto.
A partir de 2035, estará proibida a fabricação de carros com motor a combustão. E notícias desse tipo, para mim, soam mais como distração do que como algo realmente útil. Até lá, ainda teremos regras de emissões mais duras - a famosa e controversa Euro 7 - empurrando investimentos enormes para uma tecnologia que já tem data marcada para morrer. Faz sentido? Nenhum.
Os 100% elétricos como “único caminho”
Dizem que a única rota possível são os modelos 100% elétricos: mais eficientes, mais rápidos, mais silenciosos, mais gostosos de dirigir e mais baratos de manter. Com tanta vantagem empilhada, a conclusão implícita é que os portugueses é que seriam teimosos em excesso. E, quando se fala em teimosia, dá para incluir os europeus no mesmo pacote.
Ainda assim, todos insistem - de forma difícil de explicar - em continuar comprando carros a gasolina. Quem consegue, claro. Porque há dois milhões de portugueses tão teimosos que não mudam de carro há mais de 20 anos.
É a epítome da teimosia ou será falta de capacidade financeira?
A frota portuguesa está envelhecendo - e isso muda o debate
De uma coisa não há dúvida: os carros em Portugal estão ficando cada vez mais velhos. A idade média da frota nacional já está chegando aos 14 anos. E, para a maioria das pessoas, já não existe nem margem para trocar de automóvel - quanto mais para sonhar em trocar por um elétrico. Este é o país real: um país de carros antigos que sonha com elétricos.
Talvez o ponto de partida devesse ser exatamente esse: antes de tudo, trocar de carro. Se a conversa sobre emissões fosse levada mesmo a sério, esta jornada começaria pelo começo: retirar das estradas os veículos mais velhos, reduzir a idade média da frota e, como consequência, diminuir as emissões.
O inevitável: um dia, todos terão carro elétrico
Sem ironia nenhuma, eu acredito que um dia todos os portugueses vão ter um carro elétrico. É inevitável. As vantagens dessa tecnologia vão se impor. Os preços vão cair, a infraestrutura de carregamento vai evoluir e todo mundo vai poder aproveitar os benefícios da mobilidade elétrica.
Enquanto esse dia não chega, o mais sensato é manter o foco nas necessidades reais: carros mais novos e mais eficientes. Para muita gente, a necessidade é direta e simples: sair do ponto A e chegar ao ponto B.
Num país onde os transportes públicos por vezes parecem uma anedota conseguir chegar ao trabalho não devia ser uma piada de mau gosto.
Promover ataques ao automóvel e forçar mudanças tão bruscas em um setor que garante a mobilidade de milhões de pessoas - e que emprega 15 milhões - não é prudente. Por isso, provavelmente concordamos quando dizemos que todos os portugueses deveriam ter um carro elétrico na garagem. Só não peçam que seja agora.
É uma empreitada que deve mobilizar todos, mas não a todo custo.
O bolso não aguenta, a infraestrutura também não, e o direito à mobilidade individual precisa ser preservado. O mercado vai dar as respostas certas, como sempre deu - aliás, como já está dando. Da minha parte, estarei aqui para defender essa transição energética com o mesmo afinco com que defendo o direito à mobilidade individual. Mantendo distância de quem só consegue enxergar carros elétricos pela frente e de quem só quer ver os motores a combustão pelo retrovisor.
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