Medo de viagens longas em um 100% elétrico? No CUPRA Tavascan isso nem chega a ser um problema.
Este é o primeiro CUPRA Tavascan a desembarcar em Portugal “pelos próprios meios”. Nós o buscamos na Espanha, poucas horas depois de ele chegar ao porto de Barcelona, vindo diretamente do porto de Xangai, na China.
A longa viagem tem explicação: o novo Tavascan é fabricado nas instalações da Volkswagen Anhui, na China, uma planta que nasceu de uma joint venture entre o Grupo Volkswagen e a JAC.
A partir daqui, a missão era clara: encarar quase 1300 km entre Barcelona e Lisboa - passando por Saragoça, Madri, Mérida e Estremoz - ao volante do novo elétrico da CUPRA.
Em um roteiro assim, as dúvidas se acumulam: autonomia, consumo, tempo de recarga e custos envolvidos. No fim das contas, também foi um teste “de fogo” para a infraestrutura de recarga de elétricos disponível na Península Ibérica.
Ainda assim, você não vai encontrar todas essas respostas aqui. Os números e as conclusões dessa viagem de (quase) 1300 km com um 100% elétrico como o CUPRA Tavascan serão publicados em breve em um artigo separado. Neste texto, o foco fica na experiência ao volante do Tavascan.
Vamos às apresentações?
O Tavascan é o segundo modelo 100% elétrico da CUPRA - o primeiro foi o Born - e utiliza a mesma plataforma MEB do Audi Q4 Sportback e-tron e do Volkswagen ID.5.
Cito esses dois em específico porque o Tavascan mira exatamente esse território. Ele é um SUV médio com 4,64 m de comprimento, vestido com um conjunto cheio de vincos, superfícies angulosas e formas triangulares, além de uma traseira com pegada de cupê que dificilmente passa despercebida.
A assinatura luminosa ajuda muito a destacar o carro, sobretudo à noite - embora também chame atenção de dia. O impacto vem tanto das luzes diurnas marcantes (com tecnologia Matriz LED nas versões de topo) quanto das lanternas traseiras que atravessam toda a largura da carroceria.
Um dos pontos mais cativantes do visual externo está no “efeito capacete” criado pela combinação do para-brisa com os pilares dianteiros. O resultado dá ao Tavascan um ar de guerreiro da saga cinematográfica Guerra nas Estrelas.
Interior irreverente
Por dentro, o mesmo apelo dramático aparece com força. O destaque é a “espinha dorsal” - uma peça plástica de visual futurista que percorre a parte inferior do painel e se conecta ao console central - criando uma separação clara entre os dois ocupantes dianteiros.
Também chama atenção a tela central do sistema de infotainment de 15” - a maior já instalada em um CUPRA - e voltada para o motorista. Ela traz gráficos atuais, boa rapidez de resposta e inaugura um sistema operacional com mais atalhos para chegar rápido às funções mais usadas.
Somada ao quadro de instrumentos compacto de 5,3” atrás do volante e ao head-up display opcional, essa configuração entrega informação de sobra e concentra o acesso a áudio, internet e espelhamento sem fio de celulares (Apple CarPlay ou Android Auto).
Diferentemente do que acontece no CUPRA Born, aqui o seletor de marcha é uma alavanca montada na coluna de direção. E o clima futurista se reforça com um sistema de iluminação ambiente sofisticado, bem personalizável, com LEDs espalhados por vários pontos do habitáculo.
Pequenas coisas que podem melhorar
No lado do motorista, o comando para abrir os vidros traseiros não agrada tanto. É o mesmo arranjo já visto na família ID da Volkswagen: com o mesmo botão que se usa para os vidros dianteiros, controla-se também os traseiros. Na prática, não é uma solução intuitiva.
Há mais um ponto com espaço para evolução: a falta de revestimento nas bolsas das portas (o que deixa os objetos guardados ali “chacoalhando” com mais ruído) e também no porta-luvas. É detalhe, sem dúvida, mas que já aparece resolvido em modelos que custam menos do que os quase 67 mil euros do Tavascan VZ que dirigimos.
Espaço muito amplo
No banco traseiro, o espaço é realmente generoso: são 78 cm entre os encostos dos bancos dianteiros e os traseiros. Em compensação, não há como ajustar a inclinação do encosto atrás.
O porta-malas, com 540 l, é bem volumoso e fica no mesmo nível dos “primos” Q4 e-tron e ID.5, além de superar possíveis rivais como o Nissan Ariya (468 l) ou o Ford Mustang Mach-E (502 l).
Com os bancos rebatidos (de forma assimétrica), dá para obter um assoalho de carga totalmente plano, desde que a bandeja do piso do porta-malas esteja na posição mais alta.
Voltando à segunda fileira, o Tavascan acomoda muito bem dois adultos, já que há 140 cm de largura - com três, o espaço fica mais “apertadinho”. Já a altura disponível sofre um pouco por causa da queda acentuada da coluna traseira - estilo oblige.
