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França endurece o telemarketing com a lei anti-spam de 2025: o que muda até 2026

Pessoa segurando celular com aplicativo aberto, em mesa com papel "Do Not Call", fones e caneca.

A França apertou de forma contundente as regras do telemarketing. Desde meados de 2025, a lógica passou a ser a de proibição como padrão: empresas, em regra, precisam de uma autorização explícita para ligar oferecendo publicidade. Ainda assim, fornecedores de energia, seguradoras e operadoras de telefonia continuam telefonando com frequência para clientes. O motivo está em detalhes jurídicos que, para quem recebe a chamada, quase nunca ficam claros de imediato.

Como funciona a nova legislação anti-spam francesa

A reforma aprovada em 30 de junho de 2025 inverteu por completo a lógica do telemarketing. Antes, as ligações publicitárias eram permitidas por padrão, desde que a pessoa não se opusesse. Agora a regra é outra: sem consentimento, não há ligação.

"A partir de 2026, as empresas só poderão ligar se conseguirem provar que a pessoa chamada consentiu de forma clara previamente."

Para ser válida, essa autorização precisa cumprir quatro requisitos:

  • Ser dada de forma voluntária, sem pressão, armadilhas ou artifícios escondidos.
  • A pessoa tem de entender exatamente a que está dizendo “sim”.
  • A finalidade deve ser descrita com precisão, por exemplo: publicidade de produtos de seguros por telefone.
  • Deve ser possível revogar a autorização a qualquer momento, e ela precisa estar registrada/documentada.

Até agosto de 2026, todas as empresas precisam ter esse modelo plenamente implementado - tanto para ligações feitas diretamente quanto para chamadas realizadas por call centers terceirizados. Quem não conseguir demonstrar conformidade corre o risco de multas pesadas.

A grande exceção: quem tem um contrato pode continuar recebendo ligações

O principal “porém” está numa exceção que, no dia a dia, pesa muito. O telemarketing continua permitido quando existe um contrato vigente entre a empresa e o consumidor e quando a chamada se refere exatamente a esse contrato.

"Um contrato em vigor abre a porta para ligações publicitárias 'complementares', desde que tenham ligação estreita com o produto ou serviço."

Exemplos comuns na prática:

  • Uma fornecedora de energia liga para oferecer um plano de eletricidade de fonte renovável como upgrade.
  • Uma seguradora sugere uma cobertura adicional, como ampliar o seguro residencial ou a proteção do automóvel.
  • Um provedor de internet ou uma operadora de celular promove um pacote mais rápido ou extras como TV e armazenamento em nuvem.

A justificativa é que essas ofertas melhorariam a “qualidade ou o desempenho” do contrato existente. É justamente esse trecho que explica por que, em muitas casas na França, o telefone continua tocando mesmo quando as pessoas acreditam estar totalmente protegidas.

Onde, de fato, fica a linha divisória

Essa tolerância vale apenas dentro de um corredor relativamente estreito. A proposta precisa estar claramente vinculada ao contrato em vigor. Se uma empresa de energia, de repente, tentar vender um seguro de saúde, isso já não se encaixa na finalidade do contrato original. Aí volta a valer a regra geral: proibição, salvo consentimento.

O problema é que, por telefone, o consumidor quase não consegue perceber essa diferença. Muita gente entende que qualquer ligação do “seu” fornecedor já seria automaticamente permitida. Nesse ponto, a atuação e a fiscalização das autoridades se tornam decisivas.

Direito de dizer não: o peso da oposição no cotidiano

Mesmo dentro da exceção do contrato, a oposição do consumidor é central. Quem recebe a chamada não precisa justificar nada - e também não precisa ter paciência.

"Assim que uma pessoa se opõe de forma clara por telefone, a conversa termina - e a empresa não pode mais ligar para fins publicitários."

Pontos importantes que valem na França e podem servir de orientação também a consumidores de países de língua alemã:

  • Um simples “Não quero mais receber ligações de publicidade” costuma ser suficiente.
  • A oposição não pode ser condicionada a exigências, como pedir confirmação por escrito.
  • O bloqueio numa lista interna deve ser feito imediatamente.
  • Novas ligações apesar da recusa clara podem ser consideradas ilegais e resultar em multa.

Na prática, ajuda anotar data, horário e o nome da empresa caso as chamadas se repitam. Isso facilita comprovar uma reclamação depois.

Proibições rígidas: reforma energética e adaptação de moradias

Além da reforma geral, a França impôs regras particularmente duras a alguns setores. O pano de fundo são numerosos casos de fraude envolvendo obras mal executadas e ofertas com preços abusivos.

