Os leopardos do Cabo, na África do Sul, parecem estar sob pressão. Eles são pequenos - com cerca de metade da massa corporal de outros leopardos africanos - e hoje restam menos de 1.000 indivíduos.
Durante anos, a explicação mais aceita apontava para isolamento, endogamia e uma queda genética lenta e inevitável. Só que o DNA, na prática, conta outra história.
Um estudo recente analisou o genoma completo desses felinos e chegou a conclusões bem diferentes do que se imaginava.
Metade do tamanho habitual
Na Região Florística do Cabo, o canto sudoeste da África do Sul conhecido pela altíssima biodiversidade, os leopardos tendem a ser mais leves e esguios do que os parentes que vivem mais ao norte.
Em média, fêmeas de leopardo do Cabo pesam cerca de 21 kg (47 libras), enquanto os machos ficam por volta de 31 kg (68 libras).
Já na savana, machos adultos frequentemente passam de 45 kg (100 libras), alguns chegando a 59 kg (130 libras), e as fêmeas podem ultrapassar 36 kg (80 libras).
Esses gatos do Cabo também costumam usar áreas de vida maiores, porque, no ambiente montanhoso e acidentado onde vivem, a disponibilidade de presas é menor.
A pesquisa foi co-liderada por Laura Tensen, bióloga evolutiva da Universidade de Greifswald, na Alemanha.
Essa diferença de tamanho é conhecida há décadas. Parte dos cientistas atribuiu o padrão à endogamia; outros sugeriram que seria apenas o resultado aleatório da perda gradual de variação genética.
Um grupo geneticamente diferenciado
Para testar essas hipóteses, o grupo de Tensen sequenciou o DNA completo de 43 leopardos de diferentes regiões da África, incluindo 10 do Cabo Ocidental e 10 da província de Mpumalanga, no norte da África do Sul.
Estudos anteriores tinham trabalhado com trechos pequenos do DNA do leopardo e, com isso, indicavam que os animais do Cabo mal se distinguiam de outros no continente.
Com o genoma inteiro em mãos, o retrato muda. Considerando toda a extensão do material genético, os leopardos do Cabo aparecem como um agrupamento próprio, claramente distinto.
Leopardos de Gana, na África Ocidental, também se destacaram como um grupo separado. As demais populações amostradas pela equipa ficaram agrupadas entre si.
No caso do Cabo, o padrão observado sugere um agrupamento à parte, com pouca evidência de cruzamentos recentes com os leopardos da savana.
Separação dos parentes da savana
Quando essa divisão aconteceu? O genoma guarda marcas temporais da história populacional em segmentos de DNA compartilhados.
Ao interpretar esses sinais, os pesquisadores estimaram que a separação ocorreu aproximadamente entre 20.000 e 24.000 anos atrás. Esse período coincide com uma fase mais fria e seca perto do fim da última era do gelo.
Naquele momento, as condições ambientais mudavam em várias áreas do sul da África. Com as presas deslocando-se, algumas populações de leopardos provavelmente ficaram isoladas das demais.
Uma análise independente, por sua vez, reconstruiu uma história mais profunda, que recua centenas de milhares de anos.
Ela sugere que leopardos do Cabo e da savana já estiveram conectados por uma distribuição mais ampla e que só se separaram quando mudanças climáticas reduziram os habitats adequados no extremo sul do continente.
Genes moldados pela escassez
O genoma não serve apenas para mapear parentesco. Ele também registra sinais de seleção natural - regiões em que mudanças vantajosas se espalharam por ajudarem a sobrevivência.
A equipa procurou essas assinaturas no DNA dos leopardos do Cabo. O rastreio encontrou cerca de 90 genes que parecem ter sido favorecidos nessa população, mas não nos parentes do norte.
Doze desses genes estão numa lista conhecida de genes ligados ao tamanho corporal, que costumam evoluir rapidamente em carnívoros de pequeno porte. Outros genes identificados estão associados ao armazenamento de gordura, ao crescimento ósseo, aos músculos e ao processamento de minerais.
Quando o conjunto é analisado em bloco, o desenho geral é compatível com uma adaptação evolutiva a ambientes com pouca comida.
No relevo montanhoso do Cabo, as presas são mais difíceis de localizar do que na savana - e corpos menores exigem menos energia e alimento.
Mais saudáveis do que se esperava
Populações pequenas e isoladas, em geral, tendem a sofrer. Elas perdem diversidade genética, acumulam mutações prejudiciais e ficam com menos margem para lidar com doenças ou alterações climáticas.
Pela maioria das previsões genéticas, os leopardos do Cabo deveriam exibir sinais claros de declínio - mas não é isso que os dados mostram.
A diversidade genética total é apenas um pouco menor do que a de outros leopardos africanos descritos num estudo anterior de abrangência continental.
Eles não carregam mais mutações nocivas do que os leopardos da savana. Na verdade, apresentam menos.
Os pesquisadores também avaliaram se a deriva genética, sozinha, poderia explicar a diferença de tamanho. Esse fator não foi suficiente, reforçando a ideia de que o porte menor é adaptativo, e não um acidente do acaso.
O que o futuro reserva
Os leopardos do Cabo sempre chamaram atenção. Com os novos resultados, o argumento é que eles devem ser tratados como uma população geneticamente distinta.
Eles reúnem adaptações que não aparecem em nenhum outro lugar dentro da espécie - um ponto crucial para estratégias de conservação.
Atualmente, restam menos de 1.000 leopardos do Cabo, vivendo na vegetação arbustiva do bioma Fynbos e nas montanhas do Cinturão de Dobras do Cabo (Cape Fold Belt). Nesse território, eles convivem com fazendas, vinhedos e populações humanas.
Levar leopardos de outras regiões para o Cabo, a fim de aumentar os números, já pareceu uma solução atraente - mas já não.
Isso poderia diluir justamente as adaptações que permitem a essa população persistir no seu habitat áspero e desafiador.
Pela primeira vez, os pesquisadores conseguem apontar trechos específicos de DNA que ajudam a explicar por que os leopardos do Cabo têm o aspecto que têm. E essa história ainda está a ser escrita.
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