Depoimento de Elon Musk no tribunal de Oakland
A voz de Elon Musk ecoou por cerca de duas horas na sala de audiências do tribunal de Oakland, quando ele subiu ao banco das testemunhas pela primeira vez para justificar por que pretende desmontar a OpenAI no formato em que ela existe hoje. O CEO da Tesla, gigante dos carros elétricos, chegou ao Tribunal Distrital Ronald V. Dellums, no norte da Califórnia, em um Cadillac, usando terno e gravata. Assim começava o julgamento movido contra a OpenAI e seu CEO, Sam Altman, pelo homem mais rico do mundo - e um dos nomes mais influentes do Vale do Silício.
“Não é aceitável roubar uma caridade”, afirmou Elon Musk, a primeira testemunha chamada após as sustentações iniciais. Na visão dele, se a OpenAI e Sam Altman não forem responsabilizados, isso “daria carta branca ao saque de todas as instituições de caridade na América.” Pouco antes, o advogado de Musk, Steen Molo, havia comparado a disputa ao caso de uma loja de museu que passa a mandar no próprio museu. “A loja de um museu não pode saquear a musa, roubar os Picassos e usá-los para fazer lucros”, defendeu.
Ao depor, Musk citou a série “Star Trek”, o filme “Exterminador Implacável” e a Neuralink, sua empresa de microchips cerebrais. Também apresentou a sua versão sobre a criação da OpenAI, falou da rivalidade com o Google e relatou até como teria alertado o então presidente Barack Obama sobre os riscos da inteligência artificial.
“A minha preocupação de longo prazo sobre a IA é o que acontecerá quando o computador se tornar muito mais inteligente que os humanos?”, disse aos jurados. Ele afirmou que, desde o começo, não queria que a OpenAI tivesse objetivos lucrativos.
“Não quero financiar a OpenAI para desenvolver IA segura e depois descobrir que estava a fazer IA insegura”, disse, sustentando que a condição de organização sem fins lucrativos fixaria - de forma definitiva - a missão da entidade.
A defesa da OpenAI, porém, apresentou uma narrativa diferente. “Estamos aqui porque Musk não levou avante a sua vontade na OpenAI”, declarou o advogado William Savitt. “Os meus clientes tiveram a ousadia de serem bem-sucedidos sem ele. O sr. Musk não gostou disso.”
Segundo Savitt, o ressentimento só teria surgido depois do lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, quando a OpenAI deu início à onda da IA generativa. “Foi aí que a inveja apareceu.”
O que está em causa
Nas próximas semanas, um júri de nove pessoas deverá decidir sobre duas acusações centrais: se Sam Altman e a OpenAI violaram seu dever fiduciário ligado ao mandato não caritativo e se houve enriquecimento ilícito ao transformar a OpenAI em uma operação orientada ao lucro, apesar de ela ter sido criada como organização sem fins lucrativos.
Essa conclusão ainda passará pelo crivo da juíza Yvonne Gonzalez Rogers, responsável pela decisão final e por eventuais medidas corretivas ou punições. Entre as testemunhas listadas, além de Musk e Altman, estão o CEO da Microsoft, Satya Nadella, o diretor de tecnologia da Microsoft, Kevin Scott, e o presidente da OpenAI, Greg Brockman.
O processo foi protocolado em 2024 e, desde então, passou por várias revisões, com a retirada de diversas alegações. Se vencer, Musk quer forçar a OpenAI a retomar a missão sem fins lucrativos, tirar Sam Altman do comando e receber uma megaindenização de 134 bilhões de dólares, a ser paga pela OpenAI e pela Microsoft - que ele acusa de conivência na violação do contrato de fundação. O valor foi estimado pelo economista C. Paul Wazzan e se apoia na tese de que a OpenAI não existiria sem o capital-semente aplicado por Musk (38 milhões, ou 60% do total).
Como tudo começou
Em dezembro de 2015, Elon Musk integrou o grupo de 11 cofundadores da OpenAI, ao lado de Sam Altman (na época presidente da incubadora Y Combinator), Greg Brockman (ex-diretor de tecnologia da Stripe), Ilya Sutskever (ex-cientista do Google) e Andrej Karpathy (pesquisador que mais tarde se juntaria à Tesla). A iniciativa, segundo a narrativa, partiu de Sam Altman, que enviou um e-mail a Musk propondo um “projeto Manhattan” para a IA - alusão ao programa liderado por J. Robert Oppenheimer em 1942 que culminou na bomba atômica. Interessado em impedir que o Google dominasse o setor de IA, Musk aderiu à proposta.
Meses depois, a instituição foi estabelecida como entidade sem fins lucrativos, com a missão de garantir que o desenvolvimento da Inteligência Artificial Geral (AGI) beneficiaria a humanidade, além do compromisso de disponibilizar sua tecnologia gratuitamente ao público. Esse modelo durou pouco: em 2019, a organização passou a operar como uma entidade de lucros limitados para captar recursos, ainda que preservando o objetivo humanitário.
Quando essa mudança ocorreu, Musk já havia deixado a OpenAI, após tentar assumir o controle da entidade e, em 2018, buscar uma fusão com a Tesla - proposta rejeitada pelos demais cofundadores. Ele também chegou a criar sua própria empresa no setor, a xAI.
ChatGPT, GPT-4 e a escalada do conflito
A virada do embate, segundo o quadro descrito, veio com o foco no GPT-4 e com a parceria com a Microsoft, que investiu 13 bilhões de dólares na criadora do ChatGPT - fatores que levaram Musk a processar a OpenAI e o próprio Sam Altman.
A ação foi apresentada três meses depois de integrantes do conselho da OpenAI - incluindo Ilya Sutskever - terem tentado afastar Sam Altman do cargo de CEO. A justificativa do grupo era que Altman estaria acelerando a comercialização da IA em detrimento de salvaguardas e segurança, além de não ser transparente com o conselho. A tentativa fracassou.
No processo, Musk reproduziu parte dessas preocupações, em uma disputa que recebeu várias emendas - inclusive porque a OpenAI fez a transição para uma empresa com fins lucrativos no fim de 2025. Avaliada hoje em cerca de 730 bilhões de dólares, a empresa de Sam Altman respondeu que tudo não passa de uma estratégia de Musk para prejudicar a concorrência por meio de armadilhas legais.
O desfecho do confronto deve afetar de forma relevante o futuro da IA. Se Musk vencer, a concorrência da OpenAI também sai ganhando, incluindo Google, Anthropic, DeepSeek e xAI. Se Musk perder, Sam Altman tende a consolidar seu poder dentro da OpenAI e a permanecer na dianteira da corrida pela criação da AGI, que muitos desejam e tantos outros temem.
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