Setor Regra desde 1º de julho de 2025
Reforma energética de edifícios Telemarketing proibido por padrão, para conter ofertas falsas e situações de pressão.
Adaptação de residências para idade ou deficiência Ligações publicitárias proibidas, para proteger pessoas idosas e vulneráveis.

Seja para instalar janelas novas, fazer isolamento térmico ou adaptar o banheiro para acessibilidade, call centers não podem mais ligar do nada oferecendo esses serviços. A única exceção: já existir um contrato, como um contrato de manutenção com uma empresa de obras confiável. Nesse caso, conversas diretamente ligadas ao contrato continuam permitidas.

Nessas áreas, as autoridades apostam em efeito dissuasório. Infrações podem ser enquadradas como “aproveitamento de uma situação de fragilidade”, o que justifica penalidades maiores. O recado para equipes agressivas de venda é direto: com públicos sensíveis, o modelo de negócio por telefone encontra um limite.

Por que, apesar disso, o telefone continua tocando

A reforma funciona como uma transição em etapas: o princípio já está definido, mas a implantação total só se consolida até 2026. Nesse intervalo, convive-se com uma mistura de regras novas e antigas, o que aumenta a confusão.

"O cerco está se fechando, mas as últimas brechas jurídicas seguem abertas por enquanto - sobretudo quando já existem contratos."

Além disso, muitas empresas aproveitam o período restante para “blindar” seus bancos de dados. Quem se cadastra em algum serviço ou cria uma conta de cliente hoje encontra com frequência novos campos de consentimento para contato telefônico no texto miúdo. Nem todo mundo lê esses trechos com atenção.

Algumas companhias também testam os limites. Elas se apoiam em cláusulas amplas, como “informações sobre seus contratos e ofertas adequadas”. Se isso vai se sustentar em tribunal, ainda é incerto - até lá, os telefones continuam tocando.

O que consumidores na Alemanha, Áustria e Suíça podem aprender

Embora as regras descritas sejam específicas da França, elas apontam para um movimento que tende a influenciar todo o mercado europeu. As normas de proteção de dados da UE fortalecem, em diversos lugares, a lógica do chamado “opt-in”, isto é, o consentimento prévio.

Quem mora na Alemanha, na Áustria ou na Suíça e quer reduzir ligações publicitárias pode levar algumas lições francesas em conta:

  • Não dar consentimento apenas para “andar mais rápido” - sobretudo em cadastros online.
  • Ao fechar um contrato, observar com intenção as caixinhas de telefone e desmarcá-las se não houver interesse.
  • Em qualquer chamada indesejada, recusar de forma clara e direta.
  • Denunciar violações aos órgãos de fiscalização, em vez de simplesmente aceitar.

Um cenário realista: alguém fecha um contrato de energia pela internet e, sem perceber, deixa marcada a opção de consentimento para ligações publicitárias. Nos meses seguintes, aparecem “telefonemas de serviço” que supostamente só informam, mas na prática tentam vender upgrades. Quem entende esse mecanismo identifica mais rápido onde está a armadilha - e consegue reagir.

Zonas cinzentas, riscos e como o mercado pode mudar

O telemarketing continua sendo um terreno com muitas áreas cinzentas. Há empresas que mascaram chamadas como “informação ao cliente” ou “checagem de serviço”, embora, no fim, o objetivo seja vender algo. Isso cria tensão entre atendimento legítimo e pressão indevida.

Para o consumidor, surgem vários riscos:

  • Contratos são prorrogados ou ampliados no impulso, por telefone, sem que todos os custos fiquem nítidos.
  • Pessoas idosas ou sob estresse aceitam propostas sem compreender as consequências.
  • Autorizações concedidas uma vez permanecem por anos em bases de dados e alimentam uma enxurrada de ligações.

Por outro lado, um telemarketing bem regulado também pode trazer benefícios: quem realmente procura tarifas melhores ou ajustes úteis no contrato às vezes recebe ofertas que são difíceis de encontrar online. O ponto-chave é uma gestão justa de consentimento e de oposição.

No longo prazo, regras como as da França tendem a deslocar o mercado. Modelos agressivos de call center perdem atratividade, enquanto empresas passam a investir mais em apps próprios, portais do cliente e comunicação por e-mail. As ligações devem ficar mais raras - e, idealmente, mais relevantes - se os consumidores aplicarem com consistência seu direito de dizer não.


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