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BMW 2002 Turbo: uma viagem insana aos anos 70

BMW 2002 Turbo branco com faixas azul e vermelha em exibição em museu de carros clássicos.

Nos anos 1960 e 1970 do século passado, a oferta das marcas alemãs generalistas ainda carregava o peso da depressão do pós-guerra. Isso aparecia nos carros e, de certa forma, no humor do país: quase tudo era sóbrio, sério e, para muitos, sem graça.

Eram bons meios de transporte? Com certeza. Tinham conforto e confiabilidade? Também. O problema é que, além disso, ofereciam pouco. Para fugir desse cenário meio desanimador, havia alternativas - mas elas custavam caro de outras formas: ou se encaravam os ingleses, nem sempre confiáveis, ou se caía nos esportivos italianos, cheios de raça, porém pequenos.

Foi nesse contexto que a BMW - sigla de Bayerische Motoren Werke, ou, em português, Fábrica de Motores Bávara - depois de começar fabricando motores, mais tarde motos e também automóveis, resolveu se posicionar de modo mais firme no mercado de carros. E ainda bem que fez isso.

A virada veio com o 1500, um modelo que entregava exatamente o que a maioria dos sedãs contemporâneos do mesmo segmento não entregava: confiabilidade, bom fôlego no uso diário e um espaço interno razoável. O 1500 conseguia transportar cinco adultos com algum conforto e serviu de base para o 1600, 1602 e para toda a linhagem 2002 ti, tii e Turbo. E é justamente este último, o 2002 Turbo, que puxa esta viagem ao passado.

2002 Turbo, uma "criação disparatada"

Em poucas palavras: o BMW 2002 Turbo foi uma "criação disparatada", um verdadeiro exercício de loucura.

Partindo do BMW 1602 e usando o bloco do 2002 tii, o 2002 Turbo fez questão de ignorar as convenções da época. Menos de 900 kg para 170 cv às 5800 rpm - e estamos falando da década de 1970!

Essa potência era entregue "gentilmente" por um quatro-cilindros de apenas 2000 cm³, alimentado por um turbo KKK a 0,55 bar, sem dump-valve, e com injeção mecânica Kugelfischer. Como dizem os brasileiros: Nossa!

Aliás, ele foi um dos primeiros modelos a levar a sobrealimentação para a produção em série. Até então, nenhum carro tinha saído de fábrica com turbo.

Vale lembrar que a sobrealimentação, desde o começo, era uma tecnologia associada à aviação. Por isso, faz sentido que tenha sido a BMW - considerando suas origens aeronáuticas - a abrir caminho e levar essa solução para a indústria automotiva.

O resultado desse pacote tecnológico foi uma ficha de números que, ainda hoje, deixa muito esportivo com vergonha: 0-100km/h em 6,9s e velocidade máxima "beirando" 220km/h.

E, como se isso não bastasse para elevar a adrenalina, toda essa força era enviada ao eixo traseiro, calçada por pneus tão estreitos que poderiam competir com as medidas de um carrinho de bebê: 185/70 R13.

Só que a "loucura" não parava aí - na verdade, estava só começando. Esqueça turbo de geometria variável, motor com entrega mansa e acelerador fly-by-wire.

O 2002 Turbo tinha duas personalidades bem marcadas: até 3800 rpm, era dócil como uma educadora infantil; dali em diante, virava algo bruto e mal-humorado como uma sogra de péssimo dia. E que sogra! Essa bipolaridade vinha do turbo "das antigas", ou seja, com muito turbo-lag. Enquanto o turbo não enchia, estava tudo OK; depois disso… saiam da frente. Começa o festival de potência e de borracha queimada.

Desportividade por todos os poros

Mas não pense que o 2002 Turbo era apenas um motor forte dentro de uma carroceria pequena da BMW. Para a época, ele representava o estado da arte no visual e no pacote de um esportivo.

O carro inteiro respirava esportividade: freios maiores, caixas de roda mais largas e diferencial traseiro autoblocante vinham num conjunto que também incluía volante e bancos esportivos, manômetro de turbo, spoilers dianteiro e traseiro bem pronunciados e, por fim, faixas azuis e vermelha ao longo da carroceria.

Sim, você leu certo: faixas azuis e vermelhas. Não lembra as cores de alguma coisa? Exatamente, as cores da BMW M! Ali nasciam as cores que acompanhariam a linha esportiva da BMW até hoje.

Turbo "ao contrário"

O toque final de insanidade - e que parece confirmar o estado de euforia da administração bávara ao aprovar a produção do BMW 2002 Turbo - estava na inscrição "2002 turbo" no spoiler dianteiro, aplicada de forma invertida, como… nas ambulâncias.

Na época, dizia-se que a ideia era ajudar os outros motoristas a distinguir o 2002 Turbo dos demais modelos da linha e, assim, deixá-lo passar. Isso mesmo: para saírem da frente! O salto de desempenho do 2002 Turbo em relação aos outros carros era tão grande que, literalmente, parecia jogá-los para a sarjeta.

Aliás, dirigir um BMW 2002 Turbo era, em parte, seguir essa filosofia: empurrar os outros para a sarjeta e torcer para não ir parar lá junto. Um carro para homens de barba dura e pelo no peito, portanto…

Reinado curto

Mesmo com todos os atributos - e também com seus "defeitos" - o reinado do BMW 2002 Turbo foi breve. A crise do petróleo de 1973 derrubou qualquer ambição comercial que o modelo pudesse ter e, apenas um ano depois de chegar ao mercado, o 2002 Turbo, "consumidor-compulsivo-de-gasolina", saiu de cena: deixou de ser produzido no fatídico ano de 1975.

Ainda assim, ele deixou marca. A marca de um pioneiro no uso do turbocompressor e de um modelo que plantou as sementes da futura divisão "M".

Há quem dê ao BMW M1 de 1978 o título de "primeiro M", mas, para mim, não há dúvida de que um dos pais legítimos da M Motorsport é o BMW 2002 Turbo (1973) - que, junto do 3.0 CSL (1971), deu o pontapé inicial da BMW Motorsport.

No fim, porém, foi o 3.0 CSL que acabou recebendo prioridade dos engenheiros, por ficar mais próximo das especificações de competição dos carros de turismo daquela época do que a Série 02, com a qual começaram as primeiras preparações para corrida (lançada em 1961). O legado desses modelos segue vivo nos BMW mais icônicos: M1, M3 e M5.

Trazendo a conversa de volta ao presente, é difícil negar que temos muito a agradecer ao velho e rabugento 2002 Turbo. Longa vida à divisão M! Que o braço esportivo da BMW continue a nos entregar, no futuro, modelos tão marcantes quanto este. Não é pedir pouco…


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