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Estudo novo da UPenn sugere que Aspergillus flavus e RiPPs podem combater a leucemia, após a lenda da tumba de Tutancâmon

Homem usando jaleco branco examina cultura em placa de Petri em laboratório com microscopio e objetos variados.

A substância que muitos imaginaram estar por trás das mortes de algumas pessoas que ousaram violar a tumba de Tutancâmon talvez esconda, na verdade, um segredo promissor.

A espécie em questão, chamada Aspergillus flavus, não é uma “maldição do faraó” - mas pode acabar a ser uma aliada da medicina.

Da “maldição” ao laboratório: o fungo Aspergillus flavus

Um estudo recente, conduzido por engenheiros moleculares da Universidade da Pensilvânia (UPenn), concluiu que este fungo específico produz compostos com ação contra o câncer.

Em condições de laboratório, quando os seus produtos naturais foram combinados com células humanas de câncer de leucemia, os efeitos foram intensos. E, depois de modificados, esses produtos chegaram a atuar tão bem quanto alguns fármacos de quimioterapia.

A. flavus é encontrado no mundo todo em matéria orgânica em decomposição. Os seus esporos amarelo-esverdeados podem infetar plantações e também os pulmões de mamíferos. Em humanos, uma infeção por aspergilose pode desencadear problemas pulmonares crónicos que podem ser fatais se não houver tratamento.

Em 1973, alguns cientistas que abriram a tumba de um rei polonês acabaram por morrer antes do esperado. Um microbiologista, na época, identificou evidências de A. flavus no local, o que levou à suposição de que o fungo teria matado os investigadores.

Esse mesmo raciocínio passou a ser aplicado aos destinos curiosos de trabalhadores e de um conde que participaram da abertura da tumba do faraó egípcio Tutancâmon, no início do século XX, e que - de forma notória - morreram dias depois por doença (ou, no caso de alguns trabalhadores, anos mais tarde).

O possível papel do Aspergillus nessas mortes alimentou a imaginação popular. Porém, essa fama nos registos históricos também trouxe atenção científica moderna ao fungo.

RiPPs: peptídeos naturais e o interesse contra o câncer

Os compostos analisados pertencem a uma classe conhecida como RiPPs (peptídeos sintetizados ribossomalmente e modificados pós-traducionalmente). Eles são produzidos por diversos organismos, incluindo plantas e bactérias.

Nos últimos anos, RiPPs derivados de plantas têm demonstrado grande potencial para combater certos tipos de câncer. Já os RiPPs de fungos continuam menos estudados e podem ser confundidos com outras moléculas por causa das suas estruturas incomuns.

“Mesmo que apenas alguns tenham sido encontrados, quase todos têm forte bioatividade”, diz a autora principal e engenheira biomolecular Qiuyue Nie, da UPenn. “Esta é uma região inexplorada com um potencial tremendo.”

Asperigimicinas e leucemia: o que a equipa da UPenn encontrou

Motivados por estudos anteriores que associaram A. flavus a atividade anticâncer, Nie e colegas analisaram uma dúzia de estirpes diferentes de Aspergillus em busca de RiPPs.

Com técnicas metabólicas e genéticas, os investigadores concentraram-se em quatro compostos purificados distintos, com estruturas complexas e semelhantes entre si. A esses compostos, deram o nome de asperigimicinas.

Nos ensaios laboratoriais, duas das quatro asperigimicinas apresentaram elevada potência contra células de leucemia. No entanto, nenhuma delas teve efeito sobre células de câncer de mama, de fígado ou de pulmão.

Quando a equipa modificou um RiPP e adicionou uma molécula gordurosa (um lipídio), o composto passou a mostrar atividade anticâncer mais forte em várias linhagens celulares de leucemia e também numa linhagem de câncer de mama.

Na prática, esse RiPP alterado teve desempenho equivalente ao de dois quimioterápicos aprovados pela FDA para leucemia: citarabina e daunorrubicina.

Por que a troca por lipídio pode aumentar a ação do composto

Os autores do trabalho - ligados a diferentes instituições nos Estados Unidos e em Portugal - suspeitam que a substituição por lipídio modifique como a atividade de um gene específico permite que o fármaco infiltre melhor as células cancerígenas e permaneça nelas por mais tempo, interferindo na replicação.

“Entender que os lipídios podem influenciar a forma como esse gene transporta substâncias químicas para dentro das células dá-nos mais uma ferramenta para o desenvolvimento de medicamentos”, afirma Nie.

Quase um século depois de os fungos nos terem dado a penicilina, essas formas de vida curiosas voltam a apontar para mais um avanço em potencial.

O estudo foi publicado na revista Biologia Química da Natureza.

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