A Assembleia Nacional votou pela manutenção da isenção total do malus ao peso para todos os veículos elétricos. A mudança de rota, pouco esperada, livra os SUVs elétricos mais pesados da cobrança e sinaliza um ajuste importante na forma como o governo vem lidando com a expansão do elétrico.
Para as montadoras e para quem pretende comprar um carro elétrico, a decisão foi recebida como um alívio. Em 17 de novembro de 2025, a Assembleia Nacional havia aprovado um emenda relevante que endurecia as regras de isenção do malus ao peso para todos os veículos 100% elétricos e a hidrogênio, independentemente de origem ou massa. Já nesta sexta-feira, 30 de janeiro, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu permitiu que a Lei de Finanças 2026 avançasse, ao acionar o artigo 49-3. Na segunda-feira, 2 de fevereiro, o orçamento acabou aprovado - e veio a surpresa: o malus ao peso para carros elétricos simplesmente não aparece nos textos.
O que o projeto da Lei de Finanças 2026 previa para o malus ao peso
O espanto se explica porque, na versão inicial, a Lei de Finanças 2026 desenhava um aperto considerável. A partir de 1º de julho de 2026, só continuariam isentos do malus ao peso os elétricos que atingissem um “eco-score” mínimo (ou seja, que comprovassem baixa pegada de carbono conforme os critérios da ADEME). Já os demais modelos teriam direito a um abatimento de 600 kg para compensar a massa das baterias, mas passariam a pagar imposto acima desse desconto.
Quanto isso pesaria no bolso dos SUVs elétricos mais pesados
Na prática, um SUV elétrico de 2.200 kg seria tributado sobre 1.600 kg após o abatimento, o que resultaria em um malus de aproximadamente 1.000 euros. Para os veículos mais pesados, o valor poderia chegar a 21.000 euros, segundo estimativas do setor. Isso colocaria pressão sobre a atratividade dos elétricos justamente no momento em que, para veículos a combustão, o limite de acionamento do malus ao peso caiu para 1.500 kg desde 1º de janeiro de 2026.
A emenda que consolidou a reviravolta, apresentada pelo deputado Jean-Luc Fugit (da base presidencial), defendeu a decisão com argumentos práticos. O texto afirma: “Essa medida vai contra os objetivos do planejamento ecológico, que fixou uma meta ambiciosa de 15% de veículos 100% elétricos circulando em 2030”. Na avaliação de parlamentares, “o sinal enviado aos consumidores é o de uma tributação punitiva sobre o elétrico”, o que colidiria com as metas de transição energética.
Um recuo que contraria o Executivo
A guinada evidencia atritos dentro da maioria sobre qual caminho seguir na indústria automotiva. No início, o governo era contrário a essa emenda e defendia um modelo mais direcionado, com o objetivo de favorecer a produção europeia diante da concorrência chinesa. A intenção era criar uma vantagem fiscal para veículos elétricos fabricados na Europa e alinhados a critérios ambientais rigorosos.
Ainda assim, os deputados optaram por outra leitura: o mercado “ainda não está maduro o suficiente” para que compradores sejam penalizados. A escolha ganha força quando se observa que, ao mesmo tempo, o malus de CO2 para veículos a combustão continua ficando mais severo. Em 2026, 72% dos carros novos serão atingidos por esse imposto, de acordo com a consultoria Dataneo. Até mesmo o novo Renault Clio 6 na versão a gasolina de entrada teria de pagar 190 euros de malus, com 114 g/km de CO2.
O recuo não ficou restrito a esse tema. O próprio governo também apresentou uma emenda para cancelar os endurecimentos previstos para 2028. O limite do malus de CO2 deveria cair para 98 g/km, com teto de 100.000 euros - mas essas mudanças foram abandonadas. Com isso, permanecem as tabelas de 2026-2027, com acionamento em 108 g/km em 2026 e depois 103 g/km em 2027.
Além disso, o malus retroativo para alguns veículos usados, que deveria entrar em vigor já em janeiro de 2026, foi adiado para 2027. Por fim, outra emenda criou um abatimento de 20% no malus de CO2 para veículos de locação de curta duração, dando fôlego a locadoras como Hertz, Avis e Europcar.
Elétrico vs. combustão: o governo definiu o rumo
Para quem compra carro, o cenário fica mais legível. Veículos elétricos ficam totalmente fora do malus ao peso e passam a contar com ajudas mais fortes: até 5.700 euros para famílias em situação precária, 4.700 euros para famílias de baixa renda e 3.500 euros para os demais lares. A bonificação de “bateria europeia” também sobe, de 1.200 para 2.000 euros dependendo das montadoras. Assim, um comprador de baixa renda pode acumular até 7.700 euros em incentivos.
No sentido oposto, os veículos a combustão enfrentam uma pressão tributária maior. O malus de CO2 pode alcançar 80.000 euros para modelos acima de 192 g/km, o que representa 10.000 euros a mais do que em 2025. Já o malus ao peso passa a atingir carros a partir de 1.500 kg, com um cálculo progressivo de 10 a 30 euros por quilo excedente, conforme as faixas.
Com isso, a decisão política ganha um tom quase filosófico. Ao preservar a vantagem fiscal do elétrico sem diferenciar origem, a França prioriza a transição energética no curto prazo, mesmo que isso enfraqueça uma estratégia industrial de relocalização. É uma aposta na aceleração da migração para o elétrico - ainda que mantenha espaço para um aumento de importações, especialmente vindas da China.
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