Akio Toyoda, ex-CEO da Toyota e hoje presidente, poderia ter resumido a discussão com um simples “eu bem vos avisei” diante da aposta (quase) exclusiva em automóveis elétricos feita por boa parte do setor.
No entanto, ele preferiu explicar melhor seu ponto em falas à imprensa durante o Salão de Tóquio: “Há muitos caminhos para subir a montanha que é o alcançar da neutralidade carbónica. As pessoas estão finalmente a ver a realidade (sobre a tecnologia elétrica)”.
Tirando o pé do acelerador
Os comentários de Toyoda vêm na esteira das notícias mais recentes de que a procura por automóveis elétricos está a desacelerar, sobretudo no mercado norte-americano.
Balanços do 3º trimestre acendem o sinal amarelo
Na apresentação dos resultados financeiros do terceiro trimestre, diferentes montadoras (e fabricantes de baterias) passaram a dar sinais de preocupação. Entre elas, aparecem General Motors, Ford e até a Tesla. A Mercedes-Benz também encontra obstáculos nos EUA: a linha de elétricos EQ não tem entregue o desempenho comercial esperado, levando a empresa a recorrer a descontos expressivos.
Europa: Grupo Volkswagen relata queda nos pedidos
A desaceleração não se limita à América do Norte. Na Europa, o Grupo Volkswagen também apontou enfraquecimento da demanda. Os pedidos da marca caíram pela metade neste ano em comparação com os mesmos primeiros nove meses de 2022 - de 300 mil para 150 mil.
A perda de ritmo da economia e as taxas de juro elevadas estão entre as principais razões avançadas para a redução dos níveis de procura por automóveis elétricos.
Ainda assim, é importante separar nível e ritmo: as vendas de elétricos continuam crescendo e batendo recordes; o que mudou foi a velocidade desse crescimento. Em 2023, as vendas globais de automóveis elétricos avançam 49% - um número forte. Já em 2022, essa alta havia sido de 63% (Fonte: Wall Street Journal).
A expectativa é que a perda de ritmo persista em 2024, o que tem levado várias fabricantes a recalibrar metas antes anunciadas e, em alguns casos, a reavaliar investimentos futuros.
A Ford, por exemplo, “empurrou” para a frente a meta de vender 600 mil elétricos por ano e abandonou o objetivo de comercializar dois milhões de elétricos até 2026. A GM, por sua vez, também abriu mão do plano de vender 400 mil elétricos no primeiro semestre de 2024 (sem indicar uma nova data para alcançar esse volume).
Além disso, a iniciativa da GM com a Honda para criar um elétrico com preço abaixo de 30 mil dólares (pouco mais de 28,3 mil euros) voltado à América do Norte foi cancelada.
Akio Toyoda estava certo?
Akio Toyoda interpreta o enfraquecimento da procura como uma confirmação da postura que defendeu - e que tantas vezes foi alvo de críticas - por não “abraçar” os elétricos com a mesma ênfase de outros concorrentes.
E ele relaciona a desaceleração a um ponto específico: “se os regulamentos são criados baseados em ideais, serão os utilizadores normais que irão sofrer”. É uma referência ao risco de empurrar e acelerar por decreto uma transição tecnológica para a qual nem todos estão preparados.
Akio Toyoda na Toyota e a aposta em híbridos
Vale lembrar que, enquanto Toyoda esteve à frente da Toyota, os aportes em veículos 100% elétricos ficaram bem abaixo do que se viu em outros gigantes do setor.
Em vez disso, a empresa manteve uma forte aposta na tecnologia híbrida - área em que a Toyota foi pioneira - e distribuiu investimentos por outras rotas rumo à neutralidade carbônica: fuel cell (elétricos com célula a combustível de hidrogênio) e motores a combustão movidos a hidrogênio.
Já seu sucessor, Koji Sato, assumiu o compromisso de reduzir a defasagem da Toyota em elétricos a bateria. Os planos são ambiciosos: para 2030, a projeção é vender cerca de 3,5 milhões de elétricos por ano (o grupo Toyota comercializa mais de 10 milhões de automóveis por ano).
No Salão de Tóquio, houve um vislumbre desse caminho. A Toyota mostrou mais do que uma mão cheia de protótipos - de esportivos a várias picapes, passando por sedãs e SUVs -, todos elétricos a bateria, e a maioria deles antecipa modelos de produção.
Contudo, Sato, apesar do superior foco nos automóveis elétricos, não abandonou os investimentos nas outras tecnologias.
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