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Açúcar, memória e roedores: revisão sistemática e meta-análise sobre reverter os efeitos da dieta

Cientista em laboratório conduzendo experimento com rato branco e tabuleiro de labirinto.

O nosso apreço por açúcar já foi uma vantagem evolutiva: para ancestrais que viviam de coleta, o sabor doce ajudava a obter mais energia a partir de alimentos raros e muito calóricos.

Hoje, essa mesma preferência pode fazer a gente voltar à loja às 22h só para matar uma vontade “atrevida” de chocolate.

Isso acontece mesmo quando já conhecemos muitos dos riscos físicos e metabólicos do consumo excessivo de açúcar, como obesidade, diabetes, cáries e até prejuízos de memória.

A questão é: depois de uma fase de alimentação rica em açúcar, até que ponto dá para desfazer o estrago apenas mudando a dieta?

O que a revisão sistemática e meta-análise avaliou em roedores

Uma nova revisão sistemática e meta-análise indica que, em roedores, é possível reverter efeitos cognitivos de uma dieta açucarada - porém, talvez só em parte.

Em outras palavras, alguns prejuízos podem permanecer mesmo após a adoção de hábitos alimentares mais saudáveis.

De acordo com o trabalho, reduzir a ingestão de açúcar melhora a memória de roedores que antes recebiam dietas com muito açúcar, mas não devolve o desempenho ao patamar de animais que sempre foram alimentados de forma saudável.

Estudos anteriores já haviam associado dietas com alto teor de gordura e alto teor de açúcar (HFHS) a vários efeitos neurocognitivos e comportamentais. Ainda assim, não estava claro o quanto essas alterações se mantêm quando a alimentação melhora.

Para investigar o tema, os pesquisadores reuniram e analisaram resultados de 27 estudos pré-clínicos, com experimentos controlados em ratos e camundongos, buscando esclarecer como a troca de dietas HFHS por alimentos mais saudáveis afeta a cognição.

“Os nossos resultados mostram que melhorar a qualidade da dieta traz benefícios para a memória”, afirma a autora principal Simone Rehn, biopsicóloga da University of Technology Sydney (UTS), na Austrália.

“Mas essas melhorias foram incompletas. Mesmo após semanas com uma dieta saudável, a memória não voltou ao nível observado em animais que nunca haviam comido uma dieta não saudável.”

Ao realizar uma revisão sistemática e uma meta-análise, Rehn e colegas procuraram identificar padrões gerais que emergem de mais de duas dezenas de estudos.

Resultados: melhora na memória, mas não em outras medidas

O foco principal foi dieta e memória, mas a equipe também acompanhou outros possíveis sinais de efeito cognitivo, como nível geral de atividade, motivação por comida e comportamentos semelhantes a ansiedade ou depressão.

Entre roedores expostos a dietas não saudáveis por pelo menos duas semanas, aqueles que passaram a consumir alimentos mais saudáveis por no mínimo 24 horas, de forma consistente, tiveram melhor desempenho em testes de memória do que os que continuaram comendo “porcarias”, segundo a análise.

Já as demais medidas cognitivas não apresentaram melhorias consistentes associadas à mudança alimentar, o que sugere um efeito mais específico sobre a memória.

Os efeitos sobre a memória também variaram conforme o subtipo de dieta. Houve um aumento significativo em modelos com dietas ricas em gordura, mas isso não foi observado em dietas ricas em açúcar nem nas dietas HFHS.

“Nós vimos melhorias mais claras de memória depois que dietas ricas em gordura foram substituídas por alimentos saudáveis”, diz Rehn.

“Mas dietas com muito açúcar adicionado, incluindo dietas com muito açúcar e gordura, mostraram pouca evidência de recuperação. Isso sugere que o açúcar pode ser um fator-chave para limitar a recuperação da memória.”

Hipocampo: a região central para memória e aprendizado

Segundo o autor sênior Mike Kendig, também biopsicólogo da UTS, os modelos com roedores foram essenciais para isolar o efeito da dieta sobre a memória.

“Em humanos, mudanças na alimentação geralmente acontecem junto com mudanças em exercício, humor e rotinas diárias, o que torna muito difícil separar os efeitos apenas da dieta na função cerebral”, afirma Kendig.

Tudo isso parece convergir para o hipocampo, região do cérebro com papéis fundamentais na memória e no aprendizado - e que também participa da regulação do apetite.

Em humanos, dietas HFHS já haviam sido associadas anteriormente à redução do volume e do funcionamento do hipocampo, uma ligação que o novo trabalho reforça.

“Nossos achados sugerem que a reversão da dieta melhora principalmente a memória espacial dependente do hipocampo, reforçando evidências de que o hipocampo é particularmente sensível a mudanças na dieta e a outros fatores ambientais”, escrevem os pesquisadores no estudo.

Apesar do prejuízo de memória, a mensagem não é entrar em desespero por todo o açúcar já consumido, e sim entender o tamanho do risco envolvido e reduzir o açúcar o quanto antes.

“Existe uma crença comum de que os efeitos de uma alimentação não saudável são facilmente reversíveis. Esses resultados sugerem que, pelo menos para a memória, o cenário pode ser mais complicado, especialmente quando as dietas têm muito açúcar adicionado”, diz Kendig.

“Melhorar a qualidade da dieta ainda vale a pena. Mas proteger a saúde do cérebro também pode depender de evitar uma exposição prolongada a dietas não saudáveis, em vez de supor que os efeitos sempre poderão ser completamente desfeitos mais tarde.”

O estudo foi publicado na revista Nutritional Neuroscience.

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