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A SAHA EXPO 2026 chegou ao fim na última sexta-feira, em Istambul, com um saldo considerado positivo. Ao longo de cinco dias, as principais empresas da indústria de defesa turca exibiram soluções que cobrem praticamente todo o espectro do combate contemporâneo: caças não tripulados para operação embarcada, drones furtivos voltados à penetração, munições vagantes com guiagem autônoma sem GPS, robôs navais de superfície, plataformas de guerra eletrônica e arquiteturas de defesa antidrone em camadas. Um conjunto desse porte, que em outros setores poderia ter levado décadas para amadurecer, foi concentrado pela Turquia em menos de dez anos de investimento contínuo em autonomia tecnológica. Por isso, a SAHA 2026 acabou se consolidando como a vitrine mais abrangente desse percurso até agora.
Bayraktar Kızılelma: o caça não tripulado que operará a partir de porta-aviões
Entre os destaques mais aguardados do evento esteve o Bayraktar Kızılelma, tratado como o projeto mais ambicioso da Baykar. O sistema é o primeiro caça não tripulado de decolagem e pouso curto (STOL) desenhado especificamente para operar a partir do porta-aviões leve TCG Anadolu, da Marinha turca. Ao contrário das aeronaves que deram projeção internacional à empresa - TB2 e Akıncı -, o Kızılelma nasceu com foco no ambiente naval e nas exigências associadas: robustez estrutural para lançamentos e catapultagens, controle de velocidades de aproximação no pouso em convoo e soluções de guiagem adequadas a operações embarcadas sob intensa interferência eletromagnética. A plataforma já concluiu suas primeiras operações em convoo e foi mostrada no exercício Steadfast Dart 26 da OTAN antes de aparecer em Istambul. O motor empregado é o AI-322F, da Motor Sich, com pós-combustão, o que lhe confere capacidade supersônica - algo inédito entre plataformas não tripuladas produzidas na Turquia. A confirmação de uma venda para a Indonésia durante a feira - o primeiro contrato de exportação do sistema - também adiciona peso comercial ao programa e reforça a mensagem estratégica da Baykar: a empresa passou a ir além de drones convencionais de reconhecimento e ataque, avançando para plataformas de combate aéreo de quarta geração sem piloto.
ANKA III: o salto furtivo da TAI
A Turkish Aerospace Industries (TAI) levou à SAHA 2026 o ANKA III, que simboliza a mudança mais expressiva da companhia desde os drones tradicionais de vigilância e ataque - como o ANKA-S, já em serviço nas Forças Armadas turcas e exportado para diversos países - rumo a uma plataforma furtiva de asa voadora. O foco são missões que, até aqui, costumavam ser associadas a caças tripulados especializados: penetração em espaço aéreo saturado, ataque em profundidade e supressão das defesas aéreas inimigas (SEAD). Com geometria de baixa observabilidade, o ANKA III reduz de forma significativa a seção radar quando comparado a qualquer outro drone do inventário turco; ao mesmo tempo, sua capacidade de carga útil permite levar armamentos mais pesados do que o TB2 ou o Akıncı em configurações de ataque. A TAI apresenta o ANKA III como peça complementar ao Akıncı no teatro de operações: enquanto o Akıncı é destinado a cenários de baixa ou média ameaça, com grande autonomia e boa capacidade de carga, o ANKA III é pensado para entrar nos ambientes mais exigentes com assinatura radar reduzida. O sistema está em etapas avançadas de desenvolvimento e testes, e a integração à ordem de batalha das Forças Armadas turcas é prevista para o médio prazo.
Mızrak: a aposta da Baykar em munições vagantes de longo alcance
Outra estreia que gerou forte repercussão na SAHA 2026 foi o Mızrak - “lança” em turco -, a nova munição vagante inteligente e autônoma da Baykar. Com mais de 1.000 quilômetros de alcance operacional e autonomia superior a sete horas, o Mızrak passa a disputar o nicho de munições vagantes de longo alcance onde, até aqui, se destacavam o Shahed-136 iraniano e o Harop israelense. O produto foi mostrado em duas configurações: uma variante de ataque pesado, com duas ogivas gêmeas de 40 quilogramas, e uma versão de precisão, com ogiva única de 20 quilogramas equipada com buscador de radiofrequência. As duas opções utilizam a mesma célula, com envergadura de 4 metros, peso máximo de decolagem de 200 quilogramas e câmeras eletro-ópticas e infravermelhas intercambiáveis de produção própria.
O aspecto técnico mais relevante do Mızrak está na navegação. Seu piloto automático, reforçado por inteligência artificial, funciona de modo totalmente independente do GPS, recorrendo a guiagem óptica e posicionamento visual autônomo para localizar e atacar alvos mesmo sob intensa interferência eletrônica. Essa característica o coloca como uma resposta direta aos sistemas de guerra eletrônica que, nos teatros da Ucrânia e do Oriente Médio, provaram ser eficazes contra munições dependentes de sinal satelital. Além disso, o Mızrak incorpora um enlace de dados compatível com TB2, TB3 e Akıncı, permitindo que opere como um nó dentro da arquitetura de combate já existente da Baykar.
ASELSAN e o Steel Dome: guerra eletrônica e sistemas antidrone em camadas
Na SAHA 2026, a ASELSAN se destacou como a empresa com o maior leque de novidades. O fio condutor foi a ampliação do “Steel Dome”, a arquitetura de defesa aérea em camadas que a companhia vem desenvolvendo para as Forças Armadas turcas e que, nesta edição, passou a incluir dois módulos considerados críticos: sistemas de guerra eletrônica voltados à detecção, classificação e bloqueio de sinais de drones adversários, e plataformas de neutralização ativa para engajamento cinético e não cinético de ameaças aéreas de baixa e muito baixa altitude. Trata-se de uma abordagem diretamente conectada ao cenário operacional evidenciado pelos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, onde drones comerciais e militares de baixo custo mostraram capacidade de saturar defesas tradicionais.
Nesse conjunto, Korkut e Gürz aparecem como os elementos mais visíveis. O Korkut emprega um canhão antiaéreo de 35 mm, de alta cadência, em uma plataforma autopropulsada com radar de rastreamento integrado. Já o Gürz é direcionado à interceptação de drones menores, combinando energia dirigida e munição de proximidade, cobrindo justamente o segmento em que o canhão convencional tende a ter dificuldade para atingir alvos com eficiência, sobretudo em termos de custo por interceptação. Ambos já estão em produção para as Forças Armadas turcas e foram exibidos na SAHA 2026 com foco também na exportação.
TUFAN e Kılıç: o domínio naval autônomo da ASELSAN
A terceira vertente apresentada pela ASELSAN no evento foi a naval. TUFAN e Kılıç são veículos de superfície não tripulados (USV) concebidos para levar a doutrina de sistemas autônomos ao ambiente marítimo. O TUFAN é descrito como a plataforma de ataque: um USV de médio porte com armas e sensores destinados a missões de interdição naval, patrulha ofensiva e ataque a alvos de superfície. Já o Kılıç desempenha tarefas de reconhecimento e vigilância marítima, atuando como um sensor avançado em rede com outras plataformas da arquitetura naval turca. Os dois sistemas podem operar de forma autônoma ou sob controle remoto e foram projetados para missões em enxame, elevando o grau de complexidade tática para qualquer defesa perimetral naval convencional.
STM e os sistemas autônomos de nova geração
A STM completou o panorama com uma mostra voltada a sistemas autônomos terrestres e aéreos de nova geração. O Kuzgun foi apresentado como uma munição vagante de longo alcance com guiagem por inteligência artificial, preparada para atuar em cenários de negação de GPS e compatível com lançamento tanto por plataformas terrestres quanto aéreas. Em contraste com o Mızrak da Baykar, o Kuzgun é pensado para um emprego mais tático: menor alcance, porém maior flexibilidade de integração à ordem de batalha de unidades de infantaria e forças especiais. Já o YAKTU-KUSV é um veículo de superfície não tripulado menor do que o TUFAN, voltado para operações litorâneas, fluviais e em águas interiores, onde manobrabilidade e perfil reduzido pesam mais do que capacidade de carga. Em conjunto, Kuzgun e YAKTU-KUSV traduzem a estratégia da STM de apostar em sistemas de nicho com alta integração a redes táticas, em vez de plataformas maiores com ciclos longos de desenvolvimento.
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