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Com a decisão da Força Aérea Argentina de retirar de serviço os seus caças-bombardeiros A-4AR Fightinghawk, a Marinha do Brasil passará a ser a última operadora militar ativa do clássico A-4 Skyhawk no mundo - ao lado de empresas privadas especializadas em treinamento aéreo militar. O encerramento do ciclo dos A-4 argentinos põe fim a quase três décadas de uso do modelo no país e simboliza o fechamento de uma fase marcante para uma das aeronaves mais emblemáticas incorporadas após a Guerra das Malvinas.
A-4AR Fightinghawk na Força Aérea Argentina
A desativação dos Fightinghawks esteve diretamente relacionada ao acidente ocorrido em 2024, que tirou a vida do Capitão Mauro Testa La Rosa. Esse episódio, somado ao desgaste acumulado da frota e ao aumento das limitações orçamentárias e logísticas para sustentar o sistema, interrompeu as intenções de reativar células armazenadas e, por consequência, antecipou a decisão de iniciar a aposentadoria definitiva do vetor - enquanto a Força Aérea Argentina avança na transição para os caças F-16AM/BM adquiridos da Dinamarca.
Os McDonnell Douglas O/A-4AR começaram a ser incorporados em 1997, a partir de um acordo com os Estados Unidos que envolveu modernização e transferência. As aeronaves derivavam de fuselagens do A-4M anteriormente operadas pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA e receberam atualização tanto em instalações norte-americanas quanto na Lockheed Martin Aircraft Argentina S.A., antiga Fábrica Militar de Aviones (FMA). O planejamento previa a entrega de 36 unidades, incluindo exemplares bipostos do OA-4AR, com a incorporação concluída por volta do ano 2000.
Naquele período, o Fightinghawk representou um dos saltos tecnológicos mais relevantes da Força Aérea Argentina no pós-guerra. A adoção de aviônicos atualizados, de um visor de informações no para-brisa (HUD), de comandos HOTAS e de capacidades inspiradas no F-16 indicava uma melhora operacional significativa. Ainda assim, cortes de orçamento e restrições estruturais impediram que o sistema alcançasse plenamente o potencial originalmente esperado, sobretudo na integração de armamentos guiados modernos e em capacidades avançadas de ataque ao solo e de combate ar-ar. Depois da retirada de serviço da família Mirage em 2015 (incluindo o Dassault Mirage IIIEA/DA, o M-V Mara e o IAI Finger), os A-4AR também assumiram em parte a função de principal aeronave de combate da Força Aérea Argentina, atendendo a um amplo conjunto de demandas operacionais.
O A-4 Skyhawk na Marinha do Brasil
Enquanto a Argentina caminha para o encerramento definitivo da fase Fightinghawk, a Marinha do Brasil seguirá empregando seus AF-1 Skyhawks modernizados, reforçando a condição de última força militar regional a operar o lendário projeto da Douglas. A entrada dessas aeronaves em serviço também permitiu ao Brasil integrar o grupo restrito de países com capacidade de operar caças embarcados - um atributo estratégico historicamente limitado a poucas marinhas no mundo.
Em 16 de janeiro de 2001, a Aviação Naval brasileira viveu um marco importante quando um AF-1 Skyhawk realizou as primeiras operações embarcadas a partir do porta-aviões NAeL Minas Gerais (A11), recuperando a capacidade da Marinha do Brasil de operar aeronaves de asa fixa no mar. Os Skyhawks brasileiros foram comprados em 1997 em um lote de 23 aeronaves A-4KU e TA-4KU da Força Aérea do Kuwait, inicialmente destinadas ao Minas Gerais e, mais tarde, ao porta-aviões São Paulo (A12), o ex-Foch da Marinha Francesa.
Mesmo com a desativação do São Paulo e o término das operações embarcadas de asa fixa, o sistema permaneceu em atividade na Aviação Naval, agora operando a partir de bases em terra. Em 2009, a Marinha do Brasil e a Embraer formalizaram o programa de modernização do AF-1, que no início previa doze aeronaves, mas foi reduzido para sete unidades atualizadas: cinco AF-1B monopostos e dois AF-1C bipostos. A última aeronave modernizada, de matrícula N-1004, foi entregue pela Embraer em abril de 2022, durante cerimônia na fábrica de Gavião Peixoto, no estado de São Paulo.
Modernização AF-1M e o radar ELTA EL/M-2032
A atualização dos AF-1M brasileiros trouxe novos sistemas de aviônica, navegação, comunicação tática e geração de energia, além de revisões estruturais e no motor para prolongar a vida útil do avião em aproximadamente mais dez anos. Entre os avanços, destacou-se a adoção do radar multimodo israelense ELTA EL/M-2032, com modos ar-ar, ar-mar e ar-solo, além da possibilidade de rastrear simultaneamente até 64 alvos navais a distâncias de até 256 quilômetros. O pacote também contemplou o desenvolvimento de um simulador de voo dedicado, voltado a elevar a segurança e a eficiência na formação e no treinamento de pilotos navais.
O “Scooter”, uma plataforma que permanece relevante
Hoje, os AF-1 Skyhawks continuam presentes em manobras e exercícios da Marinha do Brasil, além de participarem de treinamentos conjuntos como o CRUZEX. Durante o destacamento da Marinha dos EUA nos Mares do Sul em 2024, conduzido pelo porta-aviões USS George Washington, aeronaves do 1º Esquadrão de Aeronaves de Interceptação e Ataque realizaram sobrevoos e manobras de aceno de saída junto ao grupo aéreo naval norte-americano, evidenciando que o projeto veterano ainda tem utilidade operacional em determinados cenários navais e em atividades de treinamento avançado.
O A-4 Skyhawk no setor privado: Top Aces e Draken International
A permanência do Skyhawk também se sustenta fora das forças armadas estatais. Companhias privadas como a Top Aces e a Draken International seguem empregando diferentes variantes do A-4 em missões de treinamento avançado e em cenários de combate aéreo simulado contra caças de quarta e quinta geração. No caso da Top Aces, seus A-4N Skyhawks passaram por modernizações extensas, com a inclusão de radar AESA, sistemas de busca e rastreamento por infravermelho (IRST), HMCS, enlace de dados tático e pods avançados de ataque eletrônico por meio do sistema AAMS de arquitetura aberta. Com essas melhorias, o histórico “Scooter” continua oferecendo um perfil de ameaça altamente exigente para o treinamento de pilotos militares de países como Canadá, Alemanha e Estados Unidos, reforçando a capacidade de adaptação de uma plataforma concebida originalmente na década de 1950 por Ed Heinemann.
Imagens usadas apenas para fins ilustrativos.
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