Como test mules - ou, na tradução literal, «mulas de teste» - são conhecidos os protótipos usados no desenvolvimento de novos modelos numa etapa em que, muitas vezes, o formato final ainda nem foi definido.
Além disso, funcionam como verdadeiros «laboratórios de ensaio» para soluções tecnológicas ou mecânicas inéditas. Por esse motivo, quase sempre nascem a partir de carros já existentes… ou de componentes reaproveitados de modelos em produção.
Daí que, quando acabam flagradas pelas lentes de fotógrafos-espiões, pareçam ser um modelo específico, mas exibam detalhes «esquisitos» o bastante para denunciar que há algo diferente escondido sob a carroceria.
Com o passar do tempo, já apareceu de tudo um pouco. Depois de um brainstorm rápido na redação, juntamos algumas das mais interessantes. Mesmo sabendo que muitas acabam destruídas ao fim dos testes - enquanto outras viram peças de coleção -, histórias é o que não falta.
Ferrari LaFerrari
O primeiro supercarro de Maranello a receber um sistema híbrido apareceu em público pela primeira vez usando a «pele» de um Ferrari 458 Italia.
Na época, o programa do LaFerrari era identificado internamente como F150, e um de seus protótipos, o “M6”, era justamente este Ferrari 458 preto. Foi essa «mula de testes» que serviu de base para validar o conjunto híbrido do futuro LaFerrari.
Por isso, a maior diferença estava no cofre do motor: no lugar do V8 do 458 Italia, a estrutura foi amplamente retrabalhada para acomodar o V12 maior, junto do sistema híbrido, da bateria e de toda a fiação necessária.
A enorme tomada de ar no teto deixa clara a demanda por resfriamento extra. Ainda assim, a camuflagem feita para se adaptar ao 458 tentava, ao máximo, não entregar que se tratava de um projeto tão importante para a marca.
Em 2016, a Ferrari vendeu essa «mula de testes» a um cliente, que tentou colocá-la em leilão em 2022 - sem conseguir vendê-la. Veja-a em mais detalhes:
Rolls-Royce Cullinan
A tradicional marca de Goodwood levou um bom tempo até aceitar que precisava, sim, de um SUV na sua linha sofisticada. Quando decidiu seguir por esse caminho, não havia na gama nada nem remotamente semelhante que pudesse servir como «mula de testes».
Talvez por isso a escolha tenha recaído sobre o maior modelo do catálogo, o enorme Phantom. O resultado foi um Phantom encurtado - note as portas traseiras mais curtas -, mas que de discreto não tinha nada: a altura do solo era gigantesca e a asa traseira, no mínimo, curiosa.
Dali nasceria o Cullinan, que hoje é o Rolls-Royce mais vendido.
Chevrolet Corvette Stingray
A oitava geração do lendário Corvette foi a mais radical de toda a sua história. O motivo: depois de décadas de discussão, decidiu-se transferir o motor de uma posição dianteira longitudinal para uma central traseira longitudinal, instalada logo atrás dos dois ocupantes.
Não é difícil imaginar que, dentro da General Motors, não existia nada parecido que pudesse cumprir o papel de «mula de testes». A não ser que alguém atravessasse o mundo até a Austrália.
A saída não poderia ter sido mais criativa. Nesse país-ilha (que a GM acabaria abandonando), as ute - versões picape derivadas de carros de passeio - são bastante populares, especialmente quando equipadas com motores V8.
A silhueta de uma ute cairia como uma luva para virar a base do novo e revolucionário Corvette, e foi exatamente isso que a Chevrolet fez.
O protótipo ficou conhecido como “Blackjack” e tinha bitolas anormalmente largas. Levava a cabine completa de um Corvette C7 e uma «caçamba» mais alta, com um enorme spoiler traseiro, pensada para acomodar, sim, você acertou, o motor V8 em desenvolvimento para o próximo Stingray.
Jaguar XJ220
A ideia de usar uma picape para desenvolver um supercarro, como ocorreu com o Corvette, nos lembrou de outra «mula de testes». E esta é realmente épica - além de ter virado «estrela» na TV.
Em um episódio indispensável do Top Gear, uma ute da Holden se envolveu numa corrida contra uma Ford Transit de 1989, branca como manda a tradição.
Para surpresa geral, a Ford Transit deixou a potente ute para trás com enorme facilidade. A explicação é simples: essa Transit servia como «mula de teste» do supercarro Jaguar XJ220.
Não exatamente do carro inteiro, mas do seu V6 biturbo de alumínio - o mesmo usado pelo Jaguar XJR-10 na IMSA -, que, por sua vez, tinha origem no MG Metro 6R4 do antigo Grupo B do Mundial de Rali.
Havia jeito melhor de camuflar um novo motor? Difícil. Por fora, ela segue parecida com tantas outras, mas, observando com mais atenção, as rodas do XJ220 e a generosa largura dos pneus já entregam que não se trata de uma simples Ford Transit.
Land Rover Freelander
No meio dos anos 1990, a Land Rover decidiu ampliar sua base de clientes e começou a desenvolver um novo modelo de entrada: o Freelander.
Para as primeiras avaliações dinâmicas, foi preciso recorrer a uma «mula de testes», que acabou surgindo na forma da versão comercial de um Austin Maestro, como se estivesse de «calça arregaçada». Ao todo, foram produzidas 25 unidades.
Hoje, restam apenas três, já que as demais foram destruídas. Duas dessas sobreviventes fazem parte da Dunsfold Collection, no Reino Unido, criada em 1968 como uma coleção privada «simples», mas com o objetivo nobre de preservar a história da Land Rover.
Dentro desse acervo amplo de veículos originais e históricos, esses «estranhos» Austin Maestro Van com suspensão mais alta chamam atenção imediatamente.
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