Nas redes sociais, nas universidades e no trabalho, a IA parece ter virado o novo padrão. Modelos de linguagem já redigem e-mails, resolvem tarefas, montam roteiros de viagem. Ao mesmo tempo, cada vez mais jovens dizem se sentir desconfortáveis com essa velocidade e tentam, de forma deliberada, viver sem essas ferramentas - por medo do futuro, por convicção ou simplesmente por uma sensação difusa de afastamento.
Entre crise climática, guerras e IA: ansiedade com o futuro como estado permanente
Para muita gente na faixa dos 20 e poucos até o início dos 30, a IA é só mais uma peça dentro de um cenário de futuro que já pesa. Quem cresceu com crise climática, pandemia, guerra na Europa e radicalização política tende a não ver a expansão acelerada de sistemas generativos como uma curiosidade divertida, e sim como mais um fator de ameaça.
Um jovem editor web - vamos chamá-lo de Benjamin - conta como suas preocupações vão se acumulando: aquecimento global, conflitos violentos, avanço de movimentos extremistas e, agora, programas capazes de criar textos, imagens e vídeos em segundos. Na cabeça dele, tudo isso se mistura numa dúvida central: quanto controle, de fato, ainda temos sobre o nosso futuro?
Para alguns jovens adultos, a IA simboliza a sensação de que a geração deles quase não tem mais influência sobre o rumo das coisas.
Esse tipo de sentimento não é raro. Psicólogos relatam há alguns anos um aumento forte na procura de jovens adultos que, entre crises constantes e euforia tecnológica, simplesmente se sentem “atropelados”. Em consultórios, a IA passou a aparecer nas conversas quase com a mesma frequência que redes sociais ou pressão por desempenho na faculdade.
Todo mundo usa IA - menos eu: a sensação de estar fora do tempo
Em paralelo, a maioria dos menores de 25 anos já trata ferramentas de IA como ajuda do dia a dia. Segundo uma pesquisa na França, quase nove em cada dez adolescentes e jovens adultos já testaram serviços como Gemini, Perplexity, Grok, ChatGPT ou Claude. Aproximadamente três quartos usam semanalmente - principalmente para:
- pesquisar para escola, universidade ou trabalho,
- redigir textos e e-mails,
- receber apoio em deveres e apresentações,
- brincar criativamente com imagens, vídeos ou música,
- e tirar dúvidas pessoais sobre relacionamentos, saúde ou rotina.
Quem decide abrir mão disso num ambiente assim rapidamente se sente um “ponto fora da curva”. Um jovem que trabalha numa rádio em uma cidade do interior da França diz que, por muito tempo, achou que IA era um projeto de nicho de alguns fãs de tecnologia. Só quando colegas comentaram no estúdio e passaram a assistir documentários sobre o tema ele percebeu o quanto o uso já estava espalhado. A reação imediata dele: “Será que eu perdi alguma coisa?”
Esse incômodo também aparece entre universitários na Alemanha: metade da turma já trabalha com chatbots em seminários, enquanto a outra tenta seguir sozinha com apostilas e livros. Quem continua no caminho “sem IA” logo tem a impressão de ser mais “lento” e menos eficiente - e, ainda assim, mantém a desconfiança.
Por que jovens resistem de propósito à IA
Os motivos para resistir são variados e, muitas vezes, guiados por emoção. Em conversas com jovens adultos, as justificativas costumam se repetir.
Medo de perder o emprego e desvalorização do trabalho
Quem está começando a carreira em mídia, marketing, design ou programação sente na pele como o campo está mudando. Se um modelo entrega em segundos um primeiro rascunho de texto, um logotipo ou uma linha de código, a pergunta vem junto: será que eu, como pessoa, vou ficar dispensável?
Muitos que evitam IA enxergam essa escolha como um protesto silencioso. A intenção é sinalizar que trabalho cuidadoso, humano, vale mais do que a produção rápida de um sistema - e que pesquisa, técnica e intuição têm valor que não dá para medir em tokens e poder de processamento.
Desconfiança de empresas de dados
A isso se soma uma desconfiança profunda de grandes empresas de tecnologia. Quem cresceu acompanhando escândalos de dados, rastreamento e publicidade personalizada se pergunta: por que eu confiaria a um chatbot pensamentos íntimos, questões de saúde ou problemas de relacionamento?
Muitos que recusam IA temem:
- que o que digitam seja usado para treinar novos modelos,
- que temas sensíveis acabem, em algum momento, em algum banco de dados,
- que surjam dependências das quais seja difícil sair.
Vontade de “pensar de verdade”
Há ainda um impulso quase romântico: a necessidade de raciocinar por conta própria. Quem já passou a vida escolar com o Google e agora vê até perguntas complexas sendo terceirizadas para uma máquina começa a se perguntar: o que sobra de mim como alguém que pensa?
