A imagem dos mecânicos raramente é positiva. É uma área em que a má fama de alguns poucos profissionais - que são minoria - acaba, de forma injusta, falando mais alto do que o empenho, a seriedade e a dedicação da maioria.
Eu não sou mecânico - já tentei, inclusive, e cheguei a explicar as razões em um texto da Razão Automóvel -, mas tenho uma admiração enorme por quem vive disso. Recentemente, acompanhei uma visita a uma oficina com o MINI do Diogo Teixeira, que precisava fazer a revisão, e essa admiração só aumentou.
Há coisas que é preciso ver para acreditar
Exemplos não faltam, mas este, em especial, é daqueles que resumem bem a situação. No meio de vários modelos da BMW e da MINI, havia um que estava imobilizado por um motivo ridiculamente simples: algum conector (não sei dizer exatamente qual) ali perto do câmbio.
O quebra-cabeça que só os mecânicos encaram
O problema parecia pequeno, mas a correção era tudo menos simples. Para chegar ao ponto certo, foi necessário remover bancos, console e uma sequência interminável de peças menores - sempre com a companhia de parafusos e molas de todo tipo e tamanho - até finalmente encontrar a origem do defeito.
Pense em um quebra-cabeça complicado, sem manual, com parafusos escondidos em lugares difíceis e dezenas de cantos e frestas que parecem ter sido desenhados para prender dedos. Agora imagine ter que montar tudo de joelhos, sem apoio decente, com as costas curvadas e o pescoço torto. É exatamente disso que estamos falando.
Mecânico. Uma profissão complexa
Assistindo a tudo aquilo acontecer na minha frente, acabei soltando um comentário, meio no impulso: “Isso não está nada fácil, pois não?”. O mecânico - cuja identidade não vou revelar - respondeu:
“Agora como é que explico ao cliente as horas que passei de volta disto por causa desta peça? Não vou poder debitar as horas todas”.
Quando o esforço não aparece na conta
Ficou claro para mim que uma parte considerável das horas de trabalho que eu vi ali - em posição ruim e com grande risco de danificar outros componentes (rasgar um banco ou quebrar um plástico) - não seria paga. Em muitos casos, simplesmente não é fácil justificar o tempo gasto para resolver algo que, por fora, parece “bobo”.
Quero acreditar - e acredito! - que existem mais situações em que o mecânico sai prejudicado para manter o cliente satisfeito do que o contrário. Ser mecânico é uma profissão difícil, complexa e, sobretudo, incompreendida.
Incompreendida por clientes, que quase sempre já chegam esperando o pior. E incompreendida também por engenheiros que projetam os carros - às vezes parece que colocam certas peças em locais de acesso impossível só para piorar o dia de quem vai precisar mexer nelas.
As armadilhas do dia a dia na oficina
E ainda há outras “pegadinhas” no meio do caminho: peças que não existem em estoque, surpresas que aparecem durante o serviço e problemas que empurram a entrega para frente. Algo que, como me disseram, por azar acontece justamente no carro do cliente que quer tudo para ontem. Talvez seja o karma…
Ainda assim, é uma profissão bonita. Resolver um defeito pode trazer uma satisfação enorme. Exige tranquilidade, entrega e experiência. Não existe rotina: nenhum dia é igual ao outro, e é preciso raciocínio para atravessar cada desafio.
Por isso, este texto termina como começou: mais respeito pelos mecânicos. Eles merecem - e os nossos carros também.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário