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# Assistência à saúde moderna: alta tecnologia, menos conexão humana, dizem Bob Klaber, Maureen Bisognano e Donald Berwick no The BMJ

Médico segurando a mão de paciente idoso em consulta, com tablet e equipamentos médicos ao fundo.

A assistência à saúde tornou-se uma das maiores conquistas técnicas da sociedade contemporânea.

Hoje, hospitais recorrem a inteligência artificial para reconhecer padrões de doenças, usam ferramentas robóticas como apoio em cirurgias e contam com sistemas de imagem capazes de mapear o corpo com um nível de detalhe impressionante.

Com isso, médicos conseguem chegar a diagnósticos em menos tempo, e tratamentos que antes pareciam fora de alcance passaram a fazer parte do dia a dia. Ainda assim, muitos pacientes saem do hospital com a sensação de que não foram vistos, não foram ouvidos e ficaram emocionalmente esgotados.

Um artigo de opinião recente na The BMJ, assinado por Bob Klaber, Maureen Bisognano e Donald Berwick, discute como a assistência à saúde atual se tornou extremamente sofisticada - e, ao mesmo tempo, menos pessoal.

Os autores, ligados ao Imperial College Healthcare NHS Trust, em Londres, e ao Institute for Healthcare Improvement, em Boston, afirmam que esse distanciamento crescente abriu uma crise moral na medicina.

A assistência à saúde está perdendo a conexão humana

A medicina contemporânea ganhou uma eficiência notável. Hospitais conseguem atender volumes enormes de pacientes todos os dias, e sistemas de saúde tendem a definir “sucesso” por métricas como rapidez, produtividade e resultados financeiros.

Só que essa eficiência cobra um preço pouco visível. Não é raro que pacientes relatem a sensação de estarem sendo “processados”, e não cuidados. As consultas parecem corridas.

Em muitas situações, médicos passam boa parte do tempo digitando no computador durante o atendimento, em vez de manter contato visual. Enfermeiros alternam entre tarefas administrativas intermináveis enquanto tentam lidar com enfermarias lotadas.

Para os autores, isso representa a erosão das “bases humanas, morais e relacionais do cuidado”.

As ferramentas seguem entregando resultados: cirurgias continuam sendo feitas, e medicamentos continuam salvando vidas. Mesmo assim, cuidar e curar envolve mais do que acertar tecnicamente.

O lucro agora molda o cuidado ao paciente

O texto aponta outra força que vem alterando sistemas de saúde no mundo: o lucro.

Donald Berwick já usou a expressão “salve lucrum”, isto é, “salve, lucro”, para descrever a influência crescente do dinheiro na assistência à saúde.

Em muitos países, instituições de saúde respondem cada vez mais a metas financeiras, acionistas, seguradoras e pressões corporativas.

Quando o sistema premia velocidade e volume acima de qualquer outra coisa, sobra menos tempo para que profissionais construam confiança com quem está do outro lado. Médicos podem sentir que precisam acelerar as consultas. Hospitais podem concentrar energia no que é fácil de medir e deixar em segundo plano o bem-estar emocional.

Os Estados Unidos exibem esse padrão com maior nitidez, mas os autores sustentam que tendências semelhantes estão se espalhando globalmente. A assistência à saúde corre o risco de virar, primeiro, uma indústria - e só depois uma profissão de cuidado.

Pacientes reduzidos a médias médicas

A padronização do cuidado trouxe ganhos reais de segurança. Protocolos ajudam a diminuir erros e criam mais consistência entre hospitais.

A medicina baseada em evidências já preservou incontáveis vidas. Ainda assim, os autores alertam que a assistência à saúde moderna, muitas vezes, enxerga pacientes como “médias” em vez de indivíduos.

Victor Montori e colegas descreveram esse problema anos atrás como oferecer “cuidado para pessoas como você, em vez de cuidados para você”.

A diferença é importante porque adoecer é algo íntimo. Dois pacientes com o mesmo diagnóstico podem ter medos, responsabilidades e objetivos completamente diferentes.

Um pode querer viver mais tempo a qualquer custo; outro pode colocar a independência ou o conforto como prioridade.

Checklists e trilhas de cuidado não conseguem capturar totalmente essas variações.

O burnout enfraquece os profissionais de saúde

Quem trabalha na assistência à saúde também está sob pressão. Médicos, enfermeiros e outros clínicos relatam aumento de burnout, exaustão emocional e sofrimento moral.

Muitos entraram na medicina para ajudar pessoas, mas hoje gastam uma fatia considerável do dia com formulários, codificação de informações e exigências administrativas.

A The Lancet descreveu recentemente esse cenário como uma crise de atenção.

Ouvir um paciente de verdade exige energia emocional e presença mental. Porém, muitos profissionais já chegam drenados antes mesmo de a consulta começar.

“Você não pode dar o que não tem”, observaram os autores.

Um profissional submetido a pressão incessante pode cumprir todas as tarefas exigidas, mas manter a compaixão fica mais difícil quando o cansaço domina.

Sistemas valorizam metas acima da compaixão

Julia Unwin, ex-líder da Joseph Rowntree Foundation, apresenta uma das ideias mais úteis do artigo. Para ela, políticas públicas falam duas línguas.

Uma é a língua racional, centrada em metas, medições, eficiência e indicadores de desempenho.

A outra é a língua relacional, voltada para gentileza, confiança, dignidade e conexão emocional.

Sistemas de saúde ficaram extremamente fluentes na língua racional e, aos poucos, foram perdendo confiança na língua relacional.

O resultado é um sistema capaz de medir quase tudo - exceto aquilo que muitos pacientes mais valorizam.

A gentileza salva vidas

Um dos pontos mais fortes do artigo é afirmar que gentileza não é enfeite sentimental: ela produz efeitos mensuráveis.

Michael West, professor de psicologia organizacional na Lancaster University, liderou pesquisas de grande porte sobre a cultura de trabalho no NHS.

Seus resultados indicaram que hospitais onde as equipes se sentiam apoiadas e valorizadas apresentavam, de forma consistente, taxas menores de mortalidade de pacientes.

“Cuidar dos pacientes exige cuidar da equipe”, concluiu West.

Segurança psicológica, trabalho em equipe, compaixão e liderança de apoio influenciam diretamente a qualidade do cuidado que os pacientes recebem.

Mudando o foco do cuidado

O artigo destaca uma pergunta que vem ganhando espaço em sistemas de saúde ao redor do mundo: “O que importa para você?”

Essas quatro palavras reposicionam a conversa. Em vez de concentrar tudo apenas na doença, elas abrem espaço para o paciente expor prioridades, medos e metas.

Essa troca simples pode transformar o diálogo clínico. Um plano terapêutico pode parecer bem-sucedido no papel e, ainda assim, fracassar por completo se ignorar a vida real do paciente.

Os autores não sugerem que os problemas da assistência à saúde sejam resolvidos da noite para o dia. Pressões financeiras, falta de profissionais e engrenagens administrativas continuam sendo forças poderosas.

Mesmo assim, eles insistem que a mudança pode começar em ações cotidianas - um médico que escuta sem pressa, um enfermeiro que demonstra compaixão ou uma liderança hospitalar que sustenta e protege sua equipe.

A medicina moderna alcançou feitos extraordinários. O desafio agora é garantir que a conexão humana sobreviva lado a lado com o progresso tecnológico.

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