A maioria das pessoas conhece o ritual: sobe na balança e, em seguida, recebe um valor de IMC (BMI) que a encaixa como abaixo do peso, com peso normal, com sobrepeso ou com obesidade.
Durante anos, médicos recorreram ao IMC (BMI) para estimar riscos de saúde associados ao peso. Só que evidências recentes indicam que esse índice pode deixar passar muitas pessoas com níveis perigosos de gordura corporal.
Num estudo com quase meio milhão de indivíduos, o percentual de gordura corporal e a circunferência da cintura mostraram-se capazes de prever riscos à saúde com mais precisão do que o IMC (BMI) usado isoladamente.
O IMC (BMI) não consegue identificar gordura prejudicial
O IMC (BMI) esbarra num problema central: ele não mede, de facto, a gordura corporal.
A fórmula foi desenvolvida na década de 1830 pelo estatístico belga Adolphe Quetelet. À época, a intenção era descrever o tamanho corporal médio em populações - e não diagnosticar doenças em pessoas.
Mesmo assim, com o passar do tempo, o índice transformou-se numa das ferramentas mais utilizadas na medicina.
O ponto crítico é que o IMC (BMI) trata todo o peso como se fosse igual. Massa muscular e tecido adiposo entram no mesmo cálculo, apesar de terem efeitos muito diferentes no organismo.
Assim, um atleta muito musculoso e um adulto sedentário podem apresentar o mesmo IMC (BMI), mas com riscos à saúde completamente distintos.
Além disso, o IMC (BMI) não informa onde a gordura está acumulada no corpo - e essa localização é mais relevante do que muita gente imagina.
Médicos defendem medições mais completas
Em janeiro de 2025, a The Lancet Diabetes & Endocrinology Commission propôs uma nova definição de obesidade baseada no excesso de gordura corporal, e não apenas no IMC (BMI).
O documento sustentou que os profissionais deveriam combinar o IMC (BMI) com outras medidas, como a circunferência da cintura ou avaliações de composição corporal.
A ideia é reconhecer pessoas cuja saúde está ameaçada por um acúmulo de gordura prejudicial, mesmo quando o IMC (BMI) parece dentro da normalidade. Foi justamente isso que o novo estudo do UK Biobank procurou testar.
“Obesity is increasingly recognized as a disease, but BMI is often used alone when diagnosing obesity without considering broader health,” diz Sophie Gunnarsson, da Universidade de Lund.
“The method has several limitations, and our study provides new evidence that integrating body fat percentage and waist circumference captures risk dimensions missed by BMI alone.”
Percentual de gordura corporal e cintura expõem o risco
Os investigadores analisaram dados de saúde de 489,311 adultos. Em vez de se apoiarem apenas no IMC (BMI), acrescentaram duas medições.
A primeira foi o percentual de gordura corporal, que estima quanto do corpo de uma pessoa é composto por tecido adiposo.
A segunda foi a circunferência da cintura, que ajuda a inferir quanta gordura envolve órgãos internos.
Os participantes foram agrupados em categorias com base em limites específicos por sexo. Mulheres com gordura corporal acima de 35 percent e homens acima de 25 percent foram colocados em grupos de maior adiposidade.
Para a cintura, valores acima de 88 centímetros em mulheres e 102 centímetros em homens indicaram aumento de gordura abdominal.
Com essas medidas, a equipa definiu cinco categorias de risco, indo de baixo risco a risco muito alto.
Gordura corporal e risco de doenças
A equipa acompanhou os participantes por mais de 13 anos, recorrendo a prontuários eletrónicos.
Nesse período, mais de 24,000 pessoas tiveram eventos cardiovasculares maiores. Mais de 30,000 desenvolveram diabetes tipo 2, e quase 15,000 receberam diagnóstico de doença renal crónica.
A associação entre gordura corporal e risco de doença foi inequívoca: à medida que aumentavam o percentual de gordura e a circunferência da cintura, também crescia a probabilidade de adoecer.
No grupo de risco mais alto, o risco de desenvolver diabetes tipo 2 foi mais de nove vezes maior do que no grupo de menor risco.
Já o risco de doença renal mais do que duplicou, enquanto o risco cardiovascular aumentou 63 percent.
IMC (BMI) normal pode enganar
Um dos resultados mais marcantes envolveu pessoas com IMC (BMI) aparentemente normal.
Cerca de um terço dos participantes no grupo de risco mais alto, na verdade, estava na faixa de IMC (BMI) entre normal e sobrepeso.
Quase cinco percent das pessoas nos dois grupos de maior risco apresentavam IMC (BMI) totalmente normal, apesar de carregarem distribuições de gordura perigosas.
Na prática, isso significa que muitos indivíduos que parecem saudáveis pelo IMC (BMI) podem, ainda assim, estar expostos a ameaças relevantes.
Entre aqueles com IMC (BMI) normal, mas com alta adiposidade, o risco de doença cardiovascular foi 45 percent maior; o risco de doença renal foi 58 percent maior; e o risco de diabetes tipo 2 foi mais de quatro vezes maior, quando comparados com pessoas com perfis de gordura mais saudáveis.
Essa condição é frequentemente chamada de obesidade com peso normal. Quem a apresenta pode parecer magro, mas acumular gordura metabolicamente nociva em regiões profundas do corpo.
O IMC (BMI) conta apenas parte da história
O estudo não defende que o IMC (BMI) seja simplesmente descartado.
Os investigadores observaram que o IMC (BMI) continua a acrescentar informação quando é combinado com o percentual de gordura corporal e a circunferência da cintura.
Dentro de cada grupo de adiposidade, valores mais altos de IMC (BMI) ainda se associaram a maior risco global de doença.
O recado, portanto, não é que o IMC (BMI) não presta. O problema é tratá-lo como a única medida que importa.
Ao usar várias ferramentas em conjunto, o retrato do risco para a saúde torna-se muito mais nítido.
Testes simples ajudam a detetar perigo
Um ponto forte dessa abordagem é a viabilidade no dia a dia.
O percentual de gordura corporal pode ser estimado com aparelhos de impedância bioelétrica, que já existem em muitas clínicas e também em balanças domésticas. A circunferência da cintura exige apenas uma fita métrica.
São métodos rápidos, baratos e amplamente acessíveis.
Os investigadores também destacaram que a impedância bioelétrica tende a subestimar a gordura corporal em comparação com exames de imagem avançados.
Com isso, o total de pessoas em risco pode ser, na realidade, maior do que o sugerido pelos dados do estudo.
Tratamento da obesidade pode mudar
Os resultados também podem influenciar decisões sobre tratamento da obesidade.
Novos medicamentos antiobesidade, como agonistas do receptor GLP-1, tornaram-se cada vez mais populares - e também são caros. Em muitos casos, a elegibilidade depende fortemente de limites de IMC (BMI).
O estudo indica que esse critério pode deixar de fora pessoas de alto risco com IMC (BMI) normal e, ao mesmo tempo, direcionar tratamento a indivíduos de risco mais baixo cujo peso reflete fatores que não se devem ao acúmulo de gordura prejudicial.
“Our analyses show that combining body fat percentage and waist circumference when screening for obesity can help us identify individuals at high risk of developing obesity-related diseases that may be missed by using BMI alone,” observou Gunnarsson.
“The findings may help improve risk stratification as well as prioritization for lifestyle interventions, anti-obesity therapies, and weight loss surgery.”
Cuidados personalizados para a obesidade
Os investigadores avaliam que o trabalho pode ajudar a aproximar o cuidado da obesidade de uma medicina mais personalizada.
“I think that our new study is a fantastic example of how researchers in academia and industry can collaborate and hopefully contribute with new knowledge that may help identify individuals who are at elevated risk of obesity-related diseases,” afirmou Rashmi Prasad, coautora do estudo.
“We are already planning to carry out studies where we investigate whether the classification of individuals with obesity can be applied on other population groups.”
“Long-term, we hope that our research will lead to individualized treatment of obesity and prevent related diseases in high-risk individuals.”
Por quase dois séculos, o IMC (BMI) influenciou a forma como a sociedade entende peso corporal e saúde. Porém, o conjunto crescente de evidências sugere que o futuro do cuidado da obesidade pode depender menos do peso total e mais de onde a gordura se acumula - e de como ela afeta o organismo.
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