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Com apoio da Honeywell, a Quantinuum mira IPO nos EUA e aposta no computador quântico Apollo para 2029

Jovem interagindo com computador quântico em escritório com vista para cidade e colegas ao fundo.

Empresa apoiada pela Honeywell fatura dezenas de milhões de dólares por ano, mas investidores são convidados a apostar na máquina quântica Apollo, prometida apenas para 2029

A empresa de computação quântica Quantinuum protocolou um pedido de IPO nos EUA e pretende alcançar uma avaliação acima de US$ 20 bilhões - mesmo com o seu principal produto ainda restrito ao plano de desenvolvimento. A tese central apresentada ao mercado está ligada ao computador quântico Apollo, que a companhia descreve como o primeiro sistema universal totalmente tolerante a falhas, com lançamento previsto somente para 2029.

IPO nos EUA e o descompasso entre valor e negócio atual

Por enquanto, os números da Quantinuum continuam modestos até para padrões de empresas de tecnologia em rápida expansão. No fechamento de 2025, a receita foi de US$ 30,9 milhões, enquanto o prejuízo líquido atingiu US$ 192,6 milhões. Ao mesmo tempo, tanto a receita quanto as perdas avançaram no mesmo ritmo: as duas linhas cresceram 34% em relação ao ano anterior.

O 1º trimestre de 2026 trouxe uma deterioração ainda mais forte. A receita caiu de US$ 19,1 milhões para US$ 5,2 milhões, e o prejuízo aumentou em mais de 4 vezes, chegando a US$ 136,6 milhões. Esse quadro reforça o principal dilema do setor quântico: muitas empresas valem dezenas de bilhões não pelo que entregam hoje, mas pela expectativa de que, em algum momento, a tecnologia vai operar em escala comercial.

Origem da Quantinuum e participação da Honeywell

A Quantinuum foi formada em 2021, a partir da fusão entre a divisão Honeywell Quantum Solutions e a empresa britânica Cambridge Quantum Computing. Atualmente, a Honeywell detém 54% da companhia.

Tecnologia de íons aprisionados e parcerias corporativas

A empresa desenvolve computadores quânticos baseados na abordagem de “íons aprisionados”. Nessa arquitetura, átomos individuais são mantidos sob controle por campos eletromagnéticos e manipulados com lasers. A Quantinuum afirma que seus sistemas já exibem uma das maiores precisões do setor em operações de dois qubits, um dos indicadores-chave de qualidade em computação quântica.

Entre os parceiros estão BMW, Airbus, JPMorgan Chase, HSBC e Thales. Ainda assim, por ora não se trata de uso industrial pleno, mas de projetos de pesquisa com horizonte de longo prazo.

A BMW, por exemplo, avalia como a computação quântica pode ajudar na modelagem de processos químicos em células a combustível, enquanto a Airbus investiga aplicações voltadas ao desenvolvimento de aeronaves movidas a hidrogênio. Já o JPMorgan colabora com a Quantinuum desde 2020 e é frequentemente citado como um dos usuários corporativos mais ativos das ferramentas de software da empresa.

Roteiro de produto: Helios, Sol (2027) e o computador quântico Apollo (2029)

O ativo mais importante da Quantinuum, porém, é a promessa de entregar um computador quântico tolerante a falhas. Hoje, sistemas quânticos são ruidosos: erros se acumulam rapidamente durante a execução e tornam os resultados inviáveis em tarefas complexas. Por isso, a correção de erros é vista como o principal obstáculo de engenharia em toda a indústria.

A futura plataforma Apollo é apresentada como a resposta a esse problema. Segundo a empresa, o sistema será capaz de sustentar computações longas e complexas com correção completa de erros - um marco que muitos consideram o verdadeiro início da computação quântica comercialmente útil.

Apesar disso, o Apollo ainda permanece como um projeto no papel. No momento, a Quantinuum dispõe do sistema Helios, e a plataforma intermediária Sol é esperada para 2027. Em última instância, é a confiança dos investidores de que o Apollo realmente chegará até o fim da década que sustenta a avaliação multibilionária da companhia.

Investimento público na Europa e prazos controversos

O interesse em tecnologias quânticas também é impulsionado por governos. Países europeus já direcionam bilhões de euros para o avanço do setor. Programas nacionais vêm sendo ampliados por Alemanha, França, Países Baixos e Reino Unido. Só a França destinou cerca de €500 milhões a cinco startups focadas em computadores quânticos tolerantes a falhas.

Mesmo assim, o cronograma para a chegada de computadores quânticos realmente úteis segue altamente debatido. Há mais de 10 anos, muitos especialistas repetem que a tecnologia está a “cinco a dez anos” de um salto comercial. O CEO do Google estima um horizonte de 5–10 anos, enquanto o líder da Nvidia declarou recentemente que isso pode levar no mínimo 15 anos.

O IPO da Quantinuum pode se tornar a maior abertura de capital da história da indústria quântica e um novo parâmetro para todo o segmento. Ao mesmo tempo, a operação vira uma espécie de prova de fogo: até que ponto os mercados públicos estão dispostos a pagar dezenas de bilhões de dólares por uma tecnologia que ainda não existe em sua forma final.

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