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Francesca Bria: soberania digital, guerra tecnológica e defesa da democracia na Europa

Mulher interage com hologramas de prédios futuristas em área externa com laptop e pasta na mesa.

Francesca Bria, professora na University College London (UCL), hoje se dedica a temas como soberania digital, guerra tecnológica e defesa da democracia - mas a sua trajetória começou bem antes de a inteligência artificial transformar esse debate em urgência geopolítica. Economista da inovação e uma das vozes mais influentes na discussão europeia sobre política digital, ela investigou desde cedo os direitos dos cidadãos no ambiente tecnológico. Mais tarde, levou essas preocupações para a gestão pública em Barcelona e, depois, para o debate europeu sobre dados, regulação e capacidade industrial.

Francesca Bria, soberania digital e a virada em Barcelona

Foi em Barcelona, conta em entrevista ao Expresso, que Bria enxergou com mais nitidez o alcance político da tecnologia. Naquele período, buscou afirmar a “soberania tecnológica” como caminho para devolver aos cidadãos o controle dos dados e das infraestruturas digitais, justamente quando as big techs começavam a expandir o poder para muito além da internet. “Precisamos de controlo democrático da tecnologia se quisermos alinhar a mudança tecnológica com os nossos valores democráticos”, afiança, lembrando que “o digital é, de facto, político”.

“Não se pode regular aquilo que não se possui e não se pode defender aquilo que não se controla”, avisa a economista

Antes dessa experiência, ela já participava de iniciativas europeias sobre “democracia digital participativa e soberania dos dados”, que depois ajudariam a influenciar a estratégia tecnológica de Barcelona. Bria relembra que essas propostas deixaram de ser apenas “projetos de investigação” para se tornarem uma “estratégia oficial da cidade”, apoiada na ideia de “reclamar os direitos digitais como direitos fundamentais” dos cidadãos. Mais adiante, já no plano europeu, acompanhou de perto o fortalecimento da regulação digital - percurso que consolidou uma conclusão hoje central no seu discurso: “não se pode regular aquilo que não se possui e não se pode defender aquilo que não se controla”.

De Barcelona ao debate europeu: regulação e limites

Para a especialista - que também atua como conselheira da Comissão Europeia - a situação piorou porque Bruxelas se firmou sobretudo como reguladora justamente quando a tecnologia deixou de ser apenas “mais um mercado”. A União Europeia criou “o famoso GDPR, agora o AI Act, o DSA, o DMA”, enumera, mas acabou reconhecendo que isso não era suficiente numa fase em que as tecnologias digitais “são usadas como instrumento de guerra” e em que tanto os Estados Unidos quanto a China as tratam como “alavanca geopolítica”, tema de “segurança nacional” e fonte de poder econômico.

“A Europa é uma convidada. A Europa é um peão entre dois impérios digitais”, afirma

EuroStack e a cadeia tecnológica europeia

É nesse contexto que Bria destaca a importância do EuroStack: uma visão integrada da cadeia tecnológica europeia, que abranja matérias-primas críticas e semicondutores, mas também nuvem, modelos de inteligência artificial (IA) e dados. Ela lembra que “não foi assim há tanto tempo que tínhamos marcas como a Nokia a dominar o mercado” e empresas como Siemens ou Philips com peso global. O ponto, afirma, é que a Europa “perdeu competitividade” e “terreno tecnológico” para Estados Unidos e China - e acabou deixando de lado o fato de que ainda tem “capacidade não apenas para regular empresas tecnológicas, mas também para construir a sua própria tecnologia soberana”.

Guerra tecnológica e defesa da democracia na Europa

Esse movimento, defende, tornou-se urgente porque a Europa depende do exterior em 80% das tecnologias digitais críticas, o que coloca o continente em situação vulnerável diante de outras potências. “A Europa é uma convidada. A Europa é um peão entre dois impérios digitais”, diz, acrescentando que o risco real é o velho continente se tornar periférico numa nova ordem tecnológica global.

"Sem uma Europa independente, assente em infraestruturas digitais próprias, não será possível defender a democracia, o que significa não conseguir defender a democracia liberal, os direitos fundamentais dos cidadãos e o modelo social europeu", sublinha

Por isso, ela se opõe a tratar soberania digital como um debate apenas econômico ou industrial. Para Francesca Bria, o que está em jogo é mais grave: “Há uma guerra contra a democracia. Isto é inegável”. Sem uma Europa “independente” e com capacidade de manter infraestruturas digitais próprias, alerta, não será possível proteger a democracia liberal, os direitos fundamentais e o modelo social europeu.

E a normalidade voltará quando Donald Trump deixar a Casa Branca? A economista avalia que o desafio não se limita à atual administração norte-americana e que a ruptura é mais estrutural. A era da hiperglobalização terminou e deu lugar a uma nova ordem marcada por guerras comerciais, controles de exportação, rivalidade tecnológica e disputa sobre quem domina os pontos críticos da cadeia digital. “Se se está demasiado dependente de outros poderes, não se consegue definir uma agenda de futuro. Está-se sempre a defender”, aponta.

Ainda assim, Bria rejeita o fatalismo. Mantém-se como europeísta convicta e defende que, neste momento, é necessário unir o continente em torno de um projeto comum - mais coerente por dentro e por fora - que envolva cidadãos, trabalhadores e comunidades na definição do modelo econômico e tecnológico europeu.

É essa visão que ela levará a Lisboa, ao Digital Business Congress 2026 da APDC (Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações), no próximo dia 7 de maio, quando participa de uma talk da Axians à qual o Expresso se associa como parceiro de mídia. O desafio, insiste, é grande e tem caráter geracional: garantir que as infraestruturas críticas do Estado digital permaneçam “em mãos europeias”.

Talk | Time for Europe

O que é

A talk “Time for Europe: Digital Sovereignty and Value Creation” faz parte do Digital Business Congress 2026, da APDC, que neste ano está centrado em temas ligados a soberania, segurança e inovação. A sessão reúne Francesca Bria e Pedro Faustino, diretor-geral da Axians, para uma conversa sobre independência digital, criação de valor e o lugar da Europa num cenário de rivalidade tecnológica e geopolítica em crescimento.

Por que este evento é importante?

Num momento em que a Europa tenta reduzir a dependência tecnológica externa, a discussão sobre soberania, segurança e inovação ganhou protagonismo. Esta talk coloca no centro pontos como a capacidade europeia de desenvolver infraestruturas próprias, gerar valor econômico a partir da tecnologia e proteger um modelo baseado em democracia, autonomia estratégica e competitividade.

Quando, onde e a que horas?

A sessão acontece no dia 7 de maio, às 09h30, no Fórum Tecnológico de Lisboa (Lispolis).

Quem são os oradores em destaque?

  • Francesca Bria, economista da inovação, professora da UCL e conselheira da ONU e da União Europeia;
  • Pedro Faustino, diretor-geral da Axians Portugal.

Como posso assistir?

O evento terá formato híbrido, com participação presencial e também via streaming.

Este projeto conta com apoio de patrocinadores, e todo o conteúdo é criado, editado e produzido pelo Expresso (ver Código de Conduta), sem interferência externa.

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