Ela saiu dos catálogos em 2022, depois de conquistar 1,2 milhão de compradores europeus. Três anos depois, a Citroën C1 pode voltar à cena em um formato totalmente novo: 100% elétrica e com preço abaixo da marca simbólica de 15 000 euros.
Projeto Eurocar e o possível retorno do Citroën C1
Dentro da Citroën, a iniciativa atende pelo codinome “Eurocar”. Para Xavier Chardon, diretor-geral da Citroën, trata-se de uma resposta direta a uma urgência: a “escassez de carros pequenos acessíveis” que atinge a Europa há anos. Os números ilustram bem o problema: em 2019, quem comprava carro novo no continente podia escolher entre 49 modelos abaixo de 15 000 euros. Hoje, sobrou apenas um.
Chegar a esse cenário não foi por acaso. O acúmulo de normas ambientais e de segurança, a alta dos custos de produção e a virada rumo à eletrificação acabaram sufocando o segmento A - o das compactas urbanas mais simples e baratas. Sem margem para lucrar nesses veículos menores, as montadoras optaram por deixar o segmento de lado e concentrar investimentos em modelos maiores, mais equipados e com melhor retorno financeiro. Como as primas Peugeot 108 e Toyota Aygo, com as quais dividia a mesma plataforma, a C1 acabou sendo vítima dessa mudança de estratégia.
Para a Citroën - marca que construiu reputação com carros populares e acessíveis - esse buraco no portfólio também soa como uma perda de identidade. Da Traction Avant ao 2CV, do Ami 6 ao C3, a fabricante do duplo chevron sempre sustentou uma vocação social. Abrir mão do território dos carros pequenos seria, nesse sentido, dar as costas a esse legado.
Formato e referências: mini monovolume e espírito do 2CV
A ambição do Eurocar é, nas palavras da própria direção da Citroën, “recriar o segmento A”. Os primeiros desenhos apontam para um carro de 3,5 metros de comprimento: compacto, porém pensado com soluções inteligentes. A proposta lembraria uma urbana inspirada no concept-car Elo, apresentado na semana passada.
Em vez de seguir o caminho tradicional de uma citadina com linhas mais baixas e alongadas, os engenheiros estariam inclinados a adotar uma silhueta de mini monovolume, na linha das kei cars japonesas. Esse tipo de arquitetura ajudaria a aproveitar melhor o espaço interno e a modularidade, mantendo os custos de desenvolvimento sob controle.
A referência, porém, poderia ir ainda mais longe na história da marca. De acordo com a revista britânica Autocar, o projeto seria concebido no espírito do 2CV: um carro simples e funcional, sem excesso de itens, desenhado para o uso diário - e não para impressionar.
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Europa na encruzilhada
Resta o ponto mais sensível: o custo. Como colocar na rua um carro elétrico por menos de 15 000 euros quando a bateria ainda responde por uma fatia importante do preço final? E como incluir todos os dispositivos de segurança exigidos pela regulamentação europeia sem deixar a conta inviável?
Para os executivos da Stellantis, controladora da Citroën, afrouxar as regras europeias se tornou indispensável. Bruxelas, inclusive, já trabalha em uma nova categoria regulatória chamada “e-car”, que abriria caminho para a venda de pequenos elétricos com menos obrigações: menos itens mandatórios, critérios de crash-test ajustados para veículos mais leves, entre outras medidas. A ideia é reduzir o custo de fabricação sem abrir mão do essencial.
A Comissão Europeia pode até tomar uma decisão já em 16 de dezembro de 2025. O tema é acompanhado de perto por toda a indústria, porque dele depende a viabilidade de vários planos semelhantes. Na Peugeot, avalia-se a volta de uma 108 elétrica; a Fiat também estuda alternativas. Assim, as três marcas do grupo Stellantis poderiam compartilhar esforços em uma plataforma comum, repetindo a lógica que sustentou o sucesso da geração anterior dessas urbanas.
Ainda assim, o chefe da Citroën alerta para um risco previsível: essas futuras citadinas elétricas podem acabar sendo montadas apenas com componentes asiáticos para cortar custos. Por isso, a Stellantis defende a exigência de um “conteúdo local mínimo” como forma de proteger a indústria europeia. Sem esse tipo de regra, a transição para o elétrico pode virar um grande deslocamento de valor agregado para a China - exatamente o oposto do que as montadoras europeias desejam.
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