Como é comum em carros elétricos, o piso traseiro é completamente plano, o que melhora bastante o conforto e a mobilidade de quem vai ali. E, por os assentos traseiros ficarem mais altos do que os dianteiros, a visão para fora é mais aberta.
Consumos elevados
O CUPRA Tavascan que trouxemos de Barcelona até Lisboa é o VZ, isto é, a versão topo de linha. Ela é a mais forte e usa dois motores elétricos (um em cada eixo), oferecendo tração integral.
Com o trabalho conjunto desses dois motores, são 250 kW (340 cv) e 545 Nm de torque. Em uso normal, o motor dianteiro tende a atuar apenas quando se pede mais potência ou quando há perda de aderência.
A bateria tem 77 kWh (capacidade útil) e, no ciclo misto WLTP, permite ao CUPRA Tavascan VZ alcançar até 522 km de autonomia - mas, nesses (quase) 1300 km de viagem, em que 90% foi em rodovia, 400 km por carga se mostrou um número muito mais realista. Mais do que isso, só mesmo na cidade…
Por esse motivo, e na maior parte do tempo, o consumo variou entre 20 kWh/100 km e 25 kWh/100 km em ritmos mais “soltos”. Ao chegar em Lisboa, a média final ficou em 23,3 kWh/100 km, bem acima dos 16,5 kWh/100 km oficiais. Se houvesse mais condução urbana no mix, essa diferença no resultado final seria bem menor.
Bastante rápido e curva bem
Em compensação, a performance do Tavascan VZ não dá margem para reclamação, mesmo com mais de 2200 kg em ordem de marcha. Este SUV elétrico entrega números bem fortes, sobretudo em acelerações e retomadas. Ele precisa de apenas 5,5s para chegar aos 100 km/h, embora a velocidade máxima seja limitada a 180 km/h.
Com esse nível de desempenho, faz sentido que os bancos integrais tipo bacquet ofereçam bom apoio lateral - e isso ajuda ainda mais porque o Tavascan VZ também surpreende em curvas. Ele se mostrou eficiente, com pouca tendência a balanços laterais da carroceria, mas as rodas de 21” e os pneus de perfil baixo (255/40 R21) acabam repassando mais as irregularidades do piso para os ocupantes.
Mesmo assim, o Tavascan VZ não chega a ser desconfortável, apesar de ter a altura do solo reduzida em 15 mm na dianteira e 10 mm na traseira em relação ao Volkswagen ID.5, por exemplo. Parte do mérito é do amortecimento eletrônico variável (DCC), que permite ajustar o comportamento do carro na estrada.
O Tavascan tem um mas…
Apesar das qualidades dinâmicas, eu preferia que a direção não fosse tão leve - ou que houvesse uma mudança mais perceptível de peso entre os diferentes modos de condução (seis, no total). É uma questão pessoal, porque, mesmo com essa “leveza”, ela se mostrou precisa.
A crítica principal vai para a sensação do pedal de freio, que é um pouco esponjosa e com pouca “mordida” no início do curso. Passada essa primeira fase, a capacidade de frenagem é excelente.
Sobre a regeneração, nunca chega a ser possível conduzir o Tavascan apenas com o acelerador (one pedal driving), como acontece em outros elétricos. Ou seja: mesmo no nível mais forte de regeneração, ao soltar o acelerador o carro não para completamente.
Podia ter mais potência de carregamento
Durante essa viagem longa, foram várias paradas para recarga, desde postos mais lentos (11 kW) até os mais rápidos da IONITY (até 350 kW). Nesse ponto, o CUPRA Tavascan se mostra um pouco modesto para o padrão atual do mercado: 11 kW em corrente alternada (AC) e apenas 135 kW em corrente contínua (DC).
Ainda assim, a CUPRA me garantiu que houve um trabalho intenso para manter a potência de pico em DC por mais tempo nesse patamar. O resultado é que ele precisa de 29 minutos para ir de 10% a 80%, apenas um minuto a mais do que o Born VZ (79 kWh), que carrega a 185 kW (+50 kW).
Na prática, deu para ver que esse desempenho é realista - inclusive em comparação direta com outros dois veículos elétricos que tinham potência de recarga maior e estavam nos mesmos pontos em que eu carreguei. Esse assunto aparece com detalhes no artigo que vamos publicar dedicado aos números desta viagem.
Preço elevado
Este foi o primeiro CUPRA Tavascan a chegar a Portugal rodando. As primeiras entregas a clientes estão previstas apenas para setembro.
O CUPRA Tavascan será oferecido em duas versões: Endurance e a VZ que trouxemos de Barcelona. A Endurance utiliza só um motor elétrico traseiro de 210 kW (286 cv), mas mantém a mesma bateria de 77 kWh. Por isso, a autonomia é maior: 568 km.
Os preços começam em 50 411 euros para o Tavascan Endurance, enquanto o Tavascan VZ parte de 66 626 euros - um valor alto, mesmo tratando-se da configuração topo de linha.
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