Num momento em que se ouve falar tanto de unicórnios em Portugal, não vou entrar na fila para falar da Farfetch. Em vez disso, quero falar do Toyota GR Yaris. Ele é tão raro que, na prática, nem deveria existir - e, ainda assim, existe. Aproveitem enquanto ainda dá tempo.
No universo das startups, unicórnios são as empresas que passam de um valor de mercado de US$ 1 bilhão. Só que não é de dinheiro que eu quero tratar aqui. O que me interessa é a raridade que a própria ideia carrega e que, no fundo, sustenta essa criatura mitológica.
E já adianto: não se enganem achando que um especial de homologação como o GR Yaris vai se repetir. Não vai. Para minha tristeza. Mesmo esse carro apareceu “fora de época” e, se não fosse a paixão por automóveis do Akio Toyoda, presidente da Toyota, muito provavelmente ele nunca teria saído do papel.
Acho que essas primeiras linhas já deixaram claro o quanto considero o Toyota GR Yaris especial. Mas, se ainda restar alguma dúvida, fiquem à vontade para tirá-la com este vídeo:
Coragem… mas não só
Falar do GR Yaris é falar de coragem. Porque seria muito fácil arrumar uma justificativa para não colocar nas ruas um esportivo assim. Só que a Toyota não embarca nessa e tem feito o possível para manter acesa a chama dos driver’s cars - isto é, carros feitos para quem realmente gosta de dirigir.
Basta olhar para os três modelos que a marca japonesa lançou recentemente com o selo da Gazoo Racing: GR Yaris, GR Supra e GR 86. Nem vou trazer o GR Corolla para a conversa porque (infelizmente) ele não é vendido na Europa. Quando a gente olha essa lista, fica claro que poucas marcas têm feito tanto para salvar essas “máquinas de dirigir” quanto a Toyota.
Então, sim: foi preciso coragem para lançar um carro como o GR Yaris. Mas não foi só isso - foi preciso engenhosidade e competência. Porque não basta criar um carro “à moda antiga”, com DNA de rali e tecnologia moderna. É preciso entregar na estrada - ou na terra, como preferirem - tudo o que ele promete. E o GR Yaris entrega, repetidas vezes.
Acima de tudo (e de todos)
Compacto, forte, divertido e incrivelmente eficiente, o Toyota GR Yaris passa por cima de qualquer expectativa. Ele é a definição perfeita de pocket-rocket e, hoje, o melhor “pequeno esportivo” que dá para comprar. Disso eu não tenho dúvida.
Ele não é o mais rápido nem o mais potente. Mas tem algo que falta em muitas opções: é intuitivo, comunicativo e faz a gente se sentir especial. Os números, por si só, não conseguem fazer justiça a ele. De jeito nenhum.
O câmbio tem relações curtas e exige que a gente trabalhe. A direção é direta e fácil de interpretar. E o pequeno 1.6 turbo de três cilindros é uma verdadeira obra de arte. Foi “acertado” sob medida para este Toyota GR Yaris - e brilha em todos os aspectos.
Mesmo “cheio” de tecnologia, o que mais me marca no GR Yaris é a naturalidade com que tudo acontece. É um carro feito para ser guiado. No limite. Sempre que a estrada permitir.
Claro que ele também sabe “sobreviver” na cidade. Apesar de ser hardcore, traz todas as conveniências das quais a gente já não abre mão: ar-condicionado, sistema de infoentretenimento e compatibilidade com Android Auto e Apple CarPlay. Mas, até a gente encontrar “aquela estrada”, com “aquelas curvas”, o GR Yaris parece estar sempre um pouco contido.
Só que, meu amigo, quando essa estrada aparece, tudo se encaixa e o Toyota GR Yaris fica praticamente perfeito. E não é preciso fazer curso de pilotagem para entendê-lo. Nada disso. Basta um pouco de ousadia e uma boa dose de confiança no trabalho dos engenheiros da Gazoo Racing.
Espécie em vias de extinção
Mesmo completamente rendido a esse modelo, não deixo de sentir um certo aperto ao saber que a receita não vai se repetir. Porque o Toyota GR Yaris é exatamente aquilo que muitos de nós temíamos nunca mais ver.
Exercício de marketing existe aos montes. O problema é que, muitas vezes, a essência não acompanha. Com este GR Yaris, a história é outra: ele acompanha - e ainda entrega mais do que promete.
Encerrando esta crônica, lembro uma frase que o Guilherme usou em um texto publicado aqui na Razão Automóvel, sobre outro driver’s car, o Mazda MX-5: “A vida é curta demais para dirigir carros sem graça”. O GR Yaris deixa impossível discordar.
Por isso termino como comecei: o Toyota GR Yaris é raro. É um verdadeiro unicórnio. Aproveitem enquanto há tempo. Um dia, todo mundo vai sentir falta.
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