O gigante alemão está fazendo as malas e fincando bandeira em um dos continentes onde a indústria do carro elétrico realmente opera em ritmo máximo. Que coincidência curiosa!
Seria este um efeito colateral da crise que a Volkswagen enfrenta há mais de um ano na sua migração para a eletrificação? Depois de ficar tempo demais com perda de competitividade nesse segmento, o grupo concluiu que não dava mais para permanecer parado. Pela primeira vez em sua longa trajetória, a Volkswagen decidiu desenvolver parte de seus novos modelos bem longe da Europa, instalando-se na China, berço do veículo elétrico. Diante da turbulência financeira que atravessa há meses, havia mesmo alternativa?
Feito na China: a sobrevivência vem antes do orgulho
Quando a onda de choque das montadoras chinesas atingiu a Europa, diversos fabricantes foram obrigados a refazer planos. Para piorar, essa pressão chegou praticamente ao mesmo tempo em que a eletrificação acelerou, o que esteve longe de ser um presente para as marcas europeias tradicionais - para elas, foi um cenário difícil de engolir. Isso valeu para o grupo Stellantis, para a Renault e até para algumas marcas premium como Mercedes e BMW, ainda que essas estejam relativamente mais protegidas. A Volkswagen também não ficou de fora e foi atingida em cheio pela ofensiva de BYD, Geely/Volvo/Polestar, MG/SAIC, Nio e Xpeng.
Um centro de desenvolvimento e testes da Volkswagen em Hefei
Para recuperar fôlego, a empresa aposta, antes de tudo, em um novo centro de desenvolvimento e testes que será inaugurado em Hefei (província de Anhui, no leste da China). Segundo Oliver Blume, CEO do grupo, a organização precisa ser “mais rápida e mais eficiente”, e ele acrescenta que essa nova base também vai permitir criar veículos ajustados às necessidades do mercado local.
A unidade de Hefei reunirá o que hoje falta à operação europeia: em uma área de 100.000 m², o local contará com mais de 100 laboratórios, além de bancadas de ensaio para validar baterias, motores elétricos, eletrônica, software e a integração completa das plataformas. A marca mira uma redução de 30% no tempo de desenvolvimento por veículo com essa centralização, que deve viabilizar ciclos de iteração bem mais rápidos do que na Europa.
Como era de se esperar, a Volkswagen vai se apoiar no ecossistema industrial chinês, que é amplo e maduro. Há fornecedores de autopeças, empresas focadas em hardware automotivo e direção autônoma, produtores de baterias, fabricantes de módulos eletrônicos embarcados, entre outros. Todos já operam com prazos extremamente curtos - uma cultura industrial capaz de dar a agilidade que faltava para enfrentar as montadoras chinesas.
Veículos com custo menor
Com o novo hub em Hefei, a Volkswagen afirma que consegue diminuir os custos de desenvolvimento de um carro novo em “até 50%” em determinados projetos. Ao produzir tudo localmente, “o software, o hardware e a validação completa do veículo podem ser conduzidos em paralelo”, de acordo com Thomas Ulbrich, diretor técnico da Volkswagen Group China. Isso encurta o ciclo e reduz os antigos vai-e-vens entre centros de engenharia europeus e fábricas asiáticas, deslocamentos que invariavelmente esticavam os cronogramas.
Plataforma CEA, prazos e destinos fora da Europa
A primeira base elétrica que sairá de Hefei, batizada de CEA (China Electric Architecture), deve permitir que a Volkswagen consolide todas as funções essenciais do veículo em um único sistema computacional. As primeiras entregas, oficialmente, estão previstas para daqui a um ano e meio, um prazo consideravelmente menor do que o praticado em plataformas anteriores.
Os veículos produzidos nesse centro recém-criado também serão destinados ao Oriente Médio e ao Sudeste Asiático. Até aqui, a montadora não planeja exportá-los para a Europa, possivelmente por causa das exigências de homologação mais pesadas ou simplesmente porque pretende concentrar volume em regiões com forte crescimento econômico.
Ver uma das fabricantes que ajudaram a formar a cultura automotiva europeia transferir parte do seu saber-fazer para a China é sinal de vigor? É difícil sustentar essa leitura; o movimento parece indicar, antes, que a transição elétrica europeia avança devagar demais para atender às necessidades de um gigante em desaceleração. Em Hefei, a Volkswagen tende a encontrar aquilo que seu próprio continente já não consegue assegurar: um ambiente de produção com decisões rápidas e uma cadência industrial alta. É a mesma lógica que sustentou sua força na Alemanha nos anos 1970, quando a Europa ainda conseguia impor padrões técnicos ao mundo, em vez de tentar acompanhar aqueles definidos agora pela Ásia. Talvez essa realocação marque o início de um segundo auge. Por outro lado, mantendo o realismo, a hipótese oposta também é plausível: essa transformação pode fragilizar sua identidade industrial, já pressionada pela transição para o elétrico.
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