A estrutura do cérebro feminino passa por mudanças profundas para se preparar para a parentalidade.
Ainda assim, embora o cérebro masculino nunca precise reorganizar-se para uma gravidez, evidências recentes indicam que esse órgão também é alterado de forma relevante com a chegada de um bebê.
Mudanças rápidas no cérebro masculino nas primeiras 24 semanas
Um novo estudo com exames cerebrais de 25 pais aponta que, nas semanas posteriores ao nascimento de uma criança, ocorre uma reestruturação acelerada no cérebro paterno.
Em outras palavras, o cérebro masculino parece “podar” algumas vias e refazer conexões em outras, como parte do ajuste à paternidade.
Ao longo das primeiras 12 semanas pós-parto, a matéria cinzenta aparenta diminuir gradualmente. Depois, entre 12 e 24 semanas, outras áreas aumentam de volume.
Segundo investigadores da Universidade RWTH Aachen, na Alemanha, isso revela um “padrão dinâmico de mudança” destinado a “ajudar a refinar competências essenciais de cuidado”.
Como concluem os autores, “embora seja necessária mais investigação para sustentar esta hipótese, os padrões temporais observados apoiam esta suposição”.
Os sinais mais marcantes de reorganização das vias neurais parecem acontecer nas seis primeiras semanas após o parto.
Nesse intervalo, os cientistas observaram reduções disseminadas em múltiplas regiões do cérebro, incluindo os lobos parietal, temporal, frontal e occipital.
Quando se chegaram às 24 semanas depois do nascimento, essas reduções de matéria cinzenta tinham, em grande parte, diminuído, embora algumas áreas do córtex continuassem a encolher.
Onde a matéria cinzenta diminui - e onde volta a aumentar
A aparente perda de volume de matéria cinzenta segue uma tendência amplamente semelhante ao que se observa no cérebro feminino à medida que a gravidez progride.
À primeira vista, perder matéria cinzenta pode soar como algo prejudicial, mas, na realidade, isso pode indicar que o cérebro está a reconfigurar as suas vias neurais para responder às exigências de uma nova fase da vida.
Durante muitas décadas, acreditou-se que o cérebro humano era “fixo” e incapaz de mudanças.
Hoje, sabe-se que ele consegue reorganizar o seu tecido finito em etapas importantes, como a infância, a adolescência ou a vida adulta.
A parentalidade é mais uma etapa transformadora - mas a investigação em neurociência sobre esse período ainda está a dar os primeiros passos, tanto para mães quanto para pais.
Este trabalho é uma das análises mais claras, até agora, do que ocorre no cérebro masculino nas primeiras semanas de paternidade.
“Embora os pais (em breve) não passem pelas imensas mudanças endocrinológicas e fisiológicas como as mães, eles precisam adaptar-se para atender às novas exigências da paternidade”, escrevem investigadores da Universidade de Aachen, liderados pela psiquiatra Negin Daneshnia.
Ainda que algumas áreas do cérebro masculino pareçam reduzir-se com o nascimento do filho, outras, mais tarde, aumentam de volume. Entre elas está o córtex cingulado anterior esquerdo, que desempenha um papel central na antecipação de tarefas e na divisão da atenção.
Isso sugere que o cérebro está a reorganizar-se para lidar com as demandas de um bebê indefeso.
Outra região do cérebro masculino que passa por mudanças profundas após o parto é a substância negra. Essa área é essencial para a produção de dopamina, o “hormônio do bem-estar” que sustenta o sistema de recompensa do cérebro.
Além disso, a amígdala - envolvida no processamento emocional - apresentou conectividade ampliada com outras regiões do cérebro após o nascimento. Essa estrutura está intimamente ligada à vigilância e ao vínculo parental.
O que isso sugere sobre a rede cerebral parental
Em conjunto, explicam Daneshnia e colegas, essas alterações são amplamente compatíveis com a ideia de uma “rede cerebral parental”, um circuito neural que ajuda a sustentar o cuidado humano.
O ensaio é pequeno, mas combina com alguns outros estudos iniciais, que também indicam que pais de primeira viagem passam por mudanças neurológicas significativas, sobretudo na sua “rede de modo padrão”.
Essa rede cerebral está associada à aceitação parental e ao afeto.
Como os exames em cérebros masculinos foram interrompidos às 24 semanas pós-parto, não se sabe ao certo por quanto tempo essas mudanças estruturais se mantêm. Em estudos com mães, por exemplo, há resultados sugerindo que alterações cerebrais associadas à parentalidade podem durar muitos anos após o parto.
Entre pais, há menos pesquisas realizadas.
Mesmo sem vivenciar uma gravidez física, a parentalidade continua a ser uma experiência que muda a vida.
Há estudos que sugerem, por exemplo, que pais podem ser tão afetados pela depressão pós-parto quanto as mães.
Também existem indícios de que as mudanças no cérebro variam conforme se trata do primeiro ou do segundo filho.
Nos próximos anos, é provável que se descubra muito mais sobre como o cérebro humano evoluiu para lidar com a parentalidade.
De algum modo, isso tem mantido a nossa espécie viva.
O estudo foi publicado na revista Psiquiatria Translacional.
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