Se você anda com a sensação de que as notícias estão especialmente pesadas ultimamente, saiba que não é a única pessoa.
Ao mesmo tempo, muita gente não consegue - e nem quer - se afastar. Acompanhar o noticiário pode nos ajudar a entender o que está acontecendo e, para muitos, manter-se informado é também uma escolha ética.
A questão é: como proteger a saúde mental sem deixar de saber o que se passa? A seguir, veja formas de equilibrar a necessidade de informação com o impacto que notícias negativas podem ter no nosso bem-estar.
Por que as notícias estão me afetando tanto?
O cérebro humano tende a priorizar segurança e sobrevivência, reagindo rápido a sinais de ameaça. Quando esses mecanismos são acionados repetidamente pelo consumo de conteúdos angustiantes - como ao passar muito tempo vendo notícias ruins em sequência - o desgaste mental pode ser grande.
Imagens sem filtro ou sem censura costumam ter um efeito psicológico ainda mais intenso. Vídeos e registros explícitos de tragédias que circulam nas redes sociais podem atingir mais profundamente do que a mídia tradicional (como televisão e jornais), que costuma seguir regras e critérios mais rígidos.
Estudos indicam que consumir notícias negativas está associado a pior bem-estar e a dificuldades psicológicas, incluindo ansiedade e sensações de incerteza e insegurança. Isso também pode nos deixar mais pessimistas em relação a nós mesmos, às outras pessoas, à humanidade e à vida em geral.
Em alguns casos, a exposição frequente a conteúdo perturbador pode levar ao chamado trauma vicário. Nessa situação, mesmo sem ter vivenciado diretamente os acontecimentos traumáticos, a pessoa pode apresentar sintomas típicos de estresse pós-traumático, como lembranças intrusivas e dificuldade para dormir.
Ainda assim, isso não impede que continuemos buscando esse tipo de conteúdo. Na prática, tendemos a ler, interagir e compartilhar com mais frequência histórias de tom negativo.
Existe uma forma melhor de acompanhar as notícias?
Para algumas pessoas, “desligar” simplesmente não é viável.
Se você tem amigos ou familiares em regiões atingidas por conflitos, por exemplo, é natural que a preocupação aumente e que você acompanhe de perto para entender como eles estão.
Mesmo sem vínculos pessoais com um conflito, muita gente quer permanecer informada e compreender o que está se desenrolando. Para alguns, essa é uma decisão moral - com a expectativa de que a informação leve a ações e a mudanças positivas.
Por isso, em uma pesquisa que coassinei, sugerimos que apenas limitar a exposição a notícias negativas nem sempre é possível ou prático.
A alternativa que propomos é se relacionar com o noticiário de modo mais consciente. Em outras palavras: observar mudanças nas emoções, perceber como as notícias afetam você e reduzir o ritmo quando for necessário.
Como consumir notícias de um jeito mais consciente
Ao se preparar para acompanhar o noticiário, algumas atitudes podem ajudar.
1. Pare por um instante e faça algumas respirações profundas. Use esse momento para notar como o corpo está e para onde seus pensamentos estão indo.
2. Faça uma checagem interna. Você está tenso? Como está o seu dia? Talvez você já esteja preocupado ou emocionalmente no limite. Avalie se, agora, você tem condições de lidar com notícias negativas.
3. Reflita. O que está te levando a buscar notícias neste momento? Que informação você espera encontrar?
4. Mantenha o senso crítico. Ao ler uma matéria ou assistir a um vídeo, repare na credibilidade da fonte, no nível de detalhamento e na origem das informações.
5. Observe o impacto emocional e físico. Você percebe sinais corporais de estresse, como rigidez muscular, suor ou inquietação?
6. Dê um tempo entre uma notícia e outra. Em vez de pular imediatamente para o próximo conteúdo, permita-se processar o que acabou de ver e a forma como reagiu. Isso mudou suas emoções, seus pensamentos ou suas atitudes? Atendeu ao seu objetivo? Você ainda tem energia para continuar consumindo notícias?
Nem sempre dá para seguir todos esses passos. Ainda assim, adotar uma postura mais consciente antes, durante e depois da exposição a notícias negativas pode ajudar você a decidir melhor quando se informar - e quando é hora de fazer uma pausa.
Sinais de que as notícias estão afetando sua saúde mental
Quando estamos emocionalmente sobrecarregados, é mais provável reagir de forma automática e guiada pela emoção ao que lemos ou assistimos.
Alguns sinais de que o consumo de notícias negativas pode estar prejudicando sua saúde mental incluem:
- engajamento compulsivo, com a sensação de que você não consegue parar de checar ou acompanhar notícias ruins
- sentimentos de desespero, falta de esperança ou queda de motivação
- irritabilidade
- dificuldade de concentração
- cansaço
- sintomas físicos intensos (como mal-estar no estômago)
- dificuldade para dormir
- aumento de comportamentos impulsivos ou arriscados, ou atitudes que você normalmente não teria quando está calmo - como compras por pânico e acúmulo de produtos após notícias sobre eventos graves.
O que fazer quando eu estiver me sentindo mal?
Antes de tudo, faça uma pausa. Pode ser por alguns minutos ou por alguns dias - o tempo necessário para você recuperar estabilidade emocional e se sentir pronto para voltar a lidar com notícias negativas.
Uma estratégia que pode ajudar é registrar por escrito como o noticiário está mexendo com você e acompanhar oscilações emocionais mais intensas.
Também pode ser útil se aproximar de pessoas que oferecem apoio e reservar tempo para atividades de que você gosta. Ficar ao ar livre e realizar tarefas manuais, como cuidar do jardim, pintar ou costurar, costuma ser especialmente benéfico quando você está ansioso ou mais emotivo.
Porém, se a sensação de sobrecarga estiver atrapalhando seu trabalho, sua vida cotidiana ou seus relacionamentos, vale buscar ajuda profissional.
Na Austrália, o governo oferece apoio gratuito em saúde mental em Centros Medicare de Saúde Mental com atendimento por demanda, em Kids Hubs ou por telefone.
Outros recursos gratuitos - incluindo um verificador de sintomas e links para suporte por chat on-line - estão disponíveis no Health Direct.
Se esta história trouxe preocupações ou se você precisa conversar com alguém, consulte esta lista para encontrar uma linha de crise 24 horas por dia, 7 dias por semana, no seu país e procure ajuda.
Reza Shabahang, pesquisador associado em Cibersegurança Humana, Monash University, e pesquisador acadêmico em Psicologia da Mídia, Flinders University
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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