Pular para o conteúdo

A oculta catarata do Estreito da Dinamarca, a maior cachoeira da Terra

Ilustração de navio próximo a um redemoinho gigante no mar congelado com icebergs ao redor.

Cataratas como as do Niágara atraem multidões em passeios de barco. O Salto Ángel, na Venezuela, despenca de uma altura maior do que muitos arranha-céus. Mesmo assim, as duas ficam pequenas diante da maior cachoeira do planeta - um fluxo colossal e veloz escondido sob as ondas do Ártico.

Conhecida como catarata do Estreito da Dinamarca, ela desce em “câmera lenta” sob as águas geladas entre a Islândia e a Groenlândia.

O escoadouro começa a milhares de metros de profundidade, passa por uma borda submersa e continua escorregando por cerca de 3.505 m (11.500 pés).

Nada disso chega aos sentidos de quem está na superfície: não há estrondo audível, não se forma névoa e os navios atravessam a região como se não existisse nada de extraordinário embaixo - justamente em um corredor ártico decisivo para o clima da Terra.

A catarata do Estreito da Dinamarca

As maiores quedas-d’água “clássicas” costumam surgir quando um rio encontra um paredão e despenca. A turbulência corrói a rocha, o degrau se acentua e nasce a paisagem de cartão-postal.

Já as cachoeiras submarinas obedecem a outra lógica. Nelas, a água mais fria e mais salgada afunda por ser mais densa do que as camadas superiores e escoa junto ao fundo do mar, como um xarope em uma assadeira inclinada. O deslocamento é silencioso e arrasta massas inteiras de água - não apenas um filete.

Os oceanógrafos confirmaram a existência da catarata do Estreito da Dinamarca há décadas, ao acompanhar no canal os perfis de temperatura e salinidade.

Os sensores mostraram uma faixa compacta de água do Mar Nórdico deslizando para a bacia do Atlântico, acelerando até despencar depois de ultrapassar uma crista submersa. Essa crista funciona como o “penhasco” invisível que desencadeia a maior queda do planeta.

Onde o frio do Ártico encontra o calor do Atlântico

A água que sai dos mares nórdicos é, ao mesmo tempo, mais fria e mais salgada do que a camada atlântica mais amena ao sul. É essa diferença de densidade que põe o fluxo em movimento.

Quando a água densa alcança o “limiar” entre Islândia e Groenlândia, ela verte para baixo e vai se alargando durante a queda, até formar uma lâmina com aproximadamente 483 km (300 milhas) - algo como a distância de carro entre Chicago e St. Louis.

Na Última Era Glacial, cerca de 17.500 a 11.500 anos atrás, geleiras escavaram trincheiras no fundo do mar e deixaram a crista que hoje marca o ponto de virada da catarata.

Desde então, detritos glaciais, erupções vulcânicas e correntes persistentes consolidaram essa estrutura, mantendo no lugar um “funil” geológico por onde a água desce.

Mudanças climáticas e a maior cachoeira

Mais de 3,2 milhões de metros cúbicos de água - cerca de 113 milhões de pés cúbicos - passam pela catarata a cada segundo, superando com folga a vazão do rio Amazonas ao desaguar no Atlântico.

Esse deslizamento alimenta o ramo inferior da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC), a “esteira transportadora” global que distribui calor, oxigênio e nutrientes pelo planeta.

Crescem as evidências de que as transformações globais estão afetando o fenômeno das cachoeiras submarinas.

“Um bom exemplo é a costa catalã, onde a diminuição do número de dias de tramontana no inverno no Golfo de Leão e ao norte da costa catalã está causando um enfraquecimento desse processo oceanográfico, que é decisivo na regulação do clima e tem grande impacto nos ecossistemas profundos”, explica a cientista marinha Anna Sanchez Vidal.

Tamanho da catarata do Estreito da Dinamarca

O Salto Ángel tem 979 m (3.212 pés) de queda na Venezuela. As Cataratas do Niágara vencem modestos 51 m (167 pés) na fronteira entre EUA e Canadá. Mesmo empilhando a água do Niágara dezenas de vezes, ainda assim não se alcança a vazão da catarata.

Nem o Mississippi em cheia teria vida fácil. Ainda assim, a catarata do Estreito da Dinamarca permanece fora de vista, com seu “barulho” abafado por mais de 0,8 km (meia milha) de coluna d’água.

Os instrumentos, porém, denunciam o que os olhos não veem: perfiladores ancorados registram velocidades acima de três nós, e testemunhos de sedimentos revelam camadas reorganizadas pela torrente oculta.

O transbordamento de água densa é especialmente forte no Ártico e na Antártica.

“As regiões polares são onde a maioria das massas de água densa - geradas pela formação de gelo marinho na superfície - acaba chegando ao fundo do oceano global”, explica David Amblàs, do Departamento de Dinâmica da Terra e do Oceano da Universidade de Barcelona.

“As áreas polares são como o coração do sistema circulatório oceânico: elas bombeiam água fria e densa para as grandes depressões oceânicas por meio dos ‘batimentos’ feitos pelos transbordamentos de água densa.”

Ainda há muito a aprender

A catarata pode desacelerar ou ganhar velocidade à medida que o aquecimento do Ártico altera padrões de salinidade e temperatura. Para detectar mudanças que possam se propagar pelos sistemas meteorológicos, pesquisadores recorrem a planadores autônomos, módulos de fundo oceânico e altimetria por satélite.

Se o fluxo enfraquecer, a “bomba de calor” do Atlântico Norte pode perder força, resfriando a Europa e empurrando furacões para novas rotas.

Mesmo assim, ainda não existe um vídeo direto que mostre toda a descida, e nenhum conjunto de sensores registra cada redemoinho. A cada expedição, só se revela uma pequena parte da história.

Os próximos projetos pretendem unir essas partes, mapeando a queda em três dimensões e acompanhando seu pulso ao longo das estações.

Por que a maior cachoeira da Terra importa

Quem aproveita um janeiro ameno ou come um filé de peixe pescado nas águas da Islândia deve parte desse conforto à catarata do Estreito da Dinamarca.

Ao arrastar água fria e densa para o sul, a catarata abre espaço para que água mais quente da Corrente do Golfo avance para o norte. Essa troca suaviza o inverno, alimenta o plâncton e orienta espécies migratórias rumo a áreas ricas em alimento.

Quando a torrente acelera, mais água profunda rica em carbono sobe em outras regiões, aumentando a produtividade do oceano. Quando ela perde força, o calor se acumula nos trópicos, favorecendo tempestades mais intensas.

Em outras palavras, a cachoeira invisível tem influência de bastidores tanto no tempo do dia a dia quanto no corredor de frutos do mar.

Para o turista, não há nada para ver. Para o planeta, trata-se de uma alavanca essencial, inclinando clima e economia com o empurrão discreto de um fluxo guiado pela densidade.

Os cientistas continuarão perseguindo seu ritmo, porque quanto melhor entendermos esse gigante escondido, melhor conseguiremos prever os humores do mar - e do céu acima dele.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário