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José Couto, da AFIA, diz estar receoso com o futuro da indústria nacional de componentes automóveis

Homem de camisa azul de braços cruzados em depósito com prateleiras de câmeras antigas e equipamentos.

José Couto, presidente da AFIA (Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel), disse estar “receoso” com o que vem aí para a indústria nacional de componentes automóveis, em declarações recentes ao ECO.

Mesmo depois de um máximo histórico alcançado em 2023 - perto de 14,6 mil milhões de euros (dos quais 12,433 mil milhões de euros resultaram de exportações) - a expectativa é de que, em 2024, o faturamento do setor de componentes automotivos em Portugal recue.

Na leitura de José Couto, os obstáculos são variados: dos conflitos verificados no Mar Vermelho ao arrefecimento efetivo da procura. Por isso, o responsável garante que as empresas já estão a preparar-se para “adaptar o chão-de-fábrica” à desaceleração das encomendas.

“Estamos um pouco receosos”

Ao desenhar o cenário para 2024, José Couto volta a frisar que é provável “que a produção de automóveis encolha”, o que, por arrasto, reduz também a dimensão do mercado de componentes.

O mercado está a encolher, há uma diminuição, nalguns casos, até da produção de automóveis elétricos, que baixaram as vendas.

José Couto, presidente da AFIA

Depois de um avanço a dois dígitos em 2023, o líder da AFIA considera que, neste momento, “a melhor expectativa neste momento é que em todo o ano se possa crescer à volta de 5%”.

E o arranque do ano reforça a cautela: “Em janeiro só crescemos 0,3% e estamos um pouco receosos”, afirmou José Couto ao ECO, acrescentando: “Mas 0,3% é 0%. Não nos anima”.

Vale lembrar que a quebra da procura já se fazia sentir desde outubro de 2023 e que, em dezembro do ano passado, chegou a registar-se um resultado negativo (-2,8% em termos homólogos).

Existem postos de trabalho em risco?

Caso se confirme um crescimento em torno de 5% ao longo de 2024, o setor deverá conseguir salvaguardar os cerca de 63 mil empregos existentes.

“A não ser que exista uma queda significativa (nas encomendas), seremos capazes de manter este número entre os 62 e os 63 mil trabalhadores”, assegura José Couto, defendendo que será possível “manter o aparato industrial, quer ao nível da mão-de-obra quer dos equipamentos”.

Acreditamos neste momento que somos capazes de manter esse nível de empregabilidade e encontrar soluções para mitigar esses custos que vêm por diminuição da produção.

José Couto, presidente da AFIA

Ao falar do capital humano do setor, José Couto sublinha que “é importante que se mantenha porque o investimento destas 350 empresas em recursos humanos é significativo. É muito exigente do ponto de vista da formação”.

“Isto é um investimento não tangível que gostaríamos de guardar porque é isto que nos dá a mola para enfrentarmos os novos desafios tecnológicos propostos pelos clientes. A partir do momento em que se perde, é difícil de recuperar”, reforça, citado pelo ECO.

Descida das exportações pode não ser problema

Em janeiro de 2024, verificaram-se quedas relevantes nas encomendas vindas de Espanha (-5,8%) e de França (-23,1%). O dado ganha peso por serem, respetivamente, o primeiro e o terceiro mercados mais importantes para a indústria nacional de componentes automóveis.

No sentido oposto, as encomendas da Suécia vêm mostrando uma trajetória de alta consistente nos últimos meses; já em janeiro, a Alemanha aumentou as compras a Portugal em 11,6% e o Reino Unido em quase 14%.

Ainda assim, o presidente da AFIA ressalva que “só no final do primeiro trimestre” será possível “ver as tendências e ter uma noção mais exata e global”, antes de afirmar de forma categórica:

Gostávamos até que o nosso valor de exportações pudesse cair, por ser utilizada (a produção) em Portugal.

José Couto, presidente da AFIA

Conforme explica, isso “significaria que estávamos a oferecer mais componentes às empresas que estão instaladas em Portugal ou que se instalavam aqui novas OEM (fabricantes de equipamento original), novos construtores automóveis”.

Autoeuropa pode ajudar

A Autoeuropa - responsável por cerca de 1,5% do PIB nacional - pode ser determinante para a indústria nacional de componentes automóveis, ao ajudar a compensar a quebra das encomendas externas e, consequentemente, a redução esperada das exportações.

Já manifestámos à Autoeuropa que gostaríamos que aumentasse a compra de componentes nacionais, que houvesse um reforço importante aí porque é um valor reduzido. Achamos que é pouco para aquilo que está instalado em Portugal.

José Couto, presidente da AFIA

Segundo José Couto, este é um tema que a AFIA já trabalhou em 2023, quando a produção da Autoeuropa foi suspensa por falta de peças de um fornecedor esloveno. “Precisamos de voltar a esse tema”, garante.

Fonte: ECO

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