Na última sexta-feira, 9 de fevereiro, eu fui a uma festa de aniversário - só que não era de alguém, e sim de um carro: o SEAT Ibiza. Recebi o convite para participar das comemorações dos 40 anos desse modelo da SEAT.
O encontro aconteceu na fábrica de Martorell, uma espécie de “berço” da SEAT e também o lugar de onde, ao longo das últimas décadas, saíram mais de seis milhões de unidades do Ibiza. E, quando eu digo festa, foi festa mesmo.
A programação era intensa: acordar às 4h30 “da matina”, pegar um voo para Barcelona, dirigir as cinco gerações do Ibiza pelas ruas de Montjuic, fazer uma visita guiada ao museu já-não-tão-secreto-como-antigamente da SEAT - obrigado Guilherme!… - e voltar a Portugal antes de o relógio bater as 12 badaladas.
Questões geracionais à parte, agora percebo o encanto dos carros clássicos.
No fim, deu tudo certo - ainda que eu não tenha conseguido dirigir todas as gerações. Mas, pelo menos, fui ao volante daquela que eu mais queria. Não é difícil adivinhar qual é, né?
O “quarentão charmoso”
Das três gerações que eu dirigi - primeira (Tipo 021), terceira (6L) e quarta (6J) - a que mais mexeu comigo foi a primeira. Além de ser a “primogênita” da linhagem Ibiza, ela caiu nas minhas mãos praticamente como nova e com pouquíssimos quilômetros. No fim da tarde, já estava alguns quilômetros mais “pesada”.
Eu confesso: no começo, bateu uma certa intimidação. Vieram à cabeça as histórias do meu pai, da época em que os carros tinham de “puxar o ar” e “compensar o acelerador” nas arrancadas. Por alguns instantes, cheguei a achar que eu não ia nem conseguir passar pelos portões da fábrica…
Também senti minha (ainda recente) trajetória no jornalismo automotivo ser colocada à prova. Uma coisa é falar sobre clássicos - e eu tenho um carinho especial pela história do Ibiza - outra bem diferente é dirigir um.
Eu nasci em 2001, então dá para imaginar: foi a primeira vez que conduzi um carro sem direção assistida. E, por mais estranho que pareça, foi muito mais tranquilo do que eu esperava. Mesmo sem ar-condicionado e sem outras comodidades das quais hoje a gente não abre mão, o primeiro Ibiza é menos “arcaico” do que eu imaginava.
Com desenho de Giorgetto Giugiaro (considerado o maior designer automotivo do século passado), “mobilado” pela Karman e com uma motorização cujo desenvolvimento teve ajuda da Porsche, o primeiro Ibiza surpreende ao volante: ele se comporta estranhamente bem. É ágil até…
A única pena é o ponto de embreagem “sensível” e os “abrandadores” no lugar de freios - sim, eu sei que estou mal-acostumada. Foi o mais perto que eu cheguei de “vivenciar” o século passado, e eu adorei. Palavra de Gen Z!
Potência para ir aonde a gente quiser ele tem; o que pede atenção é essa “falta de freios”, que, somada à ausência de airbags, pode complicar. Eu gostei, sem dúvida - mas também agradeci por ter nascido no século XXI.
Gerações seguintes
Curiosamente, depois de dirigir a primeira geração eu pulei direto para a quarta (6J) - e me senti nas nuvens. Para contextualizar: apesar de mais nova, a quarta geração do Ibiza já não é exatamente recente, já que foi produzida entre 2008 e 2017. Parece que foi ontem, mas já se passaram 16 anos desde o lançamento.
Trocar de um modelo para outro foi… revigorante. De repente, a rua parou de ter buracos; dar a seta virou só empurrar a haste para cima ou para baixo; e frear… bem… é bom demais quando você quer frear e o carro realmente freia.
Não me entendam mal: eu repetiria essa experiência quantas vezes fosse preciso e, se me dessem um SEAT Ibiza de 1984, eu provavelmente beijava o chão (provavelmente não beijava). Ainda assim, dirigir um carro com airbag, controle eletrônico de estabilidade, Hill Hold Control e, acima de tudo, ar-condicionado… muda vidas. Eu sei disso porque normalmente ando de transporte público…
Vocês devem estar pensando: no meio dessa história toda, onde entra a terceira geração (6L)? Bem… exatamente no meio. Como era de esperar. Se da primeira para a quarta a diferença é enorme, a 6J (2001-2009) “não é carne nem peixe”: fica num misto das duas.
Mesmo com semelhanças tecnológicas - não falta nada do que é essencial - dá para perceber como a indústria automotiva evoluiu do começo do milênio até o fim da primeira década.
Questões de geração à parte, eu finalmente entendo o encanto de clássicos como o primeiro SEAT Ibiza. Existe algo muito cativante na simplicidade dos carros antigos, algo que eu ainda não consigo explicar direito. Eu nem tive tempo de digerir tudo o que vivi.
Uma coisa, porém, ficou clara: todo mundo deveria dirigir um clássico ao menos uma vez na vida. A minha geração, que nunca “abriu um ar” ou “afogou um carro” - obrigado aos responsáveis da SEAT por toda a ajuda - teria muito a aprender com esse tipo de experiência.
Em um momento em que ninguém estava “conectado”, foi o automóvel que aproximou a gente. Eu tenho cada vez menos dúvidas de que o carro teve, tem e vai ter um papel importantíssimo no futuro da mobilidade. Mais uma vez, palavra de Gen Z.
O (não tão secreto) museu da SEAT
Claro que eu não podia encerrar o texto sem citar, pelo menos mais uma vez, a visita guiada ao museu da SEAT. Houve uma época em que a marca divulgava pouco esse espaço - o Guilherme fez uma excelente reportagem, há cinco anos, sobre esse lugar.
Mas parece que, conforme o tempo passa, o orgulho pelo passado vai crescendo, não é? Meus vinte e poucos anos já foram suficientes para eu perceber isso.
Hoje, o acervo reúne 170 carros, dos quais 90% estão em funcionamento. É nesse “olimpo” que a SEAT guarda algumas das suas relíquias: do papamóvel, usado apenas duas vezes em 1982, passando por modelos de competição e chegando até os mais recentes carros da marca.
Além desses, também ficam “guardados” protótipos que nunca chegaram a ver a “luz do dia”, como o SEAT Ibiza Cabrio - infelizmente, não me deram a chance de experimentar esse. Com chuva, em Montjuic, teria rendido, no mínimo, uma filmagem linda.
Eu entrei no avião de volta a Portugal cheia de lembranças e com alguns sentimentos misturados. Comemorar os 40 anos do Ibiza sem ter certeza de que a festa vai continuar numa 6ª geração é estranho. Há marcas que são muito mais do que isso - e até alguém jovem como eu entende.
Com isso, só me resta dizer: Parabéns, SEAT Ibiza!
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