Para uma marca cuja imagem costuma ser associada a uma postura tão conservadora quanto a da Toyota, sua trajetória é cheia de ideias originais, ousadas e curiosas - e o pequeno Toyota Sera é um ótimo exemplo disso.
Lançado em 1990 (e antecipado pelo concept AXV-II de 1987), esse cupê era, ao mesmo tempo, extremamente comum e totalmente fora do padrão: de um lado, arquitetura e mecânica bem convencionais; de outro, um visual extravagante. Basta olhar para as portas.
O Toyota Sera apareceu no auge da bolha econômica japonesa - que cresceu ao longo da segunda metade dos anos 80 e estouraria em 1991.
Foi uma fase que rendeu algumas das máquinas japonesas mais lendárias de hoje: do MX-5 ao Skyline GT-R, sem esquecer o NSX, entre outras… Parecia que tudo era possível.
Tudo, inclusive pegar os comportados Starlet e Tercel (compactos) como base e, a partir deles, criar um cupê pequeno com aparência futurista (para a época) e equipá-lo com portas de abertura exótica (“asas-de-borboleta”), que pareciam ter sido "pedidas emprestadas" de um supercarro - diz-se que foram as portas do Sera que inspiraram as portas do McLaren F1…
Dessas origens modestas, o modelo manteve a receita de "tudo na frente": motor dianteiro transversal e tração dianteira - além do conjunto mecânico. Aqui, tratava-se de um quatro-cilindros em linha aspirado, com 1,5 l e 110 cv, combinado com duas opções de câmbio: manual de cinco marchas ou automático de quatro.
Mesmo com peso baixo - entre 890 kg e 950 kg, dependendo da versão e da transmissão -, ele estava longe de ser, naturalmente, um destaque em desempenho. Ainda assim, o visual futurista e, sobretudo, "aquelas" portas, com certeza, roubaram a cena.
"Aquelas" portas
As portas exóticas - de geometria diédrica - avançavam até o teto e trabalhavam com dois pontos de pivô: um na base da coluna A e outro acima do para-brisa, permitindo que se abrissem para cima. Na prática, isso trazia uma vantagem clara: ao abrir, elas não invadiam tanto a lateral, o que ajudava quando a gente fica "espremido" em vagas perpendiculares.
Por outro lado, eram portas grandes e pesadas, o que exigiu o uso de amortecedores pneumáticos para manter o conjunto aberto e facilitar a operação para o usuário.
Outro detalhe curioso era o modo como a área envidraçada das portas se curvava em direção ao teto - ou, melhor dizendo, à ausência dele: o carro usava um teto do tipo T-bar, algo relativamente popular naquele período, como no Nissan 100NX.
Esse desenho, no entanto, restringia bastante o quanto as janelas realmente podiam descer. A solução lembrava a de alguns supercarros mais exóticos, mas, no uso diário, não era nada prática.
Mais uma vez, alguns anos depois, o McLaren F1 adotaria uma ideia semelhante; e o menos conhecido Subaru SVX - um cupê maior e contemporâneo do Sera - também recorria ao mesmo tipo de solução.
Para completar, como dá para ver, a enorme área de vidro fazia o volume do habitáculo do Toyota Sera virar pouco mais do que uma "bolha" envidraçada - outra tendência forte no fim dos anos 80, presente em muitos concepts de salão.
Se, por um lado, isso deixava a luz invadir todo o interior, por outro, em dias de sol e calor, dá para imaginar o sofrimento. Não por acaso, o ar-condicionado entrou na lista de equipamentos de série - algo bem incomum para a época.
Limitado ao Japão
Se você nunca viu ou sequer ouviu falar do Toyota Sera, não é surpresa. Ele foi vendido apenas no Japão e exclusivamente com volante à direita, apesar de compartilhar sua base técnica com vários outros modelos. Sua vida comercial também foi curta: só cinco anos (1990-1995), intervalo em que emplacou praticamente 16 mil unidades.
Esse total não reflete o impacto inicial do carro. No primeiro ano cheio de vendas, ele chegou a algo em torno de 12 mil unidades, mas, no ano seguinte, a procura simplesmente desabou.
Dá para dizer que o tombo poderia ser explicado pelo estouro da "bolha" econômica japonesa em 1991, mas é mais correto afirmar que foi a própria Toyota que acabou "sabontando" seu pequeno e exótico cupê.
Rival interno
Apenas um ano após a estreia do Sera, a Toyota colocava nas ruas um segundo cupê compacto: o Paseo, em 1991. Curiosamente, o Paseo usava a mesma base técnica do Sera, mas não tinha nada de exótico. Era um cupê de desenho mais consensual - e também menos interessante -, com portas de abertura convencional, mas levava vantagem sobre o Sera em vários pontos.
O primeiro era o espaço interno. Com 80 mm a mais de entre-eixos (2,38 m contra 2,30 m) e expressivos 285 mm extras no comprimento (4,145 m contra 3,860 m), oferecia um habitáculo bem mais folgado, especialmente para quem ia atrás.
Além disso, ao contrário do Sera, o Paseo foi exportado para muitos outros mercados, incluindo Portugal. Com maior escala de produção, acabava sendo mais rentável para a Toyota.
Com o lançamento do Paseo, o destino do Toyota Sera praticamente ficou selado - e as vendas deixaram isso claro. Ele virou um nicho dentro de outro nicho, e só os fãs mais fiéis do modelo resistiriam à tentação de escolher o Sera no lugar do Paseo, muito mais comum.
O mais intrigante é que, mesmo assim, o Toyota Sera recebeu atualizações ao longo de sua curta trajetória. A última delas, chamada Phase III, trouxe melhorias nos níveis de segurança.
As portas exóticas, por exemplo, passaram a contar com barras de proteção lateral, o que obrigou a adoção de amortecedores novos e mais fortes para lidar com o peso extra. Como opcional, ABS e airbags também ficaram disponíveis.
Identificar um Sera Phase III em relação aos demais era relativamente simples: na traseira, ele ganhou um enorme spoiler que incorporava uma terceira luz de freio em LED.
Mas… por quê?
A pergunta que ainda fica no ar sobre as portas do Toyota Sera é: por quê? Por que a Toyota decidiu criar - com todos os custos técnicos e financeiros envolvidos - portas de abertura exótica para um cupê pequeno que pretendia ser acessível?
A ideia era verificar a viabilidade desse tipo de solução? A marca estaria considerando algo assim para modelos futuros, como o Supra A80, que seria lançado em 1993? Ou foi simplesmente uma decisão de imagem?
Provavelmente, nunca vamos saber…
O Toyota Sera parece ter nascido já "condenado", mas só o fato de ele ter existido já é motivo para agradecer.
Uma extravagância que a Toyota ainda consegue se permitir, mesmo hoje. Basta lembrar do GR Yaris.
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