Há cada vez mais sinais de que insetos podem, sim, sentir dor - e um estudo recente acrescenta mais evidências a esse conjunto.
Pesquisadores da Universidade de Sydney, na Austrália, registraram indícios de que o aparentemente simples grilo-doméstico - um inseto que já se sabe ter a “estrutura” necessária para sentir dor - passa a proteger e a limpar as antenas depois de receber um toque com uma sonda aquecida.
Dor, senciência e o desafio de medir a experiência
Avaliar a experiência de dor é algo extremamente difícil: mesmo em seres humanos, a dor é tão subjetiva que a forma mais direta de medi-la é pedir que a pessoa a classifique, geralmente em uma escala de 0 a 10.
Ainda assim, essa dimensão subjetiva da dor é central para que um animal (ou uma entidade) seja considerado senciente - isto é, capaz de ter sentimentos e emoções, e não apenas reações fisiológicas.
Como não dá para perguntar a um grilo “Está doendo?”, é preciso interpretar como ele responde a estímulos potencialmente dolorosos.
Os oito critérios usados para avaliar senciência
Foi justamente isso que um grupo de especialistas em comportamento e cognição animal fez em 2022, ao propor um conjunto de oito critérios para estimar se um animal pode ser considerado senciente com base na experiência subjetiva de dor.
O foco inicial eram caranguejos, lagostas e outros crustáceos decápodes, mas a proposta acabou virando uma referência que também pode ser aplicada a muitos outros animais.
Quando um animal atende a qualquer um desses critérios, isso conta como um sinal de que ele pode vivenciar algo além de uma simples resposta automática de retirada - e, portanto, pode também ser considerado senciente.
Esse debate inclusive levou o governo do Reino Unido a incluir crustáceos decápodes (como caranguejos, lagostas e camarões) e cefalópodes (como polvos e lulas) na Lei de Bem-Estar Animal (Senciência) de 2022.
Os critérios são os seguintes:
- Nocicepção (o animal possui receptores nervosos necessários para detectar estímulos nocivos)
- Integração sensorial (regiões do cérebro do animal conseguem sintetizar informações de diferentes fontes)
- Nocicepção integrada (o animal tem vias neurais conectando receptores de dano às regiões cerebrais integrativas)
- Analgesia (substâncias que funcionam como analgésicos em humanos alteram a resposta do animal a estímulos nocivos)
- Compensações motivacionais (o animal mostra sinais suficientes de ponderar dano potencial versus recompensa potencial, ou seja, tomada de decisão flexível)
- Autoproteção flexível (após um estímulo nocivo, o animal exibe comportamentos como cuidar da ferida, proteger, limpar ou esfregar)
- Aprendizagem associativa (indícios de associar estímulos nocivos a, por exemplo, estímulos neutros, ou ainda aprender maneiras de evitar estímulos nocivos por reforço)
- Preferência por analgesia (por exemplo, o animal aprende a se auto-administrar compostos analgésicos ou até os prioriza sobre outras necessidades, como alimento, quando está ferido).
Outros insetos já marcaram alguns desses itens: moscas e baratas cumpriram seis dos critérios; abelhas, vespas e formigas atingiram quatro.
Grilo-doméstico (Acheta domesticus) e por que ele importa
Por outro lado, insetos da ordem Orthoptera - que inclui os grilos - ainda não foram testados de forma suficiente, o que chama atenção sobretudo porque o grilo-doméstico, Acheta domesticus, está entre os insetos mais criados em larga escala no mundo, sendo consumido por humanos, por animais de estimação e também por animais usados em pesquisa.
Diante disso, uma equipe da Universidade de Sydney conduziu um experimento para verificar se grilos-domésticos cuidariam de uma lesão causada pela aplicação de calor nas antenas.
O experimento: sonda quente, antenas e limpeza direcionada
"Descobrimos que os grilos não apenas se encolhiam de forma reflexa e se recuperavam", explicam o entomologista Thomas White e a filósofa-bióloga Kate Lynch em um artigo para A Conversa.
"Eles cuidavam do dano, voltando repetidas vezes para limpar o local afetado, como nós esfregamos uma mão queimada."
O comportamento apareceu tanto em machos quanto em fêmeas, e era duas vezes mais provável quando a sonda usada para tocar as antenas era aquecida a 65 °C (149 °F), em comparação com as situações em que a sonda estava sem aquecimento ou nem chegou a encostar no grilo.
Essa temperatura basta para ativar os receptores de “dano” do grilo, mas não é alta o suficiente para causar prejuízo de longo prazo.
Após cada toque, os cientistas observaram os grilos por dez minutos.
"A limpeza foi direcionada especificamente para o lado aquecido, e não distribuída de maneira uniforme pelas duas antenas, como aconteceu após um toque suave ou sem contato", explicam White e Lynch.
"E o comportamento não foi uma reação breve e reflexa. Ele estava elevado desde o início e diminuía gradualmente ao longo de minutos, muito parecido com esfregar uma mão queimada enquanto a ardência percebida vai sumindo aos poucos."
O novo estudo indica que esse inseto comum em lojas de animais de estimação atende, de fato, ao critério de autoproteção flexível - um achado que pode trazer implicações éticas para o modo como esses insetos são tratados ao serem criados, manuseados e usados em experimentos.
"Já foi demonstrado que grilos possuem nociceptores, integração sensorial centralizada, capacidade de aprender com eventos aversivos e de moderar suas respostas a estímulos nocivos após analgesia", escrevem White, Lynch e a equipe.
Com os novos resultados, a autoproteção flexível passa a integrar a lista, o que significa que grilos agora cumprem cinco dos oito critérios.
"Juntas, essas linhas de evidência sugerem que ortópteros exibem a mesma conjunção de características - nocicepção, processamento integrativo, aprendizagem e autoproteção direcionada - que são consideradas suficientes para justificar uma consideração séria de senciência", conclui a equipe.
A pesquisa foi publicada em Anais da Sociedade Real B.
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