A Comissão Europeia tem insistido na necessidade de acelerar a eletrificação do automóvel, mas a própria frota elétrica do órgão vem colocando a paciência de alguns comissários à prova. Conforme noticiou o jornal Politico, os deslocamentos entre Bruxelas e Estrasburgo exigem uma parada em um posto de serviço em Luxemburgo para recarregar os veículos oficiais, já que eles não conseguem completar, de uma só vez, os cerca de 440 km que separam as duas cidades.
Na prática, para um trajeto que levaria aproximadamente cinco horas sem interrupções, é preciso somar mais 20 a 30 minutos. Segundo funcionários de três gabinetes ouvidos pelo mesmo jornal, esse inconveniente tem irritado integrantes da Comissão.
Modelos selecionados seriam “pouco adequados”
Os carros elétricos passaram a fazer parte da frota da Comissão em 2022, durante o primeiro mandato de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. A iniciativa visava reduzir emissões - compromisso reiterado em dezembro de 2025, quando foi anunciado que a frota de 128 veículos da instituição será de zero emissões até 2027.
De acordo com um porta-voz da Comissão citado pelo Politico, cerca de 80% da frota já é elétrica. A publicação afirma ainda que os automóveis incluem “modelos de grandes dimensões da BMW”, descritos por outro funcionário como pouco adequados para viagens longas.
O tema chegou a ser discutido em uma reunião do Colégio de Comissários no início deste ano, após um comissário reclamar dos transtornos associados aos veículos elétricos.
Trem não é opção por um motivo específico
Uma alternativa à parada para recarga seria trafegar bem mais devagar na rodovia para economizar bateria, mas essa saída não parece resolver. “Mas isso não funciona realmente”, disse ao Politico, sob anonimato, um funcionário de um comissário incomodado com a situação. Outro funcionário relatou que, dessa forma, a viagem pode se estender para até sete horas.
A ideia de ir de trem também não convence. Segundo um funcionário de um segundo comissário insatisfeito, os membros da Comissão podem precisar fazer ligações sensíveis durante o percurso, o que torna o carro oficial mais conveniente. Ainda assim, eles também não ficariam satisfeitos com a necessidade de parar para recarregar - às vezes já tarde, depois de longas sessões plenárias em Estrasburgo.
Um dos comissários teria adotado outro arranjo. De acordo com três funcionários citados pelo jornal, Olivér Várhelyi, Comissário europeu para a Saúde e Segurança Alimentar, chegou a viajar para Estrasburgo em uma van com sua equipe, deixando de lado o carro elétrico que lhe havia sido atribuído.
Von der Leyen não utiliza carro elétrico
Embora a presidente da Comissão seja uma das principais vozes em favor da eletrificação da economia europeia, inclusive nos transportes, ela não enfrenta as mesmas limitações sentidas pelos demais integrantes do Colégio de Comissários.
Por razões de segurança, o veículo da dirigente precisa ser blindado e, segundo um funcionário citado pela mesma publicação, hoje não existe um modelo elétrico blindado adequado para cumprir essa função.
A Comissão deve apresentar em julho o seu aguardado plano de eletrificação, depois que o pacote foi adiado em relação ao cronograma inicialmente previsto para meados de junho.
O feitiço virando contra o feiticeiro?
Apesar do aspecto curioso das reclamações internas na Comissão sobre o uso de carros elétricos, o episódio acaba reforçando argumentos defendidos há anos.
A transição para a mobilidade elétrica pode até ser impulsionada por metas regulatórias, mas a infraestrutura de recarga, os hábitos de uso e a percepção dos consumidores nem sempre evoluem no mesmo ritmo.
Aproveite e ouça (também pode ver) o nosso último podcast sobre o polêmico Ferrari Luce, o primeiro elétrico da marca italiana. Tem uma autonomia anunciada suficiente para fazer uma viagem entre Bruxelas e Estrasburgo sem parar, mas não sobra muito:
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