Dos “loucos anos 80” aos “fantásticos anos 80”
Quem ainda guarda na memória os supostos loucos anos 80? Passadas mais de três décadas - depois de uma pandemia que nos trancou em casa, interditou bancos de praça e até nos empurrou para a praia usando máscara cirúrgica, e agora com a possibilidade real de conversar com computadores de um jeito natural - preciso admitir: aqueles anos já não me parecem tão tããão loucos assim.
Olhando hoje, com a distância do tempo e depois de tudo o que aconteceu recentemente, faz mais sentido para mim chamá-los de “fantásticos anos 80”. Havia um clima diferente no ar. Mesmo com carros que poluíam mais e com um entendimento de ecologia bastante raso - tão raso que incluía ideias tão sem noção quanto fantasiar crianças com sacos plásticos no carnaval para “incentivar” a reciclagem (eu sei porque fui uma delas...) -, a sensação era de leveza.
Era um período de avalanche de novidades, e parecia que tudo apontava para o triunfo da humanidade. Quer dar risada? Na época, o grande fantasma era o crash dos anos 2000: aquela história de que, na virada de 31 de dezembro para 1º de janeiro, todos os computadores iam simplesmente colapsar. Ahahaha! Não colapsou nada; eu estava lá... jogando no computador como se nada tivesse acontecido.
E, sendo justo, seguimos nessa toada. Apesar das profecias apocalípticas dos arautos da desgraça, a humanidade continua avançando com boa velocidade rumo à sustentabilidade - nunca produzimos tanto gastando tão poucos recursos.
Por que quase nada impressiona como antes
Ainda assim, tenho a impressão de que hoje pouca coisa nos espanta como antigamente. Falo por mim: eu vejo um quadrante 100% digital em um carro moderno e não fico nem perto do fascínio que sinto - até hoje - quando encaro aqueles quadrantes digitais que a Fiat colocava nos carros dos anos 80/90.
O quadrante digital do Fiat Uno Turbo I.E. (1985)
Um exemplo perfeito é o quadrante do Fiat Uno Turbo I.E. de 1985. Aquilo era praticamente um compêndio tecnológico, com cara de “carro do futuro”. Luzes, menus, possibilidades, opções... tudo parecia ter saído direto de um filme de ficção científica.
Infelizmente os travões também pareciam um filme de ficção científica. Porque na realidade não travavam nada e curvar era uma comédia.
Mesmo assim, nada disso consegue ser tão relevante quanto o assombro com que ainda olho para imagens como as que acompanham este artigo. E, por favor, nem venham com conversa de problemas eletrônicos. Não arruínem lembranças boas com detalhes mundanos.
Fiat Tempra e a “aura” que define um carro
Também existia o Fiat Tempra, outro ótimo exemplo de como um “detalhe” interno pode marcar um automóvel inteiro. É um dos poucos carros de que eu me lembro claramente da primeira vez em que entrei.
Hoje, as próprias marcas parecem entender melhor o peso dessa “aura” dos carros de outras épocas. Nos próximos anos, vamos ver o retorno de vários modelos que já estavam guardados nos livros de história.
Isso começou nos anos 2000 com o MINI e com o Fiat 500. Mais recentemente, vimos a volta do Volkswagen Pão de Forma (a.k.a ID. Buzz) e, em breve, vamos ter a Renault 4L e a Renault 5 novamente à venda.
Uma coisa eu tenho certeza: o quadrante digital do Fiat Uno Turbo I.E. vai ficar para sempre na minha lista de coisas mais fixes que dá para encontrar em um automóvel.
As novas gerações já não dizem fixe pois não? Até a palavra fixe deixou de ser fixe…
No fim, tanto faz. Para mim, nem tudo do passado é ruim, assim como nem tudo o que vier no futuro será necessariamente melhor. É nessa dialética entre passado, presente e futuro que talvez a gente encontre o melhor que cada um tem para entregar. Em um mundo em que todo mundo quer ser disruptivo, eu valorizo cada vez mais a continuidade - até porque manter constância não é para qualquer um.
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