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Vacas reconhecem rostos humanos e associam vozes às faces, mostra estudo do INRAE

Mulher usando tablet observa vaca marrom e branca em pasto durante o dia.

Quando pesquisadores exibiram para vacas dois rostos numa tela de vídeo, a expectativa era simples: elas deveriam observar mais o rosto que já conheciam.

Ao comparar um rosto desconhecido com outro familiar, a equipa imaginou que as vacas se concentrariam no tratador habitual - a pessoa que chega todas as manhãs com a ração.

O que aconteceu foi o contrário: elas fixaram o olhar por mais tempo no desconhecido. Por mais estranho que pareça, essa escolha não indica confusão; é, na verdade, um sinal de que houve reconhecimento.

E esse foi apenas o primeiro de dois resultados que, até então, ainda não tinham sido testados de forma direta em bovinos.

Um quebra-cabeça de reconhecimento familiar em vacas

Poucos animais convivem tão de perto com humanos quanto as vacas. Em muitas rotinas, elas são alimentadas com mamadeira, ordenhadas, escovadas e conduzidas por portões duas vezes ao dia.

Apesar dessa proximidade, vacas leiteiras quase não foram consideradas em estudos sobre como animais de produção reconhecem pessoas.

Cães e cavalos fazem isso. O mesmo tipo de capacidade já foi investigado em ovelhas, cabras e até gatos. As vacas, até recentemente, ficavam fora desse cenário.

Océane Amichaud, investigadora do Instituto Nacional de Pesquisa para a Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da França (INRAE), decidiu esclarecer duas questões que ainda não tinham sido resolvidas de maneira convincente.

As vacas conseguem reconhecer um rosto humano isoladamente, sem apoio de formato do corpo, altura ou roupa? E conseguem associar esse rosto à voz da mesma pessoa?

Como foi o teste no recinto

A equipa trabalhou com 32 vacas jovens da raça Holandesa, criadas numa fazenda experimental em Nouzilly, na França. Todas eram manejadas desde o nascimento pelos mesmos quatro cuidadores.

Durante o teste, cada vaca entrava sozinha num recinto montado entre duas telas.

Em cada tela, passava um vídeo curto e sem som com o rosto de um homem. Numa delas aparecia um cuidador do dia a dia. Na outra, um estranho.

Para os ensaios de reconhecimento facial, foram filmados oito homens, todos com idades semelhantes e gravados em condições padronizadas.

Em cada gravação, eles diziam a mesma frase neutra em francês, com tom calmo. A parte do áudio seria usada depois.

Por que as vacas olharam mais para estranhos

Nas rodadas silenciosas, as vacas mantiveram o olhar por mais tempo no homem desconhecido. O padrão foi nítido e consistente, surgindo tanto no primeiro olhar quanto no tempo total de fixação.

O ponto principal não é qual rosto elas “preferiram”, e sim o facto de preferirem um em detrimento do outro. Quando um animal demonstra preferência, isso sugere que ele distingue os dois rostos.

Em testes semelhantes, cães também olham por mais tempo para pessoas desconhecidas - e as vacas apresentaram o mesmo comportamento. Em outras espécies de animais de produção, por vezes acontece o inverso, com maior atenção voltada a rostos familiares.

Associando vozes a rostos

Na etapa seguinte - sem precedente em bovinos - uma voz passou a ser reproduzida por um alto-falante entre as telas, dizendo a mesma frase usada nos vídeos.

Em alguns momentos, a voz correspondia ao rosto exibido na tela da esquerda; em outros, ao rosto da direita.

As vacas passaram mais tempo olhando para a tela que mostrava a pessoa cuja voz estava a tocar. Ensaio após ensaio, o par correspondente atraía o olhar, e não a combinação incompatível.

Esse padrão de atenção é o que os investigadores chamam de reconhecimento intermodal - a capacidade de ligar um som a uma imagem que “pertencem” um ao outro.

Até então, não havia evidência de que vacas conseguissem relacionar a voz de um humano ao rosto dessa mesma pessoa.

A monitorização da frequência cardíaca

Com monitores de frequência cardíaca colocados, a equipa esperava que vozes familiares pudessem acalmar as vacas e que vozes desconhecidas as deixassem mais agitadas. Isso não apareceu.

A frequência cardíaca permaneceu estável. É possível que clipes de 8 segundos tenham sido curtos demais para gerar alteração, ou que a atenção às telas tenha reduzido qualquer reação ao áudio. Reconhecer alguém não exige, necessariamente, excitação emocional.

Um vídeo bidimensional não equivale a uma pessoa dentro do estábulo. Ali não havia cheiro, corpo nem deslocamento no espaço.

Além disso, o áudio foi apresentado separado da imagem, para que os animais não pudessem “ler” os lábios e inferir a correspondência.

Ao usar vídeos em vez de pessoas reais, os investigadores obtêm dados mais controlados. A reação de uma vaca diante de um tratador verdadeiro, num recinto real, pode ser maior, mais rápida ou diferente em natureza.

Amichaud e colegas reconhecem esse limite e defendem estudos de acompanhamento com pessoas que as vacas possam de facto ver e cheirar - tridimensionais, presentes e caminhando pelo mesmo estábulo.

Implicações para o bem-estar animal

O resultado final pode ser dito de forma direta: vacas conseguem identificar uma pessoa pelo rosto e também associar a voz dessa pessoa ao respetivo rosto.

Elas fazem isso sem treino e sem recompensa - o que indica que a capacidade faz parte do que elas trazem para a relação, em vez de algo que o cuidador precise ensinar.

“Os nossos resultados sugerem que as vacas não percebem todos os humanos como uma única categoria indiferenciada”, disse Amichaud.

Esses achados podem ter implicações práticas para a pecuária leiteira e para o bem-estar animal. As vacas parecem capazes de reconhecer e distinguir tratadores individualmente, em vez de encararem todos os humanos da mesma maneira.

Isso sugere que manter um grupo mais constante de cuidadores - em vez de introduzir pessoas desconhecidas com frequência - pode ajudar as vacas a construir familiaridade e a reduzir o stress nas interações diárias.

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