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28bio lança a plataforma CNS-3D Myelinated Organoids com mielina para estudar o cérebro humano

Cientista mulher usando microscópio em laboratório com imagem de neurônio na tela do computador.

Este modelo permite, pela primeira vez na história, observar em tempo real a destruição e a recuperação de fibras nervosas em células humanas - e não em animais

No dia 12 de maio, a empresa de biotecnologia 28bio apresentou a plataforma CNS-3D Myelinated Organoids, descrita como a primeira do seu tipo por reproduzir o funcionamento do sistema nervoso humano com um nível de precisão até então inédito. O diferencial central da tecnologia é a presença de mielina - a camada protetora que envolve as fibras nervosas - cuja degradação é considerada a causa primária da esclerose múltipla e que também está associada a condições graves, como as doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington.

O problema das modelos animais e a “lacuna” nos testes em humanos

Durante décadas, a pesquisa teve de se apoiar em experimentos com roedores. O ponto crítico é que, no organismo dos camundongos, a reparação da mielina tende a ocorrer de forma muito mais rápida e mais completa do que em pessoas. Essa “lacuna” ajudou a criar um cenário em que mais de 99% dos medicamentos que demonstraram bons resultados em animais acabam fracassando quando chegam à etapa de ensaios clínicos com participação humana.

Christopher Butt, vice-presidente de tecnologia da 28bio, reforçou que o setor já não deveria continuar dependente de modelos animais pouco confiáveis, uma vez que agora é possível medir diretamente a dinâmica de remielinização dentro de um contexto biológico humano.

Como os CNS-3D Myelinated Organoids replicam a mielina e a atividade funcional

Os novos organoides 3D são organizados como uma estrutura ordenada que reúne neurónios, astrócitos e oligodendrócitos. Essa composição não se limita a permitir a observação microscópica das células: ela também viabiliza o registo de atividade funcional real, semelhante à do cérebro.

Dentro do sistema, os oligodendrócitos formam bainhas de mielina ao redor dos axónios. Com isso, os investigadores conseguem induzir danos de forma controlada e, ao mesmo tempo, acompanhar em tempo real a eficácia de potenciais medicamentos ao avaliar a capacidade de recuperação da mielina.

Relevância para esclerose múltipla, terapias avançadas e a plataforma Nexon

A pertinência da solução é sustentada por números: nas últimas quatro décadas, a prevalência da esclerose múltipla aumentou 6 vezes, e as abordagens terapêuticas atuais ainda não conseguem garantir a restauração estável do tecido nervoso. Segundo representantes da 28bio, a plataforma deve ser especialmente valiosa para equipas que desenvolvem terapias celulares e génicas, nas quais a precisão da intervenção sobre células do cérebro influencia o sucesso de todo o tratamento.

A 28bio - que atua no desenho do cérebro humano em escala com apoio de IA e neurointerfaces - já começou a disponibilizar o acesso aos CNS-3D Myelinated Organoids como serviço. As entregas globais de sistemas prontos para uso, em formatos de 96 e 384 amostras, estão programadas para o terceiro trimestre de 2026. A integração desses organoides à plataforma Nexon deverá permitir que empresas farmacêuticas no mundo inteiro aumentem de forma expressiva a precisão das previsões e acelerem a chegada ao mercado de fármacos capazes de travar a crise neurodegenerativa.

O avanço sinaliza uma mudança para métodos de investigação mais éticos e biologicamente relevantes, nos quais tecido humano cultivado artificialmente passa a ser um instrumento para enfrentar doenças antes consideradas sem cura.

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