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Em caso de acidente, o carro autônomo deve proteger quem?

Carro esportivo elétrico prateado futurista estacionado em ambiente interno com pessoas ao fundo.

Pense nesta situação: você está em um carro autônomo numa estrada de mão dupla. De repente, a carga de um caminhão se solta bem à sua frente. Em milissegundos, o sistema precisa optar entre três saídas: seguir na faixa, frear e bater na carga; puxar para o acostamento e assumir o risco de atropelar um pedestre; ou invadir a faixa contrária e se chocar com o veículo que vem no sentido oposto.

Esse é o famoso dilema do bonde - o problema moral clássico da filosofia que, por décadas, ficou restrito às salas de aula e, agora, chega de vez ao asfalto.

O tema (e vários desdobramentos) foi assunto de uma conversa entre Sérgio Magno, jornalista do Público especializado em tecnologia, e Diogo Teixeira, editor responsável da Razão Automóvel, no episódio mais recente do Auto Talks, gravado no ECAR Show.

Sérgio Magno, jornalista do Público, e Diogo Teixeira, editor responsável.

© Pedro Alves / Razão Automóvel - Sérgio Magno, jornalista do Público, e Diogo Teixeira, editor responsável da Razão Automóvel.

O que escolher?

Na visão de Sérgio Magno, não existe uma resposta “pronta”. “A proteção do ocupante não pode ser a prioridade máxima. A prioridade tem de ser criar o menor problema para todos os utilizadores da via”.

O contraste com o motorista humano é determinante: quando alguém reage por instinto, a sociedade tende a interpretar o ato de uma forma diferente de uma escolha feita por um software. Se é o algoritmo que decide, houve alguém que definiu essa lógica - e a responsabilidade precisa ser assumida, seja pelo fabricante, pelo regulador ou, em última instância, pela sociedade.

O AI Act europeu já começa a encostar nesse debate, mas as regras seguem em ritmo mais lento do que a evolução da tecnologia. “No Ocidente, tirando a Tesla, não estamos muito bem preparados para isso”, acrescentou o especialista.

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A China, por sua vez, está um passo adiante. A condução autônoma ainda segue as diretrizes da UNECE (Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa), mas, aos poucos, a entidade vem aprovando sistemas capazes de realizar manobras sem intervenção ativa - como trocas de faixa.

Para a Inteligência Artificial (IA), a lógica é mais objetiva: “o algoritmo é programado para minimizar a energia do impacto na sua via de rodagem, recusando criar novos perigos ou invadir a via contrária”.

A inteligência artificial

A chegada da IA atacou o maior calcanhar de Aquiles da condução autônoma: lidar com o imprevisível - o fator humano e a ambiguidade do trânsito do mundo real.

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Sérgio Magno disse ter visto essa mudança de perto ao rodar por cerca de uma hora pelas ruas de Pequim em um XPeng equipado com sistema de condução autônoma. Nesse percurso, o carro atravessou a cidade sem qualquer intervenção nos pedais ou no volante.

Ainda assim, o trecho mais marcante não envolveu uma manobra “complexa”. Foi algo cotidiano: em uma rua estreita, sem espaço para dois veículos passarem lado a lado, o carro se deparou com uma van de frente e começou a dar ré.

Quando o sistema notou que o motorista da van também recuou para ceder passagem, o veículo “mudou de ideias” e avançou. “Exatamente como um humano faria”, descreveu Sérgio Magno. A impressão final foi a de que “havia um pequeno humano comigo”.

Tesla FSD

© Tesla - Os Países Baixos foram os primeiros a aprovar o sistema de condução autônoma da Tesla, mas os demais Estados-membros ainda não acompanharam o exemplo holandês.

Para quando?

Apesar do otimismo, Sérgio Magno não espera uma adoção veloz em carros particulares. Pesquisas indicam que somente 10% dos consumidores demonstram interesse em ter um veículo com condução autônoma - um número que reflete tanto o custo da tecnologia quanto a desconfiança em relação a ela.

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Para ele, o avanço deve acontecer antes nos serviços comerciais: táxis-robôs, TVDE, transporte em áreas delimitadas. “Será aquela questão de eu mandar vir o Uber, ele vir até mim e levar-me para onde eu quero”, concluiu.

Em Portugal, o cenário começa a ser preparado para essa adoção. Em abril, o Governo aprovou um Decreto-Lei que, pela primeira vez, estabelece um regime jurídico específico para testes de veículos autônomos em via pública, com autorização do IMT e exigências de segurança e cibersegurança.

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Sobre a autora

Mariana Teles

O universo das “quatro rodas” entrou na sua vida por meio da Razão Automóvel. Esta é a sua primeira volta no jornalismo - e ela promete não parar.

Tags: Condução Autônoma, ECAR SHOW, ECAR SHOW 2026

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