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História dos porta-aviões da Armada Argentina: ARA Independencia e ARA Veinticinco de Mayo

Caça naval estacionado no convés de um porta-aviões com seis pessoas observando e um trator ao fundo.

Os porta-aviões da Armada Argentina - com destaque para o ARA Independencia e o ARA Veinticinco de Mayo - definiram um período particular da história naval do país na segunda metade do século XX. Com essas unidades, a força pôde estruturar uma capacidade aeronaval que a colocou entre as marinhas sul-americanas com maior projeção oceânica, consolidando um padrão de operação que combinava aviação embarcada, doutrina de projeção e presença contínua no Atlântico Sul. Ao longo de cerca de 30 anos, os dois navios formaram o centro das operações aeronavais argentinas, até serem retirados definitivamente no fim do século passado.

História do ARA Independencia

O ARA Independencia (V-1) foi o primeiro porta-aviões a operar na Armada Argentina, resultado de uma discussão estratégica prolongada iniciada nos anos 1940. Um estudo de 1942 já apontava a necessidade de incorporar dois porta-aviões, o que levou à autorização formal pelo decreto N.º 9006/43; ainda assim, o contexto internacional postergou a aquisição por mais de uma década. O navio tinha sido construído como HMS Warrior (R31) para a Marinha Real Britânica e, depois, serviu como HMCS Warrior (CVL 20) na Marinha Real Canadense. Integrante da classe Colossus, foi concluído em 1946 e não chegou a atuar na Segunda Guerra Mundial, pois a guerra já havia terminado.

A venda foi aceita pelo Reino Unido em 1958, por meio do decreto argentino 5939/58 S. O pagamento foi viabilizado com a desprogramação dos couraçados ARA Moreno e ARA Rivadavia, além do guarda-costas ARA Pueyrredón. Para a transferência, o porta-aviões foi reativado a partir da reserva em apenas dez semanas, com uma tripulação reduzida de 500 homens. Rebatizado como ARA Independencia, entrou em serviço em 1959 e, durante aproximadamente uma década, foi o principal meio aeronaval do país.

O Independencia foi essencial para a fase inicial da aviação embarcada argentina, mas suas limitações técnicas restringiram a evolução da capacidade. A catapulta não dispunha de potência suficiente para lançar caças a jato de nova geração, uma desvantagem que se tornou decisiva à medida que a modernização naval avançava no mundo. Com a chegada do ARA Veinticinco de Mayo (V-2) em 1970, o Independencia foi colocado na reserva e mais tarde chegou a ser oferecido à Marinha de Guerra do Peru, proposta que não se concretizou.

Por fim, o navio foi desmontado em 1971, na cidade de Rosário, pela empresa Saric S.A., encerrando a primeira etapa da capacidade aeronaval argentina. Sua passagem deixou como herança um acúmulo relevante de experiência operacional e uma base doutrinária que serviria ao porta-aviões sucessor.

História do ARA Veinticinco de Mayo

Comprado no fim dos anos 1960, o ARA Veinticinco de Mayo (V-2) assumiu o posto de principal porta-aviões argentino, substituindo o Independencia. O navio havia sido originalmente o HMS Venerable, da Marinha Real Britânica, e depois o HNLMS Karel Doorman, da Marinha Real dos Países Baixos. Após um incêndio na sala de caldeiras, passou por uma reconstrução completa nos estaleiros Wilton-Fijenoord. Essa modernização incluiu a instalação de uma catapulta mais potente, permitindo operar aeronaves a jato - capacidade que o porta-aviões anterior não possuía.

O navio chegou à Argentina em 1969 e recebeu o nome ARA Veinticinco de Mayo, em referência ao aniversário da Revolução de Maio. Podia levar até 24 aeronaves, e seu primeiro grupo aéreo foi formado por F9F Panther e F9F Cougar, posteriormente substituídos por A-4Q Skyhawk, S-2 Tracker e helicópteros Sikorsky Sea King.

Ao longo da década de 1970, o ARA 25 de Mayo passou por modernizações sucessivas para manter a relevância operacional. As intervenções não ultrapassavam cinco meses, o que possibilitava manter o navio disponível para desdobramentos longos. Em 1981, foi concluída sua última grande atualização antes da Guerra das Malvinas, com aprimoramentos em radar, sistemas de frenagem e na catapulta a vapor. O objetivo era tornar o porta-aviões compatível com os Super Étendard adquiridos da França; contudo, os testes indicaram que a catapulta tinha dificuldades para lançá-los, limitando a ala aérea aos A-4Q Skyhawk.

Participação na Guerra das Malvinas

Em 1982, o ARA Veinticinco de Mayo atuou de forma efetiva nas fases iniciais da Guerra das Malvinas, movimentando seu grupo aéreo com a intenção de atacar a força-tarefa da Marinha Real Britânica. O porta-aviões foi posicionado ao norte das ilhas, buscando explorar a cobertura meteorológica e o alcance dos caças-bombardeiros. Ainda assim, após os primeiros dias, permaneceu em grande parte no porto, em função de avaliações táticas, limitações logísticas e do risco submarino identificado pelo Estado-Maior argentino.

O dia 25 de maio de 1982 esteve entre os mais intensos da ofensiva aeronaval argentina. As forças argentinas tentaram conter o avanço britânico no estreito de San Carlos, onde aeronaves da Força Aérea Argentina (FAA) e do Comando de Aviação Naval enfrentaram uma defesa antiaérea britânica concentrada. A Marinha Real Britânica já havia perdido as fragatas HMS Antelope e HMS Ardent, e outras embarcações apresentavam avarias, elevando a tensão dos dois lados.

Nessa data, diferentes esquadrilhas de A-4 Skyhawk atacaram posições britânicas em ondas sucessivas. Para sustentar o ritmo das missões, a participação dos KC-130H Hércules da Força Aérea Argentina foi fundamental no reabastecimento em voo e na continuidade das operações.

A esquadrilha Marte, comandada pelo Capitão Hugo Palaver, teve dificuldades de navegação e comunicação que a levaram à região de Darwin, onde recebeu fogo amigo e, depois, fogo inimigo. Um míssil Sea Dart disparado do destróier HMS Coventry derrubou o A-4B do Capitão Palaver, que morreu em combate. A esquadrilha Toro, com quatro A-4C Skyhawk, também enfrentou forte defesa antiaérea. Seu líder, o Capitão Jorge García, foi abatido por outro Sea Dart do Coventry, enquanto o Tenente Ricardo Lucero foi atingido por um míssil Rapier e resgatado posteriormente por forças britânicas.

As esquadrilhas Vulcano e Zeus executaram um dos ataques mais marcantes do conflito ao confrontarem o destróier HMS Coventry e a fragata HMS Broadsword. Os Vulcano causaram danos à HMS Broadsword com uma bomba MK17, e os Zeus obtiveram acertos diretos no Coventry com bombas BR250. O navio britânico afundou em poucos minutos, configurando um dos golpes aeronavais mais relevantes aplicados pela Argentina durante a guerra.

Como a capacidade aeronaval foi perdida e quais países também a abandonaram

No pós-guerra, o ARA 25 de Mayo seguiu operando por alguns anos, porém com restrições técnicas e orçamentárias cada vez maiores. A partir da metade dos anos 1990, a planta propulsora e os sistemas de convoo passaram a registrar falhas recorrentes, enquanto a evolução tecnológica internacional tornava sua modernização progressivamente mais cara. Em 1997, foi retirado de serviço de forma definitiva, encerrando 38 anos de operação ininterrupta de porta-aviões na Armada Argentina.

A desativação do navio, somada à inexistência de um programa de substituição, encerrou a era da aviação embarcada no país. Desde então, a Argentina mantém apenas aviação naval baseada em terra, sem capacidade de projeção aeronaval. Considerando que a Argentina possui uma extensão marítima de aproximadamente 1 milhão de quilômetros quadrados, com vários arquipélagos (disputados com o Reino Unido, pois não se trata apenas das Ilhas Malvinas, mas também das Geórgias, Sandwich do Sul, Aurora e Orcadas - estas últimas inseridas no território antártico), depender exclusivamente de aviação naval baseada em terra representa uma limitação séria de capacidades.

A perda dessa capacidade não ocorreu apenas na Argentina. A Austrália retirou seu último porta-aviões, o HMAS Melbourne, em 1982 e, atualmente, opera navios anfíbios sem aeronaves de asa fixa (o HMAS Canberra e o HMAS Adelaide). O Canadá manteve o HMCS Bonaventure até 1970 e depois abandonou a capacidade por motivos orçamentários. Já os Países Baixos deixaram esse segmento ao vender o HNLMS Karel Doorman para a Argentina.

O Brasil manteve porta-aviões por décadas, mas hoje seu principal navio é o NAM Atlântico, um porta-helicópteros que não opera caças embarcados. Alemanha e Japão, potências aeronaval na Segunda Guerra Mundial, abandonaram porta-aviões após a derrota; no entanto, o Japão atualmente mantém navios da classe Izumo adaptados para operar F-35B, o que configura um retorno parcial a essa capacidade.

A retirada de porta-aviões em diferentes países evidencia mudanças estruturais em orçamentos de defesa, prioridades estratégicas e custos de operação. Sustentar uma aviação embarcada exige não apenas um navio adequado, mas também uma cadeia logística, doutrinária e tecnológica altamente demandante.

Nos exemplos citados, esses países não possuem hipóteses de conflito, o que torna plausível direcionar recursos de defesa para outras áreas, com base em suas razões e justificativas. No caso argentino, entretanto, restrições orçamentárias prolongadas e a ausência de um planejamento consistente tornaram inviável manter essa capacidade - o que representa um risco relevante para a soberania marítima e territorial ultramarina, já que existem hipóteses de conflito com o Reino Unido pela Questão Malvinas e, também, pelo setor Antártico, além de disputas territoriais com os britânicos e, adicionalmente, com o país vizinho Chile.

Imagens meramente ilustrativas.


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