Bastou Zhu Jiangming - fundador e CEO da Leapmotor - cruzar com um Renault Twizzy durante uma viagem a Valência para passar da fabricação de câmeras de segurança para a criação de carros. Esse instante acabou servindo de gatilho para o nascimento de uma das marcas chinesas com perspectivas mais promissoras, algo que ficou evidente nesta entrevista feita durante o Salão de Pequim.
No ano passado, a Leapmotor viu suas vendas globais mais do que dobrarem, com avanço de 103% (praticamente 600 mil veículos). Para este ano, a ambição continua alta: a meta é emplacar um milhão de automóveis. Jiangming acredita que a maior fatia virá do mercado interno, mas a Europa também entra nas contas, com a empresa mirando uma expansão de 15%.
“Mesmo com um início de ano relativamente ‘lento’, em que matriculámos apenas 110 mil veículos no primeiro trimestre (NDR: o mercado chinês tem estado em queda desde o início do ano), os nossos objetivos mantêm-se. Naturalmente, a maior contribuição será dada pelo mercado doméstico”, disse.
Produção na Europa e a parceria Stellantis
Você vai mudar o foco para produzir localmente na Europa ou seguirá vendendo, em sua maioria, carros para europeus feitos na China?
Zhu Jiangming: Para nós, produzir na China faz muito sentido, porque temos um domínio muito forte da cadeia de valor: controlamos 65% da cadeia de valor de cada veículo que fabricamos. Qualquer decisão será sempre tomada com base na melhor eficiência financeira possível.
Estamos vendo as marcas chinesas ampliarem sua presença industrial, especialmente na Europa, mas não apenas lá. Uma parte desse movimento é aproveitar fábricas europeias com capacidade instalada subutilizada, como acontece com a unidade da Stellantis na Espanha. Esse modelo tende a se tornar mais comum daqui para a frente?
ZJ: A Stellantis tem fábricas de automóveis em mais de 30 países. Sempre que essa alternativa fizer sentido para os dois lados, é algo a ser considerado seriamente - na Europa e também fora dela, como na Malásia ou na América do Sul.
A produção na Espanha será em CKD - isto é, montagem de módulos pré-fabricados na China? E quais modelos vão sair de Saragoça?
ZJ: Não será CKD. Para conseguirmos contornar as tarifas europeias e para que os clientes possam acessar os incentivos de compra de elétricos, os veículos precisam ter 70% de conteúdo local; por isso, a produção será completa, como ocorre na maioria das fábricas. Esse é o nosso objetivo. Vamos entregar os primeiros veículos antes do fim de 2026, começando pelo SUV B10.
As marcas chinesas chegaram à Europa com um argumento central: preço. Isso vai mudar?
ZJ: À medida que a tecnologia chinesa ganhar reputação e conquistar mais clientes, é natural que esse fator perca parte do peso que ainda tem hoje. É um caminho semelhante ao que vimos no mercado de celulares.
Algumas marcas chinesas fracassaram ao tentar se internacionalizar. Por que com a Leapmotor seria diferente?
ZJ: Estudamos com bastante cuidado os mercados internacionais e, com o apoio da Stellantis, desenhamos os modelos para serem competitivos globalmente. A parceria também nos ajuda muito em marketing, distribuição e na parte financeira.
Controle da cadeia de valor
As marcas chinesas serão, algum dia, sinônimo de inovação e competência tecnológica na era elétrica, como as marcas alemãs foram referência por décadas na era dos motores a combustão?
ZJ: Eu acho que isso já é verdade hoje em áreas como produção de células de baterias, motores elétricos e plataformas dedicadas. Mas não dá para prever como será a evolução daqui em diante. É um setor extremamente competitivo e que muda o tempo todo.
Você pode citar exemplos concretos do investimento de vocês no controle da cadeia de valor?
ZJ: A Leapenergy é a nossa empresa voltada à produção de baterias de alta potência e de sistemas de armazenamento de energia. Ela tem um centro de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) em Hangzhou e três grandes unidades de fabricação, em Huzhou, Jinhua e Wuyi. Só em Huzhou, existem seis linhas de produção com capacidade para 380 mil baterias por ano, expansível para 760 mil unidades.
Em Wuyi, temos a primeira fábrica de baterias superintegrada do mundo, com fabricação interna de todos os principais componentes: célula, caixa, placa de resfriamento líquido e CCS (Sistema de Contato de Células). Nos arredores de Xangai, também em Huzhou, fica a LeapPower, onde produzimos motores elétricos, controladores de motor, estatores e rotores.
Condução autônoma
O domínio das tecnologias de assistência ao motorista será o próximo grande campo de batalha da indústria?
ZJ: Na China, já é comum ver carros circulando com os faróis dianteiros em um tom azulado, o que indica que o veículo está sendo conduzido majoritariamente de forma autônoma. Hoje, cerca de 1/3 dos consumidores chineses usa esses recursos no dia a dia e, no futuro, acredito que só veremos carros com “olhos azuis” nas estradas. Já temos uma posição vantajosa, e as marcas internacionais estão reconhecendo essa competência ao adotar o nosso software e hardware.
O futuro
Analistas preveem uma consolidação no número de fabricantes chineses, embora em um ritmo mais lento do que o esperado. Que volume de produção a Leapmotor precisa atingir para garantir o próprio futuro?
ZJ : Quando observamos o Top 10 dos fabricantes globais, o patamar de entrada fica em 3,5 milhões de carros por ano. Para sermos uma empresa bem-sucedida e com futuro garantido, precisamos estar nesse grupo - talvez até entre as primeiras sete ou oito posições -, o que exige um volume anual na ordem de quatro milhões.
Hoje existem cerca de 17 grandes grupos fabricantes na China. Mais adiante, acredito que haverá cinco ou seis fabricantes chineses no Top 10 global e, nesse cenário, estaríamos falando de 50% a 80% de todos os automóveis produzidos e vendidos no mundo.
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