Muitos jovens e jovens adultos têm medo de perder a própria voz quando passam toda ideia primeiro por um chatbot.
Em profissões criativas, essa preocupação aparece com frequência. Quem escreve, desenha ou compõe pode se sentir ameaçado por ferramentas que geram conteúdo “com um clique”. Dizer não, de forma consciente, pode soar como uma maneira de proteger a própria assinatura.
Como outras pessoas usam IA - e onde surgem os conflitos
A rejeição de uma minoria encontra uma maioria que já incorporou a IA como algo óbvio. No cotidiano, isso cria atritos.
| Situação | Uso típico de IA | Potencial de conflito |
|---|---|---|
| Projeto na universidade | IA faz o roteiro, resume textos técnicos, pré-formula trechos | Quem trabalha sem IA se sente em desvantagem ou considera o trabalho dos outros pouco rigoroso |
| Candidatura a vaga | Currículo e carta de apresentação são otimizados via prompt | Candidatos críticos à IA enxergam isso como distorção da própria personalidade |
| Lazer | Chatbot escolhe restaurante, destinos de viagem ou receitas | Quem recusa IA percebe essas escolhas como “sem alma” |
| Redes sociais | Imagens, vídeos e letras de música gerados por IA | Conteúdo real e artificial quase não se separa; a confiança diminui |
Em grupos de amigos, isso vira fricção prática: um quer que o ChatGPT trace a rota perfeita para um fim de semana numa cidade; outra prefere passar horas folheando guias de viagem. A busca por um meio-termo deixa de ser só questão de gosto e vira quase um debate de princípio sobre tecnologia e autodeterminação.
Entre um “não” radical e um uso consciente
Nem todo mundo que se sente desconfortável com IA parte para um boicote total. Muita gente tenta construir um caminho intermediário: usa chatbots em tarefas chatas e repetitivas, mas, em atividades criativas, aposta rigorosamente no próprio cérebro. Ou faz testes apenas em modo privado, mas evita usar no trabalho.
Com isso, surgem estratégias próprias para reduzir a sensação de sobrecarga:
- regras claras sobre para que a IA pode ser usada - e para que não pode,
- “zonas offline”, por exemplo ao estudar ou ao escrever um diário,
- combinados em equipe ou em grupos de estudo,
- reflexão crítica: de onde vem a resposta? que interesses podem estar por trás?
Quem adota esse tipo de postura costuma dizer que se sente menos à mercê do ritmo tecnológico. Para essas pessoas, a IA vira mais uma ferramenta - e não o metrônomo da rotina.
O que o desconforto com a IA realmente revela
A escolha de não usar ferramentas de IA fala menos de aversão à tecnologia e mais de um conflito de fundo: como jovens querem viver numa época em que quase toda decisão, toda ideia criativa e todo problema pode, em teoria, ser delegado a máquinas?
Ao dizer não, essas pessoas levantam, de forma indireta, perguntas que vão muito além de ChatGPT e similares:
- Quanto controle eu quero abrir mão?
- Como eu reconheço o que ainda é “de fato” humano?
- O caminho até o resultado importa para mim - e não apenas o resultado?
Há ainda um tema frequentemente subestimado: identidade. Justamente na fase em que se trata de se encontrar profissional e pessoalmente, a oferta constante de respostas “perfeitas” pode desestabilizar. Se um bot escreve de forma mais segura, pesquisa com mais precisão e planeja mais rápido, a própria insegurança parece ainda mais exposta.
Ao mesmo tempo, recusar IA também traz riscos. Quem evita essas ferramentas de forma categórica pode reduzir oportunidades na universidade ou no mercado de trabalho. Muitas ocupações do futuro provavelmente exigirão ao menos um entendimento básico desses sistemas. Por isso, um caminho totalmente livre de tecnologia fica restrito a poucos casos - por exemplo, em áreas manuais ou sociais, nas quais o contato humano é o centro.
E fica a questão de como escolas, universidades e empregadores vão lidar com isso. Instituições de ensino devem integrar ferramentas de IA de maneira explícita e estabelecer regras de uso? Ou é melhor manter distância para proteger a autoria e o esforço individual? Algumas universidades já apostam na transparência: o uso é permitido, mas precisa ser declarado. Assim, quem não quer participar tem ao menos a chance de escolher com consciência - em vez de ficar para trás por desconhecimento.
Para muitos jovens, viver com IA no dia a dia vira, portanto, um exercício de equilíbrio: entre curiosidade e desconfiança, conveniência e desejo de autonomia, eficiência e vontade de “pensar de verdade”. Se, no fim, eles se tornam adeptos do “não” digital ou power users críticos depende menos da tecnologia em si e mais de quanto responsabilidade sociedade, política e empresas realmente oferecem a eles durante essa transformação